Morreu o dramaturgo Manoel Carlos neste sábado. A morte foi confirmada no perfil da produtora Boa Termo, responsável pelo legado do noticiarista. O responsável tinha 92 anos.
Manoel Carlos foi uma espécie de versão masculina das Helenas, as protagonistas de suas novelas, a maioria delas mulheres ricas que vivem tragédias diante das quais o numerário zero importa. A sequência de fatalidades que enfrentou detrás das telas contrasta com a de glórias na frente delas. Enquanto sua vida pessoal parece uma romance, a profissional é um verdadeiro documentário da história da televisão brasileira.
No roteiro do que seria uma romance sobre Maneco, seu sobrenome, estão os dramas da morte precoce e trágica da primeira mulher e dos três filhos. Maria de Lourdes, aos 37 anos, tropeçou no salto elevado e morreu ao desabar da escada de moradia. Eles tinham dois filhos, que também morreriam prematuramente. O mais novo, Ricardo, portador de HIV, com 32, em 1988, e o primogênito, Manoel Carlos Jr., de infarto, aos 58, em 2012.
Traumatizado, Maneco falava da alegria inesperada de ter tido, já aos 60 anos, um rebento caçula, Pedro, do terceiro casório, com Betty —eles tiveram também uma filha, a atriz Júlia Almeida. Era uma espécie de pai-avô e tinha 81 anos quando o garoto, aos 22, morreu de mal súbito, em 2014, menos de dois anos em seguida o primogênito.
Além do drama, Maneco tem em geral com seus personagens os percalços até se estabelecer na subida sociedade. Ele nasceu em 14 de março de 1933 e passou a puerícia no Pari, portanto um bairro residencial de São Paulo, em uma vida de classe média subida, na qual se misturavam as origens portuguesas do pai, José Maria, às sergipanas da mãe, Olga. Uma reviravolta financeira viria nos anos 1950, quando o pai foi à falência e perdeu, entre outros bens, imóveis, uma fábrica de móveis e duas de ladrilhos.
Quando menino e jovem, Maneco era “da pá viradela”, saía de um pena para entrar em outro, até que os pais o mandaram para um escola interno, de padres, em Bragança Paulista, no interno de São Paulo. Lá, repetiu de ano e abandonou a escola antes de se formar no portanto ginasial, hoje ensino fundamental. Nunca recebeu um diploma. Formou-se fora das escolas, devorando músicas, livros, peças de teatro.
Conectou-se desde pequeno ao teatro amásio, ainda no envolvente escolar, e, posteriormente, fez secção de grupos ligados a igrejas e a sindicatos. Escrevia, produzia e interpretava os textos. Foi por aí que chegou à televisão, em um programa da Tupi de teleteatros, dirigido por Antunes Fruto. A TV mal tinha completado um ano de existência no Brasil, e Maneco, os seus 18 anos. Era assim mesmo à era, quase todos que se aventuravam naquele veículo novo e meio maluco eram muito jovens.
Foi do elevado dos 19 anos que Manoel Carlos, em seguida a passagem pela Tupi, foi contratado uma vez que ator, responsável, produtor e diretor da TV Paulista, inaugurada naquele ano de 1952. Em um estúdio pequeno e com condições técnicas precárias, ele comandava apresentações de adaptações de textos de Shakespeare ao vivo, uma vez que tudo o que era feito na TV. Logo rumou para outra emissora recém-inaugurada, a Record, em 1953, no mesmo ano em que se casou com Maria de Lourdes. Mantinha em paralelo a sua curso no teatro, àquela profundidade já profissional, e foi no envolvente dos palcos e das coxias que conheceu grande secção dos profissionais com quem trabalharia na TV.
Um deles foi o ator e diretor Sérgio Britto, que o convidou para retornar à Tupi, em 1956. Maneco portanto fez mais de centena adaptações de clássicos literários para o “Grande Teatro Tupi”, programa no qual a teledramaturgia brasileira deu os primeiros passos. Além de roteirista, Manoel Carlos foi também ator desses teleteatros, ao lado de um elenco formado por estrelas uma vez que Fernanda Montenegro e Nathália Timberg.
Mas era uma vez que responsável que mais se destacava e, em 1960, elaborou o roteiro do músico de inauguração da TV Excelsior. Na novidade emissora, criou o “Brasil 60”, programa de variedades apresentado por Bibi Ferreira. Em 1963, encerrou sua passagem pela Excelsior dirigindo um show de Ray Charles e se mudou para o Rio. Era, portanto, casado com a radialista Cidinha Campos, com quem teve uma filha, Maria Carolina.
