Morrissey pesa a mão no vitimismo e se perde em

Morrissey pesa a mão no vitimismo e se perde em novo disco – 07/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Poucos ídolos do rock se esforçaram tanto para findar com a própria reputação quanto Morrissey. Nos últimos 15 ou 20 anos, o genial letrista dos The Smiths, que passou o início da curso defendendo os animais e malhando a reino inglesa, Margaret Thatcher e políticos em universal, se meteu em brigas e polêmicas que afastaram boa secção de seus antigos fãs.

De elogios a políticos de extrema direita a comentários belicosos sobre imigrantes, passando por cancelamentos de shows e farpas trocadas com o ex-colega de Smiths, o guitarrista Johnny Marr, Moz acabou “cancelado” por muitos ex-admiradores.

Acaba de transpor “Make-Up Is a Lie”, o 14º álbum de canções inéditas de Morrissey e o primeiro desde “I Am Not a Dog in a Chain”, lançado há seis anos. O que primeiro labareda a atenção no disco é a feiura da envoltório, um retrato de Morrissey de boca e braços abertos que mais parece uma postagem de Instagram.

Pretérito o susto inicial, o disco abre com uma música que não deixa dúvidas quanto ao estado de espírito de Morrissey: “You’re Right It’s Time” é uma paulada nos detratores do cantor e uma clara pena da cultura do cancelamento: “Quero me alongar daqueles que passam o dia olhando para telas/ quero poder falar e não ser acuado por exprobação/ em procura de sabedoria muito mais sábia que a minha/ quero deixar alguém me amar se for capaz” canta Morrissey, sobre uma base que lembra a sonoridade synthpop de bandas porquê A Flock of Seagulls e Orchestral Manoeuvres in the Dark.

Morrissey é um dos grandes letristas do rock de qualquer idade. Tanto nos Smiths quanto em sua curso solo, conjurou imagens que embalaram jovens melancólicos em quartos escuros por todo o planeta. Dos “ônibus de dois andares” que matavam o par enamorado em “There is a Light That Never Goes Out” ao DJ que ele sugeria enforcar, em “Panic”, por tocar música que “não diz zero sobre minha vida”, Moz criou versos geniais de humor sombrio e um siso de ironia muito pessoal.

É exatamente essa capacidade de rir de si mesmo e dos seus fãs que falta em “Make-Up Is a Lie”. Se antes Morrissey destilava veneno de forma elegante e criativa, o novo disco tem ar pesado de acerto de contas. Além de “You’re Right It’s Time”, pelo menos duas outras canções do disco parecem colocar o compositor no papel de vítima.

Em “Boulevard”, por exemplo, balada melancólica e lenta, cantada em sua voz meio sussurrada, ele diz: “As pessoas me alertam: ‘Você está acabando com a sua saúde’/ e eu respondo ‘E daí’?/ só preciso de mais uma razão/ para desistir de Deus e de cada vocábulo que ele disse”.

O tom religioso e de autocomiseração continua em “Notre Dame”, em que o compositor parece alertar para qualquer tipo de conspiração no caso do incêndio da icônica catedral francesa. A música é muito fraca e parece uma imitação de Depeche Mode.

Algumas passagens do disco têm letras tão mundanas e medíocres para os padrões de Morrissey que soam porquê alguém tentando imitá-lo. “Kerching Kerching” periga ser uma das piores músicas que Moz fez em mais de 40 anos de curso. O título remete ao estrondo de uma caixa registradora, e a letra fala da preocupação por moeda que faz o personagem da cantiga olvidar as coisas importantes da vida.

E aí, quando você acha que Morrissey acabou e não tem mais zero a oferecer, ele saca do ar uma maravilha porquê “Zoom Zoom the Little Boy”, cantiga ligeiro e divertida, com um refrão genial, sobre um menino obcecado em proteger animais: “Ele quer salvar os gatos e cachorros e morcegos e os sapos/ e os texugos e os porcos-espinhos/ ele quer salvar as vacas e ovelhas, e as criaturas das profundezas/ e a raposa com olhos de mariposa”. Só Morrissey conseguiria fazer uma letra tão formosa citando um texugo.

Outra filete surpreendente é uma ode ao crítico músico norte-americano Lester Bangs, ídolo de Morrissey desde a juvenilidade. A filete, que tem uma levada de guitarra que lembra “Get Lucky”, do Daft Punk, leva o nome do jornalista e recorda uma idade em que o jovem Morrissey recortava artigos de jornal sobre suas bandas favoritas e chefiava um fã-clube da orquestra The New York Dolls.

“Outra noite de cerveja em seu porão de desespero/ mulheres nuas nas paredes/ porque é ali que elas pertencem/ uma camiseta de Detroit, suja e rasgada/ com manchas de sete dias/ Ah, mas quando você escrevia/ sobre o Roxy Music ou os Dolls [The New York Dolls]/ o ‘Village Voice’ não tinha escolha/ senão comemorar todas as suas palavras/ porquê é ser você, Lester Bangs?/ a três milénio milhas de intervalo/ esse nerd devora todas as suas palavras”. O grupo Roxy Music não só é citado na letra, porquê foi homenageado no disco com uma versão de “Amazona”, filete originalmente lançada no disco “Stranded”, de 1973.

No porvir, “Make-Up Is a Lie” certamente não será lembrado porquê um dos grandes momentos de curso de Morrissey. Do compositor que lançou quatro LPs clássicos com os Smiths e gravou discos solo porquê “Viva Hate”, “Kill Uncle”, “Vauxhall and I” e “Your Arsenal”, os fãs esperam muito mais. Mesmo assim, o novo disco tem alguns momentos que nos fazem lembrar por que Moz é tão próprio.

Folha

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