Morte de Tainara marcou o fim de ano das mulheres

Morte de Tainara marcou o fim de ano das mulheres – 01/01/2026 – Djamila Ribeiro

Celebridades Cultura

Eu gostaria que minha primeira pilar do ano fosse sobre esperançar o mundo apesar de todas as batalhas. Queria falar de paixão, talvez, um sentimento tão necessário e, por vezes, escasso. Mas sinto que não é provável redigir sobre qualquer tema que não seja Tainara Souza Santos, de 31 anos, que em seguida dias de luta pela vida morreu na véspera de Natal.

As confraternizações de termo de ano de mulheres em todo o país foram atravessadas pela consternação diante de sua morte, uma vez que um traumatismo coletivo, depois de semanas em que acompanhamos, com angústia, sua internação hospitalar e a expectativa de que ela pudesse sobreviver.

Depois ser atropelada, seu invasor seguiu dirigindo por uma longa intervalo com Tainara presa ao carro, sendo arrastada à vista de todos. Um transgressão cuja brutalidade consternou o país.

O transgressão cometido na marginal Tietê, uma das vias mais movimentadas do mundo, expõe o ódio que estrutura nossa sociedade. De outro lado, a força de Tainara despertou inúmeras mulheres. Durante dias, muitas de nós nos sentimos na antessala de seu quarto de internação, unidas por orações, pensamentos e votos para que, de uma forma ou de outra, ela encontrasse tranquilidade.

Diante de sua passagem, uma vez que afirmou Lúcia, sua mãe, em mensagem pública, Tainara descansou. “Agradeço desde já todas as mensagens de prece, carinho e paixão que vocês tiveram comigo e com a minha filha. Ela acabou de partir deste mundo cruel e está com Deus. É uma dor enorme. Mas acabou o sofrimento e agora é pedir por justiça”, afirmou.

Tainara era uma mulher jovem, com sonhos, afetos, vínculos e projetos que nunca conheceremos porque lhe foi rejeitado o recta mais vital, o de continuar viva. Passadas as festas, iniciamos o ano com um libido que já não cabe em eufemismos: o que queremos para 2026 é estarmos vivas. Não é um ideal abstrato, mas uma exigência mínima diante de um país que segue naturalizando a morte de mulheres.

O estado de São Paulo registrou, em 2025, o maior número de feminicídios e de agressões contra mulheres de sua história. O oferecido, por si só, já é insuportável. Mas quando essa estatística ganha nomes, rostos e histórias interrompidas, o que vemos é um padrão repetido de violência, negligência e permissividade social.

Expor que queremos estar vivas em 2026 é exigir políticas públicas efetivas, investimento em prevenção, proteção real às mulheres em situação de risco, responsabilização célere dos agressores e uma transformação profunda em toda a consciência e na prática política de homens.

Talvez esta pilar seja, sim, sobre paixão. Paixão pelas mulheres que se foram, pelas que lutam para estar cá. Seguir lutando e exigindo mudanças não deixa de ser um ato de esperança. A esperança precisa estar aliada a nossa força para não somente chorar as perdas, mas gritar a plenos pulmões que temos o recta à vida. Tainara nunca será esquecida por aquelas que nutrem dentro de si a revolta necessária que transmuta a dor em luta.

Em 2026, teremos eleições presidenciais. Que saibamos nos orientar pela verdade e não por falsas promessas e comoções tardias. Que zero nos distraia, os não assuntos que se tornam virais e só servem para nutrir lados polarizados ou para inflar egos, temas que são fabricados para que coloquemos nossa atenção em direções que não nos levam à vida. Tampouco devemos desabar em discursos fáceis ou em certos perfis que instrumentalizam a vida das mulheres para ganharem curtidas sem o mínimo compromisso com a luta feminista.

Não queremos palavras soltas em palanques ou indignações desacompanhadas de ações efetivas. Precisamos estar atentas para saber quanto do orçamento público foi concretamente talhado a políticas que poderiam prometer a nossa permanência viva.

Não podemos mais olhar para a política dos homens com ingenuidade ou uma vez que torcida de futebol. É preciso ter coragem, responsabilidade e honestidade intelectual para declarar que, independentemente de lados políticos, os últimos anos foram massacrantes para as mulheres. Que descansemos do 2025 que nos marcou pela indiferença do Estado as nossas demandas para continuarmos reivindicando a nossa possibilidade a uma vida sem violência.

Que saibamos edificar nosso levante por Tainara e tantas de nós compreendendo a nossa força coletiva e as dimensões dessa força. Não há projeto político provável no Brasil sem a centralidade da nossa tarifa. Sim, esta pilar é sobre paixão, aquele sentimento por vezes escasso, mas que cresce e floresce sempre que uma de nós não desiste de esperançar por todas nós.


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Folha

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