No topo de uma colina tempestuosa, Cathy se masturba de pé, entre suspiros, escondida detrás de um rocha, enquanto movimenta a mão debaixo da longa saia vermelha. O que ela não espera é que Heathcliff a pegue no ato. Envergonhada, ela tenta fugir, mas ele agarra seu pulso, enfia os dedos dentro da própria boca e os chupa. “Eu posso te seguir até o termo do mundo uma vez que um cão”, diz, encarando-a.
É nesse clima de subida voltagem sexual que opera “O Morro dos Ventos Uivantes”, da diretora Emerald Fennell, filme que transforma o enredo do livro de mesmo nome, um clássico da literatura mundial, em um romance erótico.
A teoria da cineasta era fazer o “Titanic” da novidade geração, ela vem dizendo a jornalistas. Para isso, escalou dois grandes símbolos sexuais de Hollywood, Margot Robbie e Jacob Elordi, para interpretarem os protagonistas, Cathy e Heathcliff.
“Eu senhor fazer filmes que façam as pessoas reagirem fisicamente. Quando pensei em harmonizar esse livro, eu queria que um filme causasse uma resposta física”, diz Emerald Fennell, de blazer preto e óculos modernos. Ela está na sala de uma mansão do século 20, em Los Angeles, avante de um papel de parede rosa e de móveis rococó, que imitam o quarto de Cathy no filme.
Para deixar o público com tesão, Cathy e Heathcliff gemem na boca um do outro, lambem suas mãos e fazem movimentos de vai e vem em cima da mesa, em cenas provocativas mas nunca explicítas.
O libido, aliás, é representado mais do ponto de vista de Cathy. Há uma cena, por exemplo, em que a câmera dá um zoom nas cicatrizes nas costas suadas de Heathcliff, uma vez que se a lente emulasse o olhar sedento dela. Em entrevista, porém, Elordi discorda que seu personagem seja sexualizado. Enquanto lança o longa, o australiano também concorre ao Oscar de melhor ator coadjuvante por “Frankenstein”.
“Há um despertar sexual dela [Cathy], e Emerald é capaz de fazer com que imagens aparentemente inocentes provoquem fortes reações”, diz Robbie. Ela se refere a elementos bizarramente sensuais. Em notório momento, sua personagem penetra os dedos vagarosamente em uma gelatina gosmenta e transparente, recheada com a cabeça de um peixe.
A adaptação simplificou o romance de Emily Brontë para dar destaque ao paixão ardente e proibido entre Cathy e Heathcliff, um dos mais populares da literatura. Na obra original, publicada em 1847 —e atribuída ao pseudônimo masculino Ellis Bell—, Heathcliff é um órfão adotado pela abastada família de Cathy e passa a viver no Morro dos Ventos Uivantes, uma propriedade rústico inglesa.
O nepotismo do patriarca pelo menino desperta a rivalidade de seu rebento, Hindley. Heathcliff encontra escora na amizade com Cathy —os dois crescem juntos e se apaixonam. Quando Hindley herda a propriedade, porém, interrompe a instrução de Heathcliff e o obriga a trabalhar no campo, enquanto Catherine decide se matrimoniar com o vizinho rico para preservar o status social da família e satisfazer o papel esperado de uma mulher burguesa da quadra.
A inventividade da obra gótica está na nuance. Apesar do trágico rumo do parelha, os dois estão longe de serem os mocinhos da trama. Pelo contrário, Catherine e Heathcliff são cruéis, vingativos e egoístas, não só com as pessoas ao seu volta, mas também um com o outro. A preocupação correspondida é combustível para uma relação mais tóxica do que saborosa, que contamina o casarão decrépito e o rumo de seus descendentes.
As mudanças de Fennell provocaram a ira de segmento do público, principalmente daqueles apegados à trama do livro. A diretora cortou personagens, uma vez que Hindley, justamente o principal inimigo de Heathcliff por boa segmento do romance. Transformou Nelly, empregada que narra a história, em alguém mais maquiavélica do que simples, disposta a manipular os protagonistas para separá-los.
