É estranho considerar que Milo Rau pensa sobre divertir o público. O diretor suíço costuma ser lembrado pela violência que representa no palco, por abordar crises humanitárias e pela crueza com que desenvolve personagens, uma vez que acontece nos três espetáculos que trouxe à MITsp em 2019. De volta ao evento, ele vê “A Missiva” uma vez que um manobra ligeiro, com poucos adereços e várias tradições populares para explorar.
“Com só dois atores, a teoria era erigir uma dinâmica simples entre eles e o público e restaurar bases fundamentais do teatro. Tirei de cena diversos artifícios que costumo usar, com o objetivo de valorizar o gavinha entre os corpos que falam no palco e aqueles que os testemunham”, diz ele, que criou a apresentação a partir de uma linguagem simples de se compreender e de se levar para outros países.
Por fim de contas, apesar das barreiras linguísticas entre o elenco e as plateias que vêm encontrando pelo mundo, o objetivo é que as frases do suposto texto-título —em certos momentos mais literal do que em outros— abordem desde dramas individuais até acontecimentos históricos.
Isso porque “A Missiva” reúne confissões pessoais, feitas pelo ator belga Arne De Tremerie e pela atriz francesa Olga Mouak, menções a tramas clássicas, uma vez que “A Gaivota”, de Anton Tchekhov, e a de Joana D’Arc, e dramatizações com participações externas e reflexões políticas comuns à curso de Rau.
Na superfície, os artistas dividem um manifesto com uma hora e pouco de duração, em que tiram sarro de hierarquias mundiais e recorrem a pistolas falsas, roupas medievais e outros objetos pontuais. Na prática, porém, compartilham também histórias de vida, convidam espectadores a ler trechos de outras obras e transmitem vozes de parentes mortos, recuperadas via perceptibilidade sintético.
A encenação almeja uma experiência imprevisível, que mistura técnicas, debates filosóficos e bandeiras sociais uma vez que o MeToo e embaralha o universo privado do elenco, seus personagens e a esfera pública de quem assiste.
“Eu sempre gostei de trabalhar com pessoas”, afirma Rau. O diretor relembra “Antígona na Amazônia”, peça de 2023 que exigiu dele uma viagem ao Pará e uma parceria com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terreno (MST), formado por trabalhadores rurais que defendem a reforma agrária. O resultado foi um espetáculo em que atores atuam sobre grãos de terreno e telões projetam imagens da devastação ambiental.
“Nem todos ali eram ativistas, mas isso não era necessário. As suas interpretações eram o suficiente para simbolizar uma veras e a biografia de todos os envolvidos não deixou de ser principal. Todos morrem sozinhos, todos enfrentam a solidão e todos são também interessantes.”
Entre participações de espectros, o encenador ainda insere falas de atrizes uma vez que Isabelle Huppert e Anne Alvaro. O intuito não é invocar a atenção para celebridades uma vez que elas, mas variar as narrativas que saltam do palco. Sobre o narcisismo que ocupa redes sociais, aliás, Rau afirma que o teatro é um ótimo espaço para externalizar dúvidas que surgem desse estado individualista.
Em cena, inclusive, um dos elementos que amplifica a identificação entre o público e os intérpretes é a motivação dos últimos por desejos de maiores. De Tremerie, por exemplo, cita Tchekhov ao falar da culto que a avó nutria pelo responsável russo. Mouak, por sua vez, rememora ancestrais que diziam ouvir vozes por todos os cantos. São causos que alimentam as especificidades da peça, ao mesmo tempo em que apelam para memórias coletivas.
“As redes sociais nos conectam com pessoas de mesma classe, que carregam histórias e gostos parecidos com os nossos. A vida não é assim. Ela nos obriga a confrontar tudo que rejeitamos. Vamos ao teatro para sermos confrontados com a loucura do real, e não para termos outra noite no Instagram.”
Ele descreve o palco enquanto antítese dos ângulos apertados e outros efeitos de câmera usados por criadores de teor. Essa mesma teoria de libertação já aparecia em “The Interrogation”, peça em que Rau dirige o jornalista Édouard Louis, em papeleta no MITsp com dois espetáculos baseados em seus livros, e que questiona o fado —estaria a arte destinada a reproduzir nossas próprias vidas?
“As histórias que nos inspiram trazem questões existenciais e políticas. É por isso que resistem ao tempo”, diz ele, ao referir outro objeto que inspirou trabalhos seus —a Bíblia. “Jesus é só um líder mais ou menos paranoico que terminou na cruz. Nesse caso, porque lemos a Bíblia até hoje? Porque as questões humanas permanecem as mesmas e seguem inspirando narrativas sobre lutas contra o poder.”
