Mostra da cinemateca revê série de filmes lançados em 1975

Mostra da Cinemateca revê série de filmes lançados em 1975 – 06/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Nos últimos anos, a mostra mais excitante proposta pela Cinemateca Brasileira se labareda “50 Anos Depois”. Nesta edição, a mostra acontece entre 7 e 17 de agosto pela quarta vez, com a proposta inalterada de rever uma série de filmes lançados em 1975. A teoria propicia não somente uma revisão de certos filmes, uma vez que o mergulho no espírito do cinema daquele momento.

A seleção do curador Paulo Sacramento não procura resgatar os maiores sucessos, nem os melhores ou mais premiados filmes do período, mas sobretudo aqueles que pode ser úteis reencontrar. Esse é seu ponto possante.

Desta vez, por exemplo, a mostra se abre com “Prelúdio para Matar”, de Dario Argento, rabi italiano no terror e das cores. Já no dia seguinte entra “Nashville”, mais um ferino diagnóstico dos Estados Unidos (ou da gente dos Estados Unidos) por Robert Altman. Na era, esse malsofrido remoinhar em círculos pareceu magnífico. É provável que continue assim.

O sábado, dia 9, começa com um dos menos vistos, porém mais reverenciados filmes brasileiros dos anos 1970, “Aventuras de um Padeiro”, de Waldir Onofre. Já “O Matrimónio” remeteu Arnaldo Jabor de volta à obra de Nelson Rodrigues, em seguida sua obra-prima “Toda Nudez Será Castigada”.

Não era um mau filme, mas tinha o repugnante sabor de uma não mencionada franquia, quer expressar. O sábado muito malsofrido se fecha com a exibição de “Barry Lyndon”, um grande Stanley Kubrick.

Domingo traz a oportunidade de rever “O Libido”, de Walter Hugo Khouri. Khouri é um cineasta que por muito tempo ficou na sombra em função do cinema novo, mas, passadas as disputas da era (entre nacionalismo e internacionalismo) hoje começa a ser revisto somente pelas virtudes que tem.

Não são poucas. Mas correm o risco de, em tempo marcado por manifesto conformismo, tomarem o lugar da inventividade vulcânica de um Glauber Rocha ou Rogerio Sganzerla.

Será, no mais, um dia malsofrido, que começa com o contemplativo “A Mito de Ubirajara”, filme de André Luiz Oliveira hoje injustamente esquecido. De passagem, haverá também a exibição do restaurado “Cristais de Sangue”, de Luna Alkalay, do “Simples”, de Glauber. Todos são filmes a discutir, sem incerteza. Com exceção do último, que passa às 20h30, o imbatível “Profissão: Repórter”, de Antonioni.

A segunda semana da mostra começa com “Jeanne Dielman”, de Chantal Akerman, que uma estranha votação elevou a melhor filme de todos os tempos.

Uma glória que só tende a recontar contra o próprio filme, ao qual não faltam virtudes —a iniciar por sua protagonista, a genial Delphine Seyrig. Depois vem a oportunidade de resgatar “Perdidos e Malditos”, um desses filmes mito entre os malditos brasileiros, realizado por Geraldo Veloso.

Se “Derzu Uzala”, que entra sala Oscarito às 20h30 do dia 14 de agosto, é uma quase unanimidade, o “Salò”, de Pasolini, enfureceu a extrema direita da era e tem tudo para enfurecê-la de novo 50 anos depois.

A sexta-feira traz a comédia “Cada um Dá o que Tem”, três histórias que merecem ser revistas hoje. Depois, uma sessão muito interessante de curtas (“Ecos Caóticos”, de Jairo Ferreira, “Hang-Five”, de Djalma Limongi, “Tem Coca-Cola no Vatapá”, de Pedro Farkas e Rogério Corrêa e “Semi-Ótica”, de Antonio Manuel) concorre com “Em Procura do Ouro”, de Chaplin —a esse também será preciso voltar.

O segundo sábado da mostra se tarifa por buscar extremidades. Uma grande comédia de Blake Edwards, “A Volta da Pantera Cor-de-Rosa”, às 16h, o melô fassbinderiano de “O Recta do Mais Poderoso”, às 20h30, na sala Oscarito, e o belíssimo policial “Um Dia de Cão” na dimensão externa.

À tarde, ainda, uma irrupção francamente política, com “A Guerra do Chile”, de Patricio Guzmán. Programa tão eclético quanto provocativo.

A mostra fecha no domingo com ares radicais. Da Rússia vem “O Espelho”, de Tarkovski; do Brasil, “Lilian M – Relatório Secreto”, de Carlos Reichenbach e “O Monstro Caraiba”, de Julio Bressane: dois momentos fortes do que ficou espargido uma vez que cinema marginal, ou experimental ou pós-novo, ou o que mais se queira.

A opção hollywoodiana do fechamento é “Um Estranho no Ninho”, de Milos Forman, indagação sobre a teoria de loucura, que ganhou uma penca de estatuetas no Oscar, inclusive melhor direção. Jack Nicholson, que ganhou o prêmio de melhor ator, está memorável.

Para terminar, a mostra incluiu dois filmes que acabam de se tornar centenários: “O Encouraçado Potenkin”, de Sergei Eisenstein, e “Em Procura do Ouro”, de Charlie Chaplin. É um pouco destoante: temos cá dois arquiclássicos, uma fenda para um pouco uma vez que 50 x 2, de onde poderia transpor uma outra bela mostra anual —quem sabe a volta das “Jornadas do Cinema Sombrio”.

De todo modo, “Em Procura do Ouro” está com restauro recente e passa na sexta-feira, 18, às 20h30, na dimensão externa.

Se o tempo não estiver gélido, esse ainda é o filme que melhor pode trazer novos fãs para o cinema. Os demais são, fora o “Potemkin”, ótimos para rever, reavaliar e repensar uma vez que andava o cinema há 50 anos, a partir de uma seleção ocasião a todos os gêneros, pensamentos e tendências daquele momento.

Folha

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