Foi roteirista do programa de Chico Anysio na TV Rio. Estava na sede da emissora, quando assistiu, pela janela, ao lado do diretor Walter Clark e do apresentador Flávio Cavalcanti, a tomada do Poderoso de Copacabana no golpe militar de 1964. Assustado, retornou com a família para São Paulo. Voltou, portanto, a trabalhar na TV Record, para onde também se transferiu Chico Anysio, que o chamou para encaminhar o seu programa.
Foi nessa era que participou de uma reunião na qual o diretor artístico da Record, Paulo Machado de Roble, disse que a emissora deveria investir em musicais porque a teledramaturgia, grande aposta da Tupi e da Excelsior, não teria horizonte no Brasil. A previsão equivocada teve um lado bom: deu início à era de ouro dos musicais na TV.
Com a experiência do “Brasil 60”, Maneco entrou com tudo nessa estratégia da Record. Criou e dirigiu “O Fino da Bossa”, apresentado por Jair Rodrigues e Elis Regina, que ele selecionou em um concurso de cantoras. Foi Maneco também que assinou, em nome da Record, o contrato com Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa para o programa “Jovem Guarda”. Ele foi um dos mais atuantes na formação de um elenco que incorporou novos talentos uma vez que Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Além dos musicais, participou da elaboração de uma série de programas memoráveis de variedades e de humor, uma vez que a “A Família Trapo”. Dentre os vários em que atuou estão “Galanteio Rayol Show”, “Hebe Camargo” e “Esta Noite se Improvisa”. A programação acumulava recordes de audiência, e a Record, em 1966, decidiu levar ao ar os festivais da Música Popular Brasileira, marcos da história da cultura do país.
Aos poucos, com o excesso de musicais, a fórmula foi se esgotando, e a audiência, caindo. Maneco deixou portanto a emissora para trabalhar no mercado fonográfico, em que se tornou um nome respeitado, uma vez que produtor de discos e espetáculos. Dirigiu em 1971 o histórico show Construção, de Chico Buarque, no Canecão, no Rio. Em 1973, foi diretor do memorável festival Phono 73, no Anhembi, em São Paulo, que teve nomes uma vez que Raul Seixas, Rita Lee, Chico Buarque, Gal Costa, Caetano Veloso e Elis. O evento teve uma passagem marcante da exprobação da ditadura militar: os microfones de Chico e Gil foram desligados pelos censores quando eles cantavam “Cálice”.
Nesse mesmo ano de 1973, Maneco começou a trabalhar na Orbe, convidado por um velho colega, Jô Soares, que à ocasião apresentava um programa de entrevistas, o “Orbe Gente”. Com tantos musicais no currículo, foi chamado por Boni, o diretor da emissora, para participar da geração de um programa de variedades dominical, o “Fantástico”, no qual a música teria destaque. A teoria inicial era de que todo o teor –musicais, humor, jornalismo– fosse costurado em uma narrativa com o tom da esperança. Maneco foi encarregado de grafar os roteiros de forma a amarrar as atrações com esse sentido e logo se tornou diretor-geral do “Fantástico”.
Enquanto isso, as novelas da Orbe, contrariando por completo a previsão do diretor da Record sobre o termo da teledramaturgia, consolidavam-se uma vez que o principal resultado da indústria cultural brasileira. Eram o programa preposto do público, a maior manadeira de faturamento da TV. Mas havia poucos autores além dos principais, Janete Clair e Dias Gomes, que tinham de grafar romance detrás de romance. Era preciso buscar novos nomes, e Maneco foi escalado. Tinha feito alguns trabalhos uma vez que roteirista de novelas nos anos 1950 na Tupi, todas de curta duração, não diárias e ao vivo, além de narrar com a sólida experiência na adaptação de textos literários para os teleteatros.
Começou na Orbe com uma romance das 18h, “Maria Maria” (1978), adaptação do romance “Maria Dusá”, de Lindolfo Rocha. Entrou para o horário sublime, o da romance das oito, uma vez que colaborador de Gilberto Braga em “Chuva Viva” (1980). Depois fez “Baila Comigo” (1981), a primeira que escreveu sozinho para as 20h, um sucesso, com a história dos gêmeos João Victor e Quinzinho (Tony Ramos), separados na puerícia.
Na sua romance seguinte, “Sol de Verão” (1982), sofreu o traumatismo pela morte de Jardel Fruto, que fazia o papel do protagonista. Foi quando passou uma temporada de sete anos fora da Orbe e fez novelas para a Colômbia e para o mercado latino nos EUA. Imprimiu o estilo realista da teledramaturgia brasileira às produções latinas, conhecidas por tramas mirabolantes e pelo excesso de maquiagem nos atores.
