Mostra de cinema árabe, em sp, destaca a causa palestina

Mostra de cinema árabe, em SP, destaca a causa palestina – 12/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Em 2003, o colunista Nelson Ascher publicou nesta Folha uma espécie de obituário do pensador palestino Edward Said. O texto criticava Said de maneira dura, descrevendo sua celebrada obra “Orientalismo”, de 1978, porquê “raivosa” e “perniciosa”.

Ascher incomodou a comunidade sarraceno brasileira, que organizou um manifesto de 187 intelectuais em resguardo de Said. Entre eles, o geógrafo Aziz Ab’Sáber, a filósofa Marilena Chauí e o redactor Milton Hatoum. O protesto culminou, no ano seguinte, na instauração do Icarabe (Instituto da Cultura Sarraceno) e, em 2005, em uma mostra de cinema em São Paulo.

A Mostra Mundo Sarraceno de Cinema vingou nestas duas últimas décadas. Chega agora à sua 20ª edição com 18 filmes, sendo 12 deles inéditos. Porquê um meneamento à sua história, o festival vai reexibir cinco títulos que marcaram as edições anteriores. O evento, copatrocinado pela Câmara de Transacção Sarraceno-Brasileira, começa no CineSesc nesta quarta (13) e segue até 7 de setembro, com exibições também no CCBB-SP.

“Existia um público sedento por filmes do mundo sarraceno”, diz Soraya Smaili, uma das idealizadoras da mostra. Ainda não havia streaming e, para muitos, o festival era uma das únicas oportunidades para saber o cinema de lugares porquê a Síria, o Líbano e o Iraque.

O momento, sugere Smaili, ainda exige esse tipo de trabalho, que ela descreve porquê uma maneira de combater estereótipos sobre o Oriente Médio —porquê aqueles proferidos contra os palestinos, representados no espaço público porquê terroristas. “Combatemos esse exposição desumanizador que tenta fazer com que os palestinos não existam”, afirma.

A figura de Edward Said marcou as duas décadas de festival, assim porquê um enfoque na justificação palestina. Um dos primeiros filmes exibidos em 2005 foi justamente uma biografia sobre ele. “Said é uma espécie de paraninfo da mostra”, diz Smaili. “Começou por justificação dele.”

Smaili se lembra das agruras daqueles primeiros anos, em que, sem formatos digitais, tinham de mourejar com a burocracia de trazer películas para o país. Às vezes, quando a coisa enroscava na alfândega, pediam a ajuda das embaixadas árabes. Pelejavam, depois, para trasladar e legendar todos os filmes. Hoje, o instituto tem um pilha de quase 400 títulos.

Um dos pontos de inflexão na história do festival foi a vaga de protestos que tomou o Oriente Médio em 2011, levando à queda de ditaduras na Tunísia, no Egito, no Iêmen e na Líbia, além de catalisar uma guerra social na Síria —encerrada exclusivamente em 2024, com a queda de Bashar al-Assad. O noticiário internacional fomentou, naquele ano, um interesse maior do público por essas produções.

Os anos de pandemia estremeceram o festival, que teve duas edições virtuais. Por outro lado, foi também uma oportunidade de exibir os filmes a um público mais largo, fora do eixo cultural de São Paulo, diz Smaili. Foi exclusivamente em 2023 que voltou a ser presencial.

O enfoque da mostra na justificação palestina está evidente na edição deste ano, motivado não só por seu histórico, mas também pela situação atual. Posteriormente quase dois anos de guerra, o governo de Israel aprovou no último dia 8 a ocupação da Cidade de Gaza. Segundo a prelo israelense, a proposta deve levar à expulsão de tapume de 800 milénio civis do lugar.

O filme de estreia, no dia 13, será “Tudo que Resta de Você” (2025), da diretora palestino-americana Cherien Dabis, sobre os deslocamentos forçados de uma família palestina. Dabis é um dos nomes em subida do cinema de língua sarraceno. Nos Estados Unidos, dirigiu episódios das séries “Only Murders in the Building”, “Ozark” e “Ramy”.

Já no catálogo de filmes de edições anteriores, o destaque é o documentário “Cinco Câmeras Quebradas” (2011). Trata-se dos registros feitos pelo colono palestino Emad Burnat —por coincidência, casado com uma brasileira— em seu vilarejo, mostrando as ações das forças de segurança israelenses.


Destaques da programação

Lhaneza: “Tudo que Resta de Você” (2025), de Cherien Dabis

13 de agosto, às 20h, no CineSesc

“Sudão, Lembre-se de Nós” (2024), de Hind Meddeb

“Fidai: Verão de 1982” (2023), de Kamal Aljafari

“Porta do Sol” (2004), de Yousry Nasrallah

“Cinco Câmeras Quebradas” (2011), de Emad Burnat

Folha

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