Quem ainda crê que os movimentos políticos modernos e as ideologias nascem do cérebro racional da espécie é ignorante ou mentiroso. Tais movimentos e suas militâncias são da mesma ordem do fanatismo religioso. Por isso, pouco adianta tentar esgrimir com tais agentes. Esse ato seria semelhante a esgrimir com um enxame.
Nascente indumentária explica, pelo menos em segmento, a estupidez que circula pelas redes sociais entre os “haters” engajados na polarização. O nível mais cimeira de lucidez que atravessa essa cultura de bactérias, que são as redes, é aquele que caracteriza os movimentos répteis.
O filósofo britânico John Gray lançou em 2007 “Black Mass, Apocalyptic Religion and the Death of Utopia”, que agora está sendo relançado no Brasil uma vez que “Missa Negra, Religião Apocalíptica e a Morte da Utopia”.
Quem conhece sua obra sabe que o filósofo britânico é um duro crítico do mito do progresso. Concordo com Gray que o progresso é um mito, afora os avanços tecnológicos desde a invenção de uma vez que fazer o queimada. Mas, no que se refere ao comportamento humano, à moral e à política, a teoria de progresso desde o Iluminismo é idiota. Entretanto, o número de iludidos que nele creem nunca para de crescer.
Outro traço do pensamento de Gray é sua suspeita de que os animais, no seu “silêncio”, são mais sábios do que nós. Aliás, seu livro “Silêncio dos Animais” é um dos mais belos que já li.
A tese da sua “Missa Negra” é que todas as crenças políticas revolucionárias modernas são derivadas de crenças apocalípticas judaicas e cristãs. Mesmo passando pela secularização, a tara com o término do mundo tal uma vez que conhecemos e o surgimento do “novo mundo perfeito” permanece. E não só esse vista foi mantido.
Todos sabemos que as narrativas apocalípticas são marcadas pela violência, mortes do que são maus, sobrevida dos eleitos. Uma vez que não pensar na Revolução Francesa ou na Russa? Ou na Revolução Islâmica Iraniana?
Gray deixa evidente que mesmo nas crenças ideológicas liberais, marcadas pela teoria de aperfeiçoamento incremental do mundo, permanece a teoria de que o “mercado” salvará o mundo e os homens. O otimismo liberal de mercado é, também, um filhote da tara apocalíptica. Daí, a aprovação que os incapazes de mourejar muito com a lógica da eficiência e da competição do mercado não têm méritos para viver no novo mundo da riqueza material.
O que sustenta as posições ideológicas do mundo contemporâneo são taras irracionais religiosas secularizadas. Lendo essa coisa chamada “comentários”, na sua imensa maioria, vemos a pequena miséria humana na sua forma explícita.
Sabemos que a justificativa dessa prática na mídia não tem zero a ver com “princípios democráticos”, mas, exclusivamente, sim, trata-se de princípios de marketing. Há que dar voz aos consumidores, mesmo que a maior segmento do que circula por esse “ecossistema” seja puro lixo. Do ponto de vista do teor, não faria nenhuma falta. Os “comentários” são um parquinho para crianças raivosas, com raras exceções.
O componente irracional humano é o que move a adesão ideológica. Não é o libido de melhorar o mundo, mas, sim, o paladar de sangue. Se não fosse isso, por que tantos revolucionários sempre gozaram com a termo “terror”? A paixão pelo terror é a paixão política precípuo em questão.
Uma vez que diz Gray, com os movimentos políticos modernos, a tara apocalíptica, que na Antiguidade, era essencialmente um traço de indivíduos periféricos e esquisitos da miserável sociedade israelita do período do Segundo Tempo sob domínio romano, em si periférica, hoje se fez “mainstream”.
Discute-se em aulas na universidade, escreve-se em livros de autores com PhD, encena-se em peças de teatro com aprovação da sátira regadas a vinho dispendioso em restaurantes descolados, apresenta-se em programas de debates da televisão e podcasts, enfim, as taras com o término do mundo tal uma vez que conhecemos e a geração de um mundo novo e perfeito são tratadas uma vez que ciência social, histórica e política.
Profetas do terror uma vez que Marx, Lênin, Foucault, entre outros, recebem o tratamento de “especialistas” nas sociedades dos homens, quando, na veras, não entendem patavina acerca de quem vai à feira comprar ovos e tomates para manducar em suas casas de pobres.
A teoria de que existe um componente moral significativo na espécie humana pode ser inconsistente. Veja, por exemplo, a indiferença de grande segmento da prensa e dos países para com os mortos iranianos. Um blábláblá cá, outro ali. Cadê toda aquela indignação? E as bandeiras? A verdade é que os aiatolás podem matar à vontade. O mundo é um circo de horrores e continuará sendo.
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