Mostra na Pinacoteca revela potência política do Carnaval 24/11/2025

Mostra na Pinacoteca revela potência política do Carnaval – 24/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Sobre um sege simbólico, dezenas de pessoas trajando farrapos se acotovelam para formar aquilo que se assemelha a uma estátua humana. No núcleo da povaléu, uma figura se impõe. É um varão descamisado com os braços erguidos para o firmamento, uma vez que se estivesse em transe.

Detrás dele, um grande letreiro faz um invitação: “Mendigos, desocupados, pivetes, rameira, loucos, profetas, esfomeados e povo de rua: tirem dos lixos deste imenso país sobras de luxos. Façam suas fantasias e venham participar deste grandioso dança de máscaras.” Naquele Carnaval de 1989, o Brasil atendeu ao chamado.

Intitulado “Ratos e Urubus… Larguem Minha Fantasia”, o desfile da Beija-Flor que usou o lixo para criticar o luxo estampou páginas de jornais, virou tema de livros e revolucionou a maior sarau popular do país. Com esse trabalho, o carnavalesco Joãosinho Trinta alcançou o que tanto almejava. Surpreendeu a todos com a opulência dos sobras.

Não à toa, a imagem desse desfile é um dos destaques de “Trabalho de Carnaval”, exposição que reúne murado de 200 obras na Pinacoteca de São Paulo para refletir sobre o potencial disruptivo da folia.

“Eu diria que não só disruptivo”, afirma Ana Maria Maia, que assina a curadoria do projeto ao lado de Renato Menezes. “Queremos pensar também o poder do Carnaval de organizar lutas, narrativas, contranarrativas, intenções e respostas.”

Uma dessas respostas foi dada na Marquês de Sapucaí, durante o desfile da Beija-Flor. A assembleia pretendia levar ao Sambódromo uma estátua de Jesus Cristo trajando farrapos, uma vez que se fosse uma pessoa em situação de rua. Quem não gostou da teoria foi a Igreja Católica, que conseguiu na Justiça a proibição da imagem.

Joãosinho Trinta acatou a decisão de maneira heterodoxa. Levou a enorme estátua para o Sambódromo coberta por um saco de lixo preto. Os braços abertos de Cristo carregavam uma mensagem: “Mesmo proibido, olhai por nós!”.

Situações uma vez que essa mostram que a folia subverte por meio da irreverência, sem necessariamente partir para o confronto direto. “O Carnaval é da ordem da insurgência e insubmissão”, diz Maia. “Mas essa insubmissão também dá lugar a estratégias de convívio e de insubmissão tática. Isso pode ser visto em tudo, inclusive do frevo.”

Um dos passos mais famosos desse ritmo é o “Faz que Vai, Mas Não Vai”, em que os dançarinos fingem que vão para a frente para, em seguida, dar dois passos para trás. “É um pouco essa estratégia de insinuar que você está na mesma manante para logo divergir.”

Na exposição, essa insubmissão estratégica pode ser sentida também em um áudio de “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”, samba-enredo do Poderio Serrano vencedor do Carnaval do Rio de Janeiro em 1982.

Naquele ano, a assembleia decidiu fazer uma sátira à espetacularização da folia. Por isso, o samba-enredo lança um olhar nostálgico para a Terreiro Onze, região onde as escolas costumavam desfilar, nos anos 1930.

Essa postura combativa destoa da placidez que reinava nos carnavais da Europa, onde a sarau ganhou força durante a Idade Média, posteriormente ter nascido uma vez que um ritual pagão para festejar a fertilidade na lavradio.

“Quando chega ao Brasil, com a colonização portuguesa, ele encontra nessa sociedade convulsiva as bases para uma reinterpretação que contemplou o encontro entre o cânone e a resposta a esse cânone”, diz a curadora.

Essa fricção entre elementos distintos pode ser vista na tela “Carnaval em Madureira”, de Tarsila do Amaral. A obra retrata, num bairro carioca, um sege simbólico que toma de empréstimo as formas da Torre Eiffel, criando um deslocamento improvável. O monumento que simboliza o poderio francesismo surge quase que por mágica no subúrbio carioca.

Heitor dos Prazeres foi outro artista que fez da folia matéria-prima de seus trabalhos. Na mostra, há uma obra em que o pintor retrata foliões se divertindo, enquanto um bondinho cruza os Arcos da Lapa.

Na exposição, o encontro entre veículos e blocos carnavalescos volta a brotar em outros trabalhos. É isso o que se vê em uma retrato de José Medeiros que mostra três carros sem conseguir trespassar do lugar em razão dos foliões que se aglomeram ao volta dos automóveis.

Imagens uma vez que essa parecem revelar uma disputa entre pessoas e máquinas. “Isso levanta algumas perguntas: a rua e o Estado são para quem? Para os que estão dentro dos carros ou para os pedestres”, diz Maia. “Essa é unicamente uma das formas que o Carnaval nos mostra esse estado de luta ordenado por poder, espaços e representações.”

Por vezes, essas disputas por territórios acontecem de forma quase literal. Em 2021, por exemplo, a Prefeitura de São Paulo desapropriou a antiga sede da Vai-Vai, que ficava nas imediações da rossio 14 Bis, no núcleo da capital paulista, para a construção de uma novidade risca do metrô. A assembleia estava na localidade havia cinco décadas.

Para refletir sobre esse processo, Rafa Bqueer criou a videoinstalação “O Peso de Esplendor”, um dos destaques da mostra. No trabalho, ela caminha no sítio em que ficava a sede da escola. Em suas costas, instalou um esplendor metálico de 40 quilos e fixou em seus pés destroços da demolição do prédio. “É uma vez que se tentasse se lastrar entre o luz do Carnaval e o peso dessa luta por espaços”, diz a curadora.

Além de discutir a relação entre folia e espaço urbano, a exposição leva ao público obras que evidenciam os bastidores da sarau, imagens que mostram a rotina dos trabalhadores que fazem o evento intercorrer. É o que se vê, por exemplo, na retrