Mostra de Tiradentes inicia em tom de guerrilha e Carnaval

Mostra de Tiradentes inicia em tom de guerrilha e Carnaval – 25/01/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Foi difícil não sentir um clima de guerrilha durante a exibição de “Rastilho”, terceiro longa do paraibano Tiago A. Neves, exibido na noite do último sábado, na Mostra de Cinema de Tiradentes, uma vez que segmento da seção Autorias.

Começou com delonga, depois de problemas com o gerador da tenda onde os filmes em competição são exibidos terem também interrompido uma conversa sobre os 80 anos do cineasta Julio Bressane, com recta a uma participação de Miguel Falabella, o Júlio César de seu longa “Cleópatra”, de 2007.

E se, na sua superfície, o filme de Neves não procura qualquer aproximação com o do diretor carioca, eles, ainda assim, se encontram no vista que guia a seleção —o duelo à autoria centrada numa pessoa.

Nascido da união de dois coletivos, “Rastilho” labareda a atenção por inventar com os recursos do seu entorno nos espaços privado e público. E, por isso, o longa pode —ou não— lucrar o testemunha logo no primeiro dos seus sete capítulos em plano-sequência, isto é, longas tomadas sem cortes. No início, vemos, do banco de trás de um carruagem, Márcia, papel de Ingrid Castro, pelas ruas de João Pessoa com o pai, Geraldo, vivido por Osvaldo Travassos.

Prostitutas oferecem seus serviços à luz dos sinalizadores policiais no que parece ser o núcleo degradado da cidade. Até que Márcia deixa o idoso, atônito, com um grupo dessas mulheres. Ela dirige um fatia e decide voltar.

Na verdade, o que fez foi provocar uma de suas irmãs, Nilda, papel de Nica Bezerra, que vive na noite e em zero tem ajudado a cuidar do velho pai demente.

Elas brigam, Márcia diz não manter mais os desmandos e alucinações do pai. A outra diz que não consegue chegar perto dele sem querer vomitar —fala de traumas de puerícia, de uma vez que ele maltratava a mulher.

Sem chegarem a um conciliação, Márcia arranca, e a mais jovem se machuca na rua. A câmera vê, espiando da janela traseira, uma vez que Márcia sai do carruagem, a acolhe, vão cuidar da ferida em morada, coisa e tal.

É logo que a câmera revela a quieta Aninha, rapariga que fora sem aviso os olhos do público nesta cena de pelo menos uns cinco minutos. E se seguem outros planos, conduzidos pelo elenco notável, deixando o testemunha à espera de uma surpresa a cada esquina.

E serão muitas, de carruagem ou a pé, indo da cozinha para a sala de estar de uma morada de classe média baixa, tudo embalando a degradação de uma família de mulheres em torno desse pai patrão.

A eficiência desses episódios dependerá da disposição do testemunha a ver dramas sobre a perpetuação do machismo em versão naturalista e um pouco irregulares em seu texto e mise-en-scène.

Por exemplo, ainda no início, a direção põe a câmera num tripé, e decide exclusivamente rodar a lente no mesmo eixo para observar um dia de Nilda cuidando do pai. Mas enquanto ele tenta sintonizar seu rádio e dançar sozinho um forró, a filha se põe a vomitar ressentimento enquanto limpa as fezes do pai, com um estado de saúde que não permite senão a ignorar a filha. Não vasqueiro se flerta com o excesso e com um artificialismo que, felizmente, não contamina outras partes do filme.

É quando a equipe se põe a trespassar filmando pela rua, desvairada. Se salvam do conjunto uma sequência de fuga em direção ao mar e as duas belas cenas finais, num trajectória de tragédia e resgate, dignas do bom cinema amásio. Isto é, daquele feito com paixão, independente dos seus recursos materiais.

A aura de guerrilha não se manteve tão evidente na exibição seguinte. O filme que fechou a noite de sábado, “Uma Baleia Pode Ser Dilacerada uma vez que uma Escola de Samba”, do Rio de Janeiro, é uma produção muito muito planejada e orquestrada. Cá vemos o último dia de uma escola de samba, a falida Unidos da Guanabara, que tem uma vez que mascote uma baleia, e os antecedentes que a trouxeram ao seu término.

A baleia é um elemento meão de um carruagem emblemático que se dirige a um repositório de descarte e reaproveitamento de estruturas cenográficas carnavalescas —um cemitério de alegorias. No caminho, dobram uma esquina errada e acabam sem querer passando pela Marquês de Sapucaí, onde se dá o último momento de glória daquela escola de samba comandada por um rei que nunca quis a grinalda nem gostou disso.

O longa faz um esforço para não se definir. Os diretores Felipe M. Bragança e Marina Meliande chamam sua obra de “filme-experimento”. A determinada profundeza, um personagem se dirige à câmera e provoca, dizendo “e quem pensar que isso cá é uma parábola, não entendeu zero”. Além desse formato linear, a obra pode ser vista uma vez que instalação.

Mas, pelo menos nessa versão exibida em Tiradentes, o filme se constrói com arestas muito definidas. E são belas essas arestas, de um sublimidade técnico notável.

As atuações, os enquadramentos, o figurino, a trilha, os letreiros, a retrato, as referências a “Moby Dick” e a estrutura linear se encaixam geometricamente num clima de melancolia solar, permeado pelos tons de amarelo. Tudo muito planejado e coreografado.

O rigor técnico da produção contrasta com a origem mambembe dessa escola de samba moribunda, numa suposta incongruência que se encaixa nesse território contraditório que é o Carnaval carioca.

Mais cedo no sábado, houve a grata exibição de “Papaya”, animação de Priscilla Kellen que faz jus à puerícia do cinema. Não exclusivamente pelo seu vista lúdrico para a pequenada, hipnotizada pelas cores e gestos do protagonista —uma semente de mamão que enfrentará a natureza fora, justamente, de um mamão. Mas sobretudo pelo esplendor que evoca, à profundeza de outra animação vernáculo celebrada, “O Menino e o Mundo”, do diretor, Alê Abreu, que é um dos produtores cá.

Em vez de um menino, a bolota preta vai do aconchego ao lado da mamãe mamoeiro às desventuras de uma indústria agrícola perversa, que quebra todos os ciclos da natureza. Em meio à mensagem ambiental, o filme sem diálogos metaforiza as dores do propagação e os sacrifícios que se faz para entender seus sonhos. Papaya, no caso, guarda em si mais que a vontade de dar frutos —quer voar. Mas para isso, terá de entender sua própria natureza.

A produção já havia sido exibida no Festival de Berlim e, segundo a equipe, deve ter uma data de lançamento mercantil em breve.

Os jornalistas viajaram a invitação da Universo Produção

Folha

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