Morre angela ro ro, voz singular da mpb, aos 75

Morre Angela Ro Ro, voz singular da MPB, aos 75 anos – 08/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Morreu na manhã desta segunda-feira (8), aos 75 anos, a cantora Angela Ro Ro, uma das principais estrelas da MPB nos anos 1970 e 1980, dona de sucessos que dominaram o repertório popular, uma vez que “Paixão, Meu Grande Paixão”. A informação foi confirmada pelo legista da artista, Carlos Eduardo Lyrio.

“Angela faleceu hoje pela manhã no Hospital Silvestre, onde estava internada por uma infecção contraída no próprio hospital. Sua única companheira, [com quem estava] há quatro anos, está absolutamente consternada com o falecimento. Sua companheira não quer se identificar no momento”, escreveu o legista.

Falar de Angela Ro Ro quase sempre é falar de seu disco de estreia, que traz seu nome no título e foi lançado em 1979. Um álbum autoral, apresentando canções brasileiras de rock e blues com letras confessionais que, de certa forma, anteciparam a vaga pátrio roqueira que viria nos anos seguintes. “Angela Ro Ro” é um lançamento para as antologias.

Curiosamente, a cantora nunca repetiu junto ao público e à sátira o sucesso deste álbum que gravou aos 29 anos. Tanto num período inicial da curso muito fértil, com seis discos até 1985, quanto nos 40 anos seguintes, período no qual produziu unicamente quatro trabalhos. Uma longa tempo de retraimento do grande público, e as pessoas que se lembravam dela comentavam mais sua vida pessoal de pequenos escândalos do que a música que ela criava.

A falta do sucesso popular se refletiu nos últimos meses de vida da cantora, nos quais ela repetidamente pediu verba a fãs e amigos pela internet. Ela não tinha recursos para sustentar as várias tentativas de tratamento para um quadro físico um tanto nebuloso, sobre o qual eram discutidos problemas pulmonares e renais e até rumores de possibilidade de um cancro. Foram vazadas notícias de procedimentos de hemodiálise e traqueostomia.

A carioca Angela Maria Diniz Gonsalves nasceu em 5 de dezembro de 1949. Dificilmente alguém tomou conhecimento da notícia de sua morte sem lembrar imediatamente dos versos “que tudo o que ofereço/ é meu calor, meu endereço/ a vida do teu fruto/ desde o término até o primícias”. É quase impossível permanecer indiferente à letra de “Paixão, Meu Grande Paixão”, o maior hit de sua curso.

A melodia é de seu espetacular primeiro álbum, que reúne outras faixas contundentes, derramadas de paixão, uma vez que “Pingo de Sangue”, “Tola Foi Você”, “Balada da Arrasada” e “Agito e Uso”. Durante toda a sua curso, essas músicas eram aguardadas nos shows e sempre provocavam os momentos mais emocionantes de suas apresentações.

No palco, a performance de Angela Ro Ro sempre reproduziu um pouco um clima de cabaré. Ao piano, ela desfilava suas canções intercaladas com relatos à plateia. Contava casos, sem o menor pudor de revelar situações divertidas, ridículas e até humilhantes pelas quais passou, levada por uma vida conturbada.

Ro Ro carregou sempre esse sobrenome que ganhou na puerícia, certamente oferecido por alguém que, uma vez que todos, se impressionou com a voz rouca daquela moça que estudava piano clássico desde os cinco anos. Enquanto avançava nos estudos do teclado, começou a se interessar por cantoras que ganharam sua idolatria. Não por coincidência, eram mulheres de personalidade potente uma vez que Elis Regina, Billie Holiday, Maysa e Ella Fitzgerald.

Já colecionando episódios de rebeldia juvenil, ela foi para a Europa em 1971, passando por lá quatro anos realizando um sonho hippie mochileiro. Primeiro na Itália, onde conheceu o cineasta Glauber Rocha, mas a maior segmento desse período foi passada na Inglaterra, onde pulava de um pequeno ofício a outro, o mais eterno deles uma vez que faxineira em um hospital. E em Londres conseguiu as primeiras chances para trovar em pubs.

Glauber foi seu paraninfo para a primeira experiência de gravação. Ela participou do disco “Transa”, clássico de Caetano Veloso, tocando gaita na tira “Nostalgia (That’s What Rock and Roll Is All About)”.

De volta ao Rio, decidida a viver de música, ela se tornou figura conhecida na cena noturna da cidade, pela voz impressionante e por tretas que explodiram em lugares públicos, na maior segmento das vezes em discussões com suas namoradas.

Ela acabou chamando a atenção da gravadora Polygram, hoje Universal, que a levou ao estúdio com os produtores Ricardo Cantaluppi e Paulo Lima. Angela era um diamante bruto difícil de lapidar, diziam. A maior tarefa da dupla foi selecionar 12 canções do repertório autoral da cantora. Em unicamente duas faixas ela tem parcerias —no hit “Paixão, Meu Grande Paixão”, com Ana Terreno, e em “A Mim e a Mais Ninguém”, em colaboração com Sérgio Bandeyra.

Num momento da MPB que favorecia a divulgação das cantoras, com Simone ocupando o posto de grande vendedora de discos e uma jovem Marina Lima começando a se insinuar para o sucesso, Angela Ro Ro caiu nas graças do público. Além da voz grave que conduzia suas músicas de paixão e fossa, era sempre uma presença divertida dos programas de TV, falando o que dava na telha —para usar uma gíria da idade.

Essa legalização popular garantiu a ela a exigência de produzir discos anuais para a gravadora. Vieram portanto “Só Nos Resta Viver”, “Escândalo”, “Simples Carinho”, “A Vida É Mesmo Assim” e “Eu Desatino”. Desses, que não mostram rupturas com o perfil de blues e rock do disco de estreia, “Simples Carinho” é o melhor, mas foi “Escândalo” que pegou carona na vida desgarrada da artista, alguma coisa já explícito no título do álbum.

As notícias de bebedeiras e brigas serviram para manter seu nome em evidência, mas uma suposta risca imaginária de tolerância aparenta ter sido rompida quando os jornais se fartaram de relatar a agressão física a sua portanto namorada, Zizi Possi, outra cantora emergente no cenário da idade.

Aí o público parece ter oferecido um basta nas traquinagens de Angela. Se musicalmente o exaltação dos fãs já tinha minguado, esse incidente foi minando cada vez sua curso. O público perdoa “bad boys”, mas não “bad girls”.

As gravações seguiram com unicamente mais quatro álbuns, em longos intervalos afastada dos estúdios: “Prova de Paixão”, “Acertei no Milênio”, “Compasso” e “Selvagem”. Embora em todos seja verosímil encontrar algumas faixas brilhantes, são trabalhos muito irregulares e praticamente ignorados pelo público. Sua curso de shows foi sendo conduzida para espaços cada vez menores, que recebiam plateias envelhecidas, em procura de nostalgia pop.

Para quem teve chance de presenciar a um de seus raros shows antes da pandemia, a sentimento foi unânime. O talento músico e a informação com a plateia se mostravam intocáveis. Podendo pinçar as canções dentro do vasto repertório, cada apresentação era um desfile de técnica apurada no piano e letras fortes, desabafos confessionais de uma mulher que deu a rostro para fustigar durante toda a curso.

Distante da mulher sofrida que pediu dramaticamente ajuda financeira nas redes, é melhor ter na memória essa Angela Ro Ro estelar, essa artista um na MPB.

Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *