Morreu na manhã deste sábado Jean-Claude Bernardet, um dos maiores críticos do cinema brasileiros, aos 88 anos. O intelectual convivia com o HIV, com um cancro vezeiro na próstata, que ele decidiu não tratar com quimioterapia, e a quase perda da visão por conta de uma degeneração ocular.
A morte foi confirmada pelo cineasta Fábio Rogério, que acompanhava o crítico, que estava internado no Hospital Samaritano, em São Paulo. Ainda não há detalhes sobre a pretexto da morte. O velório será feito na Cinemateca Brasileira, e informações sobre o horário devem ser divulgadas em breve.
Para Bernardet, o cinema novo expressava problemas da classe média e “buscava abrigo detrás do escudo do pretérito”. Não deixou de questionar o distanciamento de Glauber Rocha, Ruy Guerra e Nelson Pereira dos Santos da problemática urbana para realizar filmes rurais e de cangaço – “Deus e o Diabo na Terreno do Sol”, “Os Fuzis” e “Vidas Secas”.
Os cineastas oriundos da classe média enfrentavam, a seu ver, tanto uma mentalidade importadora porquê a “veras violenta e agressiva” do país. O livro apresentava fragilidades na definição sociológica de classe média, reconhecidas mais tarde pelo próprio responsável, mas não deixou de atear um intenso debate cinematográfico.
Devotado a Antonio das Mortes, personagem de “Deus e o Diabo”, a obra despertou a reação aguerrida de Glauber Rocha. “Jean-Claude Bernardet é um vil e ponto final”, atacou o cineasta, em entrevista à Folha, em 1979. Com injustiça, definiu-o porquê “o crítico mais reacionário do Brasil”.
“Eu nunca reagi”, me disse Bernardet. “Isso é uma história assim bastante complicada porque o que fui publicado pelo Glauber em entrevistas e no Pasquim, ou às vezes em papo de bar, nunca nos afastou. Nunca brigamos”. Na Europa, ao encontrar um colega de Bernardet, Glauber se justificou: “Se eu não guerrear Jean-Claude, vou guerrear quem?”.
O diretor de “Os Fuzis”, Ruy Guerra, afirma que Bernardet é “um crítico que tem peso analítico”, mas “não foi decisivo” em sua experiência. “Discordo de certas posições de Jean-Claude. No meu ponto de vista, em ‘Brasil em Tempo de Cinema’ a classe média é um concepção muito esquemático. A estudo dele sofre dessas limitações. A classe social de um artista é meio abrangente, também do ponto de vista ideológico, e não se pode fechá-lo num concepção único, marxista”, ele opina.
Guerra acrescenta que o pensamento de Bernardet sobre o cinema novo merece ser revisto. “O artista flutua nos espaços sociais, e isso faz com que o artista seja uma metáfora. A metáfora é o que é e mais do que é. O artista é um tanto mais do que uma classe social, mas Jean-Claude coloca o artista dentro de um concepção fechado, dentro de uma caixa. Ele precisa de uma revisão sátira”.
Em 1994, com “O Responsável no Cinema”, Bernardet reexaminou o concepção de responsável de filmes, nascido entre críticos e cineastas franceses e aclimatado no Brasil pelo cinema novo. Nutrindo-se também do questionamento ao responsável na literatura, Bernardet esmiuçava as transformações do concepção no tempo e sua validade no cinema contemporâneo. Em entrevista inédita, perto de relançar o livro, agora acrescido de textos de Francis Vogner dos Reis, ele comentou a escolha de Humberto Mauro porquê precursor dos cinemanovistas engajados na política dos autores.
“Quando o Glauber começa a edificar a sua visão de história, ele tem que associar à noção de responsável. E esse responsável tem que ser encontrado na tradição. O Nelson Pereira dos Santos era impossível, por dois motivos. Primeiro, era um contemporâneo, uma pessoa viva, que montou ‘Barravento’. Além do mais, Nelson não tinha preocupação autoral. Era inviável que o Nelson pudesse ser um ícone pro Glauber”, ele avaliou.
