Posteriormente a participação de três dos seus times na Despensa do Mundo de Clubes, realizada nos Estados Unidos, a MLS (Major League Soccer, liga norte-americana de futebol) vê crescer a pressão pela solução de um idoso dilema: manter seu campeonato paritário, com limite de gastos, ou permitir a montagem de elencos caros com o objetivo de competir em nível internacional.
Enquanto estuda alterações no regulamento e, principalmente, no calendário para se adequar ao futebol global, a MLS vem registrando públicos considerados expressivos. No último dia 28, por exemplo, um de seus jogos teve mais espectadores do que os confrontos do mesmo dia nas oitavas de final da Despensa do Mundo de Clubes.
Válido pela período de classificação, o empate por 1 a 1 entre San Jose Earthquakes e Los Angeles Galaxy, no clássico da Califórnia, atraiu 42.881 torcedores ao estádio da Universidade de Stanford. No Mundial, naquele sábado, o Lincoln Financial Field, na Filadélfia, recebeu 33.657 pessoas para Palmeiras 1 x 0 Botafogo, e o Bank of America, em Charlotte, recebeu 25.929 para Benfica 1 x 4 Chelsea.
No dia seguinte, as vendas do torneio internacional fizeram jus ao investimento da Fifa (Federação Internacional de Futebol), com média de 63.244 torcedores por partida. Mas o duelo de maior público daquele dia no Mundial tinha um clube da MLS, o Inter Miami. Uma das surpresas do torneio, o time de Messi foi eliminado diante de 65.574 torcedores ao perder por 4 a 0 para o Paris Saint-Germain, no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta.
Responsáveis por segmento desse sucesso de público, um na liga norte-americana e outro no Mundial, o LA Galaxy e o Inter Miami vivem momentos opostos. Por ser a atual campeã da MLS, a equipe da Califórnia poderia ter ficado com a vaga dada ao rival da Flórida na Despensa do Mundo de Clubes.
Para aproveitar a badalação sobre Messi, no entanto, a Fifa não esperou a disputa da final da MLS, agendada para dezembro de 2024. Anunciou antes o Inter Miami, possuinte da melhor campanha na temporada regular, porquê o escolhido para preencher a última vaga do Grupo A do Mundial.
Com a decisão, a equipe de Messi garantiu imediatamente o prêmio inicial de US$ 9,55 milhões (R$ 52,2 milhões) só para participar do torneio da Fifa. Por ter avançado às oitavas de final, ganhou mais US$ 7,5 milhões (R$ 41 milhões). Uma vitória e dois empates conquistados na primeira período renderam outros US$ 4 milhões (R$ 21,8 milhões).
O valor totalidade recebido pela sociedade de Miami foi de US$ 21,05 milhões (R$ 115 milhões), prêmio pago diretamente pela Fifa a um time que ainda não venceu o campeonato principal da liga norte-americana até hoje.
No outro extremo, o Los Angeles Galaxy, vencedor de 6 das 29 taças da MLS já disputadas (2002, 2005, 2011, 2012, 2014 e 2024), recebeu somente US$ 300 milénio (R$ 1,64 milhão, na cotação atual) de prêmio pela campanha inteira do título da temporada passada.
Logo em seguida a comemoração, o maior vencedor da história do torneio começaria a tolerar as consequências do seu bom desempenho técnico.
Obrigada a seguir as regras de paridade que regulam os 30 clubes da MLS, a equipe de Los Angeles precisou se desfazer de quatro titulares, um deles o meia Gaston Brugman, eleito o melhor jogador da temporada de 2024. A principal limitação é o teto salarial estipulado para as franquias, motivo pelo qual o capitão do Galaxy, Maya Yoshida, teve de concordar um namoro nos seus pagamentos.
As dificuldades encontradas para reconstruir o elenco não foram poucas e levaram o LA Galaxy a tombar, bruscamente, do topo para a última colocação. O desempenho vexatório na temporada deste ano teve seu pior capítulo na goleada de 7 a 0 sofrida diante do New York Red Bulls, vice-campeão de 2024.
Não há rebaixamento no campeonato profissional norte-americano, pormenor sempre mencionado porquê novidade a ser adotada no porvir, na tentativa de adequar a MLS aos padrões internacionais. Flexibilização dos gastos e aumento do limite de três atletas “designados” (aqueles que não precisam respeitar o teto salarial) por clube são outras das mudanças sugeridas para o porvir.
Por enquanto, conservadores, os dirigentes da liga só estão perto de anunciar, de indumentária, a adequação do calendário de jogos ao estilo europeu –começando e terminando no meio de cada ano– a partir de 2027. Com as janelas de transferências, consequentemente, ajustadas, a pressão de clubes ricos porquê o Inter Miami pela globalização da liga e pela flexibilização do teto de gastos só tende a aumentar.
Fundado em janeiro de 2018, o time, que tem David Beckham porquê coproprietário, proclamou-se, no primeiro dia de sua existência, um projeto “hiperglobal, porém lugar”. A incoerência do lema do clube pode seguir também a MLS em uma período de transição.
Criada tardiamente em 1996 porquê uma exigência da Fifa para que os Estados Unidos fossem a sede da Despensa do Mundo de 1994, a liga norte-americana novamente deve passar a ser cobrada a apropriar o seu “soccer” aos padrões globais do futebol.
Com uma novidade Despensa do Mundo de seleções marcada para o ano que vem em seu território, a MLS percebeu que será difícil manter-se isolada da influência da Fifa. As regras de paridade típicas das quatro maiores ligas norte-americanas (NFL, NBA, MLB e NHL) já não parecem se encaixar à veras da MLS.
Diferentemente do que ocorre no “soccer”, o futebol americano da NFL, o basquete da NBA, o beisebol da MLB e o hóquei da NHL são as principais referências técnicas mundiais nesses esportes. Os campeonatos já têm público consolidado e, portanto, não dependem de qualquer aprovação de entidades internacionais para sobreviver.
Ainda pouco popular no país em conferência a outras modalidades, o futebol da MLS dificilmente poderá resistir à tentação de buscar a globalização. Os valores dos cheques oferecidos aos participantes do Mundial de Clubes apontam para essa direção. A questão, agora, deve ser mais sobre qual será melhor estratégia para a liga equalizar as contradições enquanto segue por um novo caminho.
