O caráter revelador do deserto, belo e hostil na mesma medida, já foi descrito por diversos autores ao longo dos séculos —do arqueólogo inglês T. E. Lawrence ao responsável de “O Pequeno Príncipe”, Antoine de Saint-Exupéry, até o ambientalista radical Edward Abbey. Todos parecem concordar que não há onde se esconder na imensidão vazia e silenciosa da paisagem, sobretudo de nós mesmos.
Essa é a máxima de “Sirât”, filme de Oliver Laxe que venceu o prêmio do Júri no Festival de Cannes e agora abre a 49ª Mostra de Cinema de São Paulo. A trama começa com um pai que procura, ao lado do rebento, sua filha desaparecida no deserto do Marrocos, palco de disputas territoriais entre grupos armados. A paisagem arenosa e isolada por montanhas rochosas serve também porquê pista para raves, festas de música eletrônica frequentadas pela filha.
É em uma dessas festas, ao som ensurdecedor dos alto-falantes, que pai e rebento distribuem panfletos. Eles não encontram a moça, mas conhecem um grupo de hippies que viaja pelo deserto de sarau em sarau, e decidem acompanhá-los por sua romaria.
A travessia do território inóspito se torna uma luta por sobrevivência. Em manifesto momento, a narrativa toma um rumo inesperado —e se transforma numa espécie de parábola dos dramas contemporâneos, entre eclosão de guerras, crise climática e desgaste econômico.
“É um filme conectado com a dor do mundo”, diz Laxe, por videochamada. “Sabemos que esse mundo não é sustentável. Não é um termo, é uma transição, e as épocas de transição são duras. Mas a vida tem um limite. Seremos obrigados a questionar o que é ser humano, mormente diante da crise climática e das novas tecnologias.”
Mais do que uma sátira, porém, o filme parece fazer uma reflexão sobre o sentido da vida humana, e se torna uma jornada de resgate existencial. A espiritualidade está no próprio nome da obra —a vocábulo “sirât”, na tradição islâmica, está ligada à teoria de uma ponte que deve ser cruzada sobre o inferno antes do julgamento final.
Laxe diz que queria simbolizar no filme a dor de situações extremas que são, para ele, porquê morrer em vida e levam ao desapego do ego. São filosofias ligadas ao sufismo, vertente mística do Islã da qual o diretor franco-espanhol se aproximou nos 12 anos que viveu no Marrocos.
Depois a primeira exibição em Cannes, comentários cá e ali na Croisette classificavam “Sirât” porquê uma espécie de “Mad Max” mútuo. No filme eletrizante de George Miller, que do prelúdios ao termo é uma perseguição no deserto, a ação serve porquê primeiro projecto para uma narrativa que condena o colapso da cultura moderna, das quais sistema levou ao esgotamento da natureza, a escassez generalizada e a vexação da população.
No caso de “Sirât”, os personagens, alienados em seus dramas e gozos, são obrigados a encarar o entorno, marcado por uma natureza implacável e por um território em guerra —e nessa provação, acabam expostos a suas próprias fraquezas.
Apesar de manifesto misticismo, o filme não deixa de tecer comentários políticos. A primeira sarau, por exemplo, é interrompida por militares que estão evacuando a dimensão. É difícil não relacionar a cena com o 7 de outubro de 2023 em Israel, quando o Hamas invadiu uma rave que acontecia em Re’im, perto da fronteira com Gaza. A resposta israelense aos ataques terroristas iniciou uma guerra no território palestino, classificado porquê genocídio por organizações internacionais de direitos humanos, que só arrefeceu nesta segunda, com um congraçamento de cessar-fogo entre Israel e Hamas.
Em uma edição de Cannes marcada por manifestações políticas, “Sirât” fez coro com longas que capturaram o clima de mal-estar coletivo. Laxe participou de um evento na Croisette que homenageou a fotojornalista palestina Fatma Hassouna, que morreu durante um bombardeio israelense e não pode comparecer na estreia de seu documentário. Na ocasião, o diretor disse que a “matança precisa parar de ser normalizada”.
Jade Oukid, que interpreta uma das hippies, conta que alguns amigos seus estavam na sarau em Re’im. Ela é um dos não-atores escalados por Laxe em comunidades alternativas e raves para conceber o elenco de “Sirât”. Oukid e Stefania Gadda, que vive outra hippie do grupo, estão no Brasil porquê convidadas da 19ª Mostra.
Para Gadda, o grupo de viajantes na trama representa o inconformismo frente a um sistema mundial em colapso. “Em manifesto sentido, é porquê se estivéssemos dançando sobre a guerra. É porquê se colocássemos a cabeça dentro dos alto-falantes para não escutar o mundo que está colapsando. Seguir esse tipo de vida selecção pode ser uma forma de não querer fazer segmento disso”, diz. Diante das intempéries do deserto, por exemplo, pai e rebento passam a colaborar com o grupo, onde tudo é dividido, desde a comida até o quantia para comprar gasolina.
A atmosfera de inquietação frente aos males do mundo permeia outros filmes da 49ª Mostra. É o caso de “Bugonia”, de Yorgos Lanthimos, “No Other Choice”, do sul-coreano Park Chan-wook, e “Atropia”, de Hailey Gates, por exemplo, que usam enredos absurdos para tecer críticas políticas e sociais.
O brasiliano “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Rebento, se passa durante a ditadura militar e explora a construção da memória. Enquanto isso, “Era uma Vez em Gaza” e “Palestina 36” se debruçam sobre a vida nos territórios palestinos antes da guerra.
Serão exibidos ainda filmes restaurados porquê “Chuva Negra”, sobre a vida da população em Hiroshima cinco anos em seguida o lançamento da explosivo atômica, e “Crônica dos Anos de Queimada”, vencedor da Palma de Ouro de 1975, que faz um retrato da Argélia antes da revolução de 1954.
Laxe, porém, acredita ter um oásis em meio ao cenário mundial estéril que vem influenciando os festivais. Há serenidade, segundo ele, em admitir a dor e seguir em frente. “Faz segmento da responsabilidade porquê humano estar conectado ao mundo, mas também de tentar permanecer o menos angustiado provável”. O processo é difícil, mas necessário para buscar uma forma melhor de estar no mundo.
