MITsp traz na programação as obras de Édouard Louis

MITsp traz na programação as obras de Édouard Louis – 05/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

A 12ª edição da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), que acontece entre os dias 6 e 15 de março, traz na programação dois espetáculos adaptados de obras do plumitivo gaulês Édouard Louis com direção do germânico Thomas Ostermeier. A escolha não é casual: as “autobiografias políticas” de Louis, que dissecam a violência em suas múltiplas camadas sociais, encontram repercussão direto na verdade brasileira.

“O Brasil tem histórico de ser um dos países mais violentos do mundo contra a população trans e travesti, sabemos também que se colheita e morre por ser gay neste país”, afirma Antonio Araujo, idealizador e diretor da MITsp ao lado de Guilherme Marques. “O espetáculo ‘História da Violência’, por mais perturbador que possa ser, é um libelo poético contra a homofobia. E não somente a homofobia de um transgressão, mas aquela presente nas situações familiares, no trabalho, no cotidiano da população LGBTQIAPN+.”

A parceria com Ostermeier não é novidade para a mostra, embora esta seja a primeira vez que o diretor germânico pisa em solo brasílico especificamente para a MITsp. Em 2013, ele esteve no país com “Um Inimigo do Povo”, de Ibsen, trazido pelo Sesc. A relação, no entanto, se aprofunda: segundo Araujo, há um libido reciprocamente de desenvolver um trabalho com atrizes e atores brasileiros. “A vinda destes espetáculos é uma espécie de aproximação ou de primeiro passo em relação a isso.”

Sobre o olhar de Ostermeier para os clássicos, Araujo destaca que suas encenações “trazem personagens tensionadas por seus contextos sociais, que nos colocam diante de situações limites”. No caso das obras de Louis, “a violência vem sempre atravessada por aspectos sociais e políticos. E no jogo entre o material literário e a encenação, a violência ganha ainda outras dimensões. Ela gera não somente incômodo e perturbação, mas também uma consciência sátira que surge da dor, do desconforto, da situação traumática.”

Um dos movimentos curatoriais mais significativos desta edição é a expansão da MITbr – Plataforma Brasil para o Meio-Oeste, em parceria com o Itaú Cultural, por meio do programa Conexões. Desde agosto de 2025, a chamada pública contemplou artistas de todas as regiões do país, mas agora com um recorte regional específico.

“Não considero uma reparação porque nosso olhar sempre esteve voltado às diversas áreas do país”, explica Araujo. “O que ocorreu agora foi a realização de um projeto já existente no Itaú Cultural dentro do contexto da MITbr. Uma parceria onde todos saem ganhando: a MITbr ganha, pela primeira vez, um foco regional, e o Conexões e os artistas ganham a possibilidade de serem vistos por vários programadores e curadores nacionais e internacionais.”

Paralelamente, a mostra realiza o PERFORMA 12H, evento devotado exclusivamente à performance negra, com curadoria de Rodrigo Severo, cuja tese de doutorado investigou a performance negra no Brasil. O projeto, segundo Araujo, era um libido vetusto da direção, gestado antes mesmo da primeira edição da MITsp em 2014.

“Evidentemente, há uma reparação histórica a ser feita em relação às populações negras e indígenas brasileiras, sem a qual não haverá horizonte verosímil para nascente país”, afirma o diretor, rebatendo a teoria de que tais trabalhos seriam “anexos” à programação principal. “Não acredito que sejam trabalhos anexos, pois têm igual peso aos outros trabalhos da MITbr e a presença de artistas negros nacionais e internacionais, sempre fez segmento da programação.”

Para além das questões artísticas e sociais, a MITsp movimenta a economia da cidade de São Paulo. Guilherme Marques, que divide a direção com Araujo, apresenta os números: “A cada edição, a MITsp gera alguma coisa em torno de 300 postos de trabalho diretos e mais de milénio indiretos. Temos uma grande movimentação também na rede hoteleira, restaurantes e outros serviços que são diretamente afetados.”

O duelo atual é ampliar esse impacto com planejamento. “Nós lançamos a data com antecedência, mas só anunciamos a programação com um mês antes da estreia. Nossa teoria é conseguirmos lançar com seis meses de antecedência a programação completa. Isso teria um impacto muito maior nesse turismo cultural ou, uma vez que prefiro invocar, nessa economia da cultura.”

No campo da internacionalização, os números são expressivos: a MITbr já levou 40 espetáculos brasileiros para o exterior. Esse resultado, explica Marques, é fruto de um trabalho sistemático iniciado em 2017, com cursos e discussões sobre a preparação de profissionais para festivais e teatros internacionais.

“Antonio Araujo costuma expressar que temos artistas e produções com potenciais diálogos para além do Brasil. A presença de programadores nacionais e internacionais, para nós, representa alguma coisa fundamental para ampliar a circulação das artes cênicas brasileiras.” Nesta edição, murado de 100 curadores estrangeiros são esperados – ao longo dos anos, mais de 370 já passaram pela mostra.

Marques faz, no entanto, um alerta: “Além da vinda de programadores, acho fundamental políticas públicas consistentes nas três esferas do poder para que artistas, grupos e festivais consigam receber essas produções uma vez que também contribuir para a circulação internacional.”

As Ações Pedagógicas e os Olhares Críticos são pilares da MITsp desde sua instauração. A inspiração, segundo Araujo, vem de experiências históricas uma vez que o festival coordenado por Ruth Escobar, que durante anos foi “importante não somente para a cena paulistana, mas referência para artistas, teóricos, pesquisadores e curadores de todo o país”.

“Nossa teoria, desde a primeira edição, era gerar essa verosímil potência de troca e discussões”, afirma. “Por isso, acredito que essas ações paralelas aos espetáculos contribuem nessa formação.” O retorno desse investimento, argumenta, não se mede somente durante os dias de festival, mas na constituição de uma rede de pensamento crítico sobre as artes cênicas que se estende ao longo de todo o ano e por todo o território pátrio.

A 12ª MITsp promete, assim, recitar violência política, reparação histórica, impacto econômico e formação mantendo-se leal à sua vocação de ser mais que uma mostra de espetáculos, mas um espaço de reflexão sobre o Brasil e o mundo contemporâneos.

Folha

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