O filósofo e sociólogo boche Jürgen Habermas, um dos pensadores mais influentes do mundo, morreu neste sábado (14), aos 96 anos, em Starnberg, perto de Munique. A informação foi confirmada pela Suhrkamp Verlag, editora que publicava seus livros.
Habermas era de uma família simpatizante do nazismo e membro da Juventude Hitlerista. Aos 15 anos integrou a milícia de jovens e idosos recrutados para resistir à invasão da Alemanha no termo da 2ª Guerra Mundial. Anos depois, ele se tornou um dos principais filósofos da Escola de Frankfurt, formada por pensadores judeus exilados do país para fugir da perseguição nazista.
Nascido em 18 de junho de 1929 em Dusseldorf, em uma família protestante muito tradicional, Habermas era o fruto do meio do parelha Ernst e Grete. O garoto foi submetido na puerícia a duas cirurgias corretivas da fissura palatina. De origem genética, essa má-formação no firmamento da boca dificultou sua fala e seus relacionamentos, tornando-o um jovem tímido e, mais tarde, uma adulto que aprendeu a mourejar com seu comportamento retraído. Esse problema o sensibilizou para elaborar uma filosofia com foco na valimento da notícia para uma sociedade democrática.
Pouco antes de ele concluir o ensino fundamental, sua família se mudou para Gummersbach, nos periferia de Colônia, cidade onde seu pai se tornou diretor da Câmara de Indústria e Negócio.
Com o termo da guerra, os julgamentos em Nuremberg tornaram públicos filmes sobre os campos de concentração. As imagens do assassínio sistemático de milhões de judeus e outros perseguidos pelo nazismo afetaram profundamente o jovem Jürgen, que fora criado somente sob o horizonte de referência da sociedade nazista.
“Vimos de repente que havíamos vivido em um sistema político criminoso”, disse Habermas quatro décadas depois em uma entrevista ao filósofo britânico Peter Dews, publicada no livro “Autonomia e Solidariedade”, de 1986.
“O antissemitismo é um tema sobre o qual Habermas tem sido particularmente vigilante”, disse Richard Bernstein, seu camarada e professor de filosofia da Universidade de Novidade York, em uma entrevista ao jornal “Los Angeles Times” em 1994. “Nunca conheci um não judeu mais sensível —intelectual e pessoalmente— do que ele a esse tema.”
Determinado a se destinar à filosofia, em 1949 Habermas entrou na Universidade de Göttingen. Para ampliar sua formação, em 1950 se transferiu para Zurique, na Suíça, onde concluiu o curso no ano seguinte, e em 1951 seguiu para Bonn. Em 1954, seu currículo incluía disciplinas de história, psicologia e economia, além do doutorado em filosofia com uma tese sobre o pensamento de Friedrich Schelling.
Nessa cidade que viria a se tornar a capital da Alemanha Ocidental, ele começou a trabalhar em 1952 uma vez que freelancer para o jornal Frankfurter Algemeine Zeitung e para o Handelsblatt, quotidiano especializado em economia.
No ano seguinte ele escreveu um item que teve grande repercussão, sobre a filiação ao nazismo em 1933 durante um ano pelo filósofo Martin Heidegger, considerado um dos mais importantes pensadores do século 20.
Em Bonn Habermas conhece Ute Wesselhoeft, com quem se casou em 1955 e teve três filhos, Tilmann, Rebekka e Judith.
No ano em que nasceu o primeiro fruto, o jovem parelha se mudou para Frankfurt, onde Habermas começou a trabalhar no Instituto para a Pesquisa Social, vinculado à universidade daquela metrópole. Fundado em 1928, o núcleo agregara a fluente filosófica que antes da guerra teve seu nome associado ao da cidade.
Retornados do exílio, estavam de volta ao instituto Theodor Adorno, Max Horkheimer e Herbert Marcuse. Antes da guerra o grupo contara também com a participação de Friedrich Pollock, Erich Fromm e do simpatizante Walter Benjamin, que se suicidou na fronteira da França com a Espanha. Todos de origem judaica.
O que caracterizava o pensamento da Escola de Frankfurt era a adesão ao marxismo, mas com a sátira à tradição dos partidos comunistas e também à concepção de ciência vigente nos anos 1930. Para os frankfurtianos, a economia, a história, a sociologia e outras ciências humanas não deveriam perseguir o protótipo das ciências naturais, uma vez que a física, a biologia, a química e outras.