Cathy e Heatchcliff não transam na obra original, e a relação dos dois é sofrida devido, em grande segmento, a comportamentos deles próprios.
Uma de suas escolhas mais polêmicas foi a escalação de Elordi, que é branco. Isso porque Brontë o descreve uma vez que um “cigano de pele escura”, particularidade que leva os outros personagens a tratarem Heathcliff uma vez que um eterno usurpador no Morro dos Ventos Uivantes.
Mas Fennell disse que nunca quis ser leal ao livro. Para se blindar, o título do longa tem sido divulgado entre aspas, o que reforça a teoria de que é uma versão sua de uma obra, uma vez que ela diz, difícil de harmonizar. Seu objetivo, acresenta, era levar para a telona as sensações despertadas em suaprimeira leitura, na mocidade. “O livro chocou quando foi publicado, e é uma obra tão visceral que ainda é provocante”, afirma.
Esta, aliás, está longe de ser a primeira adaptação do romance para o cinema, e todas alteraram, de alguma forma, o enredo concebido por Brontë. Uma das versões mais famosas foi a protagonizada por Juliette Binoche e Ralph Fiennes, em 1992.
Nenhuma delas, é notório, se dedicou tanto a preencher as lacunas deixadas por Brontë sobre a relação impúdico entre Cathy e Heathcliff. Os dois passam muito tempo juntos no livro, mas não há descrições de afeto físico, o que deixa muio espaço para a imaginação. E a vergonha, para Fennell, torna tudo mais sexy, porque leva à transgressão —por isso tantas histórias românticas acontecem no pretérito, em épocas onde havia mais limitações.
No seu filme, tudo parece servir uma vez que combústivel para a tensão sexual, inclusive os comportamentos sádicos dos personagens que, no livro, constroem um retrato pessimista da natureza humana. “Cathy é incrível porque ela é extremamente complicada, cruel e ciumenta. Acho que ela é um dos personagens mais fascinantes que já existiram na literatura, porque é dificil de amar. E, no final das contas, todos nós somos difíceis de amar em notório nível. É o que faz [do amor] doloroso e bonito”, diz a diretora.
Fennell não esconde a sua preocupação por personagens movidos por sentimentos uma vez que inveja, ressentimento e ódio, que nem por isso deixam de tolerar ou de serem perturbadoramente sensuais. Em “Bela Vingança”, seu primeiro longa que conquistou o Oscar de melhor roteiro, Cassie finge estar bêbada em bares para atrair homens que pretendem desmandar dela, só para desmascará-los —e vingar a amiga que se suicidou em seguida um estupro.
Em “Saltburn”, seu último filme, Berry Keoghan vive um rapaz manipulador obcecado por seu colega rico de faculdade —vivido por Elordi. Ele se deleita, por exemplo, ao tomar a chuva do banho do companheiro, em uma das várias cenas virais do filme.
Não é por possibilidade que “O Morro dos Ventos Uivantes” é o livro predilecto da diretora. A obra sem final conciliador ou moral da história combina com seu estilo um tanto atrevido de explorar o lado sobrio do libido. Porquê seus outros filmes, a adaptação tem uma estética magnificiente, com vestidos pomposos e cenários que se dividem entre uma mansão rococó milimetricamente decorada e vales esverdeados e exuberantes.
A produção ficou por conta da empresa de Robbie, a LuckyChap, que recusou um contrato financeiramente mais vantajoso com a Netflix para fechar negócio com a Warner Bros. A atriz queria prometer uma campanha de lançamento nos cinemas mais robusta. “Eu prefiro ver todos os filmes no cinema, com um grupo de pessoas. E, no caso desse filme, há muitos momentos de impacto”, diz ela.
Aquecer as salas de cinema parece ser, de indumento, uma motivação para Fennell. “Somos os mesmos que sempre fomos. Queremos sentir e testar”, diz ela. Se der para ir do pranto ao tesão, melhor ainda.
A jornalista viajou a invitação da Warner Bros.