Também fez trabalhos para a Manchete e para a Band até retornar para a Orbe em 1991, com a romance das seis “Felicidade”. Nessa trama, a personagem principal, interpretada por Maitê Proença, se chamava Helena, uma retomada ao nome da heroína de “Baila Comigo”, papel de Lilian Lemmertz. A partir de portanto, todas as suas protagonistas se chamariam Helena, entre elas as vividas por Regina Duarte em “História de Paixão” (1995), “Por Paixão” (1997) e “Páginas da Vida” (2006), Vera Fischer em “Laços de Família” (2000) e Christiane Torloni em “Mulheres Apaixonadas” (2003).
A escolha do nome havia sido aleatória, Maneco dizia. Todas eram mulheres fortes, que sofriam capítulo a capítulo. Não eram perfeitas, longe disso, e até mentiam, mas sempre por paixão. Um exemplo marcante, de grande ousadia, foi o do enredo medial de “Por Paixão”, em que Regina Duarte e Gabriela Duarte atuaram uma vez que mãe e filha, respectivamente Helena e Maria Eduarda. Na trama, as duas ficam grávidas e dão à luz no mesmo dia, em quartos vizinhos do hospital. O bebê de Maria Eduarda morre no parto e ela não pode mais ter filhos. Helena, portanto, pede ao médico para trocar os recém-nascidos, colocando o seu rebento, saudável, no lugar do que havia morrido.
Helenas fazem tudo pelos filhos. A de Vera Fischer, em “Laços de Família”, abriu mão do namorado, o jovem Edu (Reynaldo Gianecchini), para que a filha, Camila (Carolina Dieckmann), ficasse com ele. No transcursão da história, Camila tem leucemia, e Helena deixa de lado um outro relacionamento amoroso para engravidar, na esperança de que o bebê pudesse doar a medula à mana. É dessa romance uma cena antológica da TV, em que Camila, em razão da quimioterapia, raspa os cabelos aos prantos.
O cancro está no rol de temas que Maneco retratava uma vez que merchandising social, verdadeiras campanhas de conscientização. Suas novelas também abordaram, com esse viés, a síndrome de Down, a vida de pessoas com deficiência, o alcoolismo e a falta de reverência aos idosos, um problema que Maneco dizia enfrentar no Brasil.
As histórias trazem dramas da classe média e subida, do universo do responsável. Seu estilo é o da crônica urbana, um mosaico de personagens em que as histórias se cruzam nos elevadores dos prédios do Leblon, no calçadão, na secretária de jornal ou na panificação do bairro, todos lugares que Maneco frequentava. É da rotina desses personagens que extrai as histórias, os diálogos em torno das fartas mesas de moca da manhã, dos jantares finos, na liceu, na praia. “Minhas novelas retratam o cotidiano da classe média, seus dramas, desejos, suas vidinhas comuns e banais”, disse em entrevista.
Consagrou-se pela sensibilidade com que criava personagens femininos. Escrevia com facilidade diálogos em que as mulheres falavam de sexo, casório, filhos, curso, envelhecimento. Era chamado de perito na espírito feminina. Costumava relacionar essa capacidade ao vestimenta de ter tido uma relação muito possante com a mãe e, além dela, ter sido criado pelas duas avós e por duas tias solteiras, fora a convívio com as irmãs. Em uma reportagem, certa vez, foi chamado de “O Chico Buarque das novelas”.
“As mulheres têm mais força, são mais heroicas e têm mais caráter que os homens”, afirmou, ao comentar a preferência por personagens femininas. Foi escolhido pelo diretor Jayme Monjardim, que o chamava de “responsável do coração das mulheres”, para roteirizar a minissérie “Maysa” (2009), sobre a famosa cantora de MPB, sua mãe. Outra minissérie de Maneco, sucesso de repercussão e de audiência, foi “Presença de Anita” (2001), baseada em um romance de Mário Donato. Na TV, o triângulo amoroso entre uma pequena (Mel Lisboa), um menino da sua idade (Leonardo Miggiorin) e um varão muito mais velho (José Mayer) foi regado a cenas ousadas de sexo e nudez.
A leitura do livro de Donato havia marcado a juvenilidade de Maneco, que, desde cedo, além de romances, devorava poemas. Também escrevia poesias, publicadas em revistas, jornais e no livro “Bicho Alado”. A sensibilidade poética e músico o levaram a atuar diretamente na escolha da trilha sonora de suas novelas, regadas pelo melhor da bossa novidade, o que também se tornou sua marca. Era ao som de Vinicius e Tom Jobim que as Helenas, assim uma vez que Manoel Carlos, viviam entre a cobertura do Leblon e o calçadão, alternando dias sombrios e outros ensolarados, em procura de um final feliz.