Desse modo, a chamada Teoria Sátira se tornou um contraponto a outra escola, conhecida uma vez que positivismo lógico, neopositivismo ou Círculo de Viena. O nome da fluente se referia à capital austríaca, onde se reuniam seus expoentes, uma vez que Moritz Schlick, Rudolf Carnap e Otto Neurath, entre outros.
O projeto neopositivista consistia basicamente em buscar livrar o conhecimento de equívocos decorrentes do mau uso da lógica e da linguagem.
As atividades do Círculo de Viena se encerraram em 1936, quando a Alemanha anexou a Áustria e Schlick foi assassinado por nazistas. A fluente perdeu sua identidade em seguida a guerra devido também às críticas contundentes ao seu projeto por pensadores que participaram por qualquer tempo das discussões com o grupo, uma vez que Ludwig Wittgenstein e Karl Popper.
O livro “Teoria Tradicional e Teoria Sátira”, de 1937, de Horkheimer, é considerado o manifesto da contraposição frankfurtiana não só ao positivismo lógico, mas também às demais concepções acerca do conhecimento limitadas ao protótipo cartesiano.
No pós-guerra, com esse referencial da teoria sátira já consolidado, Adorno, Horkheimer e Marcuse se concentraram na sátira à indústria cultural e à demência da sociedade.
Habermas, porém, direcionou o foco da teoria sátira principalmente para o tecnicismo, ou seja, para a ideologia da emprego a qualquer dispêndio das aplicações tecnológicas da ciência, guiadas principalmente por interesses empresariais e não da sociedade.
Antes disso, Habermas elaborou sua dissertação para habilitação em ciência política, que foi rejeitada por Horkheimer, que exigiu mudanças no texto. O orientador discordou da sátira do jovem, que atribuiu à Escola de Frankfurt um ceticismo e um desprezo pela cultura moderna que a teriam paralisado na ação política.
Habermas não acatou as exigências de Horkheimer e deixou o instituto em 1959. Transferiu-se para a Universidade de Marburg, onde começou a lecionar e finalizou sua dissertação sob a orientação do jurista e observador político marxista Wolfgang Abendroth.
Concluído em 1961, o trabalho foi publicado no ano seguinte com o título “Mudança Estrutural da Esfera Pública”. Em seguida, ele se transferiu para a Universidade de Heidelberg, onde ficou até 1964, ano de seu retorno ao instituto em Frankfurt, onde sucedeu Horkheimer, já emérito.
Além de criticar os interesses econômicos por trás das aplicações da tecnologia, Habermas também fez campanha com Marcuse contra a Guerra do Vietnã. E reprovou extremistas do movimento estudantil boche na dez de 1960. Nos anos seguintes, secção dessa tendência optou pelo terrorismo da Fração do Tropa Vermelho, mais conhecida uma vez que grupo Baader-Meinhof.
Depois publicar “Conhecimento e Interesse”, em 1968, Habermas permaneceu em Frankfurt até 1971, quando saiu, desgastado com as manifestações estudantis. Depois de um semestre na Universidade de Princeton, nos EUA, ele passou a trabalhar no Instituto Max Planck para Estudos do Mundo Técnico-Científico, em Starnberg, perto de Munique.
Depois publicar outros estudos, o filósofo lançou “Teoria da Ação Comunicativa”, em 1981. Nessa obra ele explica que os interesses emancipatórios dependem da autorreflexão para que as pessoas estabeleçam modos de notícia visando tornar razoáveis suas interpretações e reivindicações.
Aplicado à política, o concepção de ação comunicativa propõe uma “democracia deliberativa”, na qual as instituições e as leis devem ser abertas à livre reflexão e à discussão pela sociedade. Habermas se aposentou em 1994 em Frankfurt.
Habermas publicou ainda “O Horizonte da Natureza Humana” em 2003, três anos em seguida a cerimônia midiática de divulgação do sequenciamento do genoma humano por pesquisadores norte-americanos e britânicos ao lado do presidente Bill Clinton, dos EUA, e do primeiro ministro Tony Blair, do Reino Uno.
Nesse livro, o filósofo questionava o otimismo a partir do desenvolvimento da biotecnologia e seus riscos para a constituição de uma moral individual de auto-compreensão.
Em face de todas as incertezas da política, da economia e do próprio conhecimento para o porvir da sociedade, a filosofia de Habermas preserva a racionalidade moderna sem perder de vista a sátira do tecnicismo e do soberania dos interesses empresariais que nas democracias ocidentais ainda confundem o incremento da economia com o bem-estar da humanidade.