A obra sátira de Bernardet “é mais prolífica do que a de Paulo Emilio, mas desconcerta o observador por sua tendência a recusar um aprimoramento progressivo das posições e dos métodos em prol de uma mudança permanente, de uma ruptura regular consigo mesmo”, analisa Mateus Araújo.
O professor da USP lembra que “seu proverbial espírito de incongruência por vezes o indispôs com secção do nosso melhor cinema moderno (porquê no caso do ‘Brasil em Tempo de Cinema’, seu livro mais estruturado junto com ‘Cineastas e Imagens do Povo’), do qual, na verdade, foi um coligado importantíssimo”.
“Cineastas e Imagens do Povo”, de 1985, discute as tensões estéticas e ideológicas na representação da temática popular em documentários brasileiros dos anos 60 e 70, a exemplo de “Viramundo”, “Opinião pública” e “Aruanda”. “As imagens cinematográficas do povo não podem ser consideradas sua frase, e sim a sintoma da relação que se estabelece nos filmes entre os cineastas e o povo”, afirmou Bernardet na obra.
O estudo foi concluído antes de ele ter visto “Cabra Marcado para Morrer”, de Eduardo Coutinho, documentário reconhecido porquê “divisor de águas”. Em 2003, a reedição atualizada do livro incorporou um tentativa sobre Coutinho. “Cabra resgata os detritos de uma história rompida, de uma história derrotada. Mais do que isso: Cabra é o duplo resgate de uma dupla guião”, disse Bernardet sobre o filme interrompido em 1964 e retomado 17 anos depois.
Desempenado aos renovadores da linguagem, Bernardet era uma presença frequente em festivais de cinema. No Festival de Brasília de 1968, brigou com o crítico Walter da Silveira para premiar “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla. “Defendi ardorosamente ‘O Bandido’. Eu achava que ‘O Invencível Guerreiro’ era um prolongamento do cinema novo, mas o que realmente trazia uma inovação de todos os pontos de vista era ‘O Bandido’”, recordou.
“Aquele Rapaz”, em 1990, delineou sua investida memorialística na autoficção. Na dezena de 1990, ele tornou público que era portador do vírus HIV e contou suas vivências com a Aids em “A doença, uma experiência”, de 1996. Bernardet enfrentaria uma degeneração macular no olho esquerdo. A perda da visão se agravou nos últimos anos.
Mais recentemente, decidiu não prosseguir o tratamento de um cancro de próstata, incomodado com os efeitos colaterais. “O Corpo Crítico” (Companhia das Letras), de 2021, ampliou a obra de 1996 e expôs sua sátira à mercantilização do sistema médico, que privilegia o lucro, em vez da qualidade de vida, no tratamento indefinido de doenças terminais.
“Vivo num clima de morte, respiro a morte. Não é o câncer. Secção da sociedade quer rematar com o grupo social ao qual pertenço, a opressão me sufoca. Negam o Renascimento e se voltam para uma pretensa Idade Média totalmente inventada, masculina, branca, cristã, despojada de todo espírito crítico e guerreira”, afirmou Bernardet em “O Corpo Crítico”.
Em 2008, com “FilmeFobia”, de Kiko Goifman, Bernardet venceu o prêmio de melhor ator do Festival de Brasília. A partir dessa dezena, numa viradela existencial, ele se dedicou sobretudo à curso de ator. Desde 1968, atuou em duas dezenas de filmes.
Com Luiz Sergio Person, foi coautor do roteiro de “O Caso dos Irmãos Naves”, de 1967. Em 1994, dirigiu o média-metragem “São Paulo – Sinfonia e Cacofonia”. Sua cabeça criadora não se resumia ao cinema. Ele também inventou o brinquedo infantil Combina-cor, lançado pela Grow.
Bernardet deixa uma filha, Lígia, de seu consórcio com Lucila Ribeiro.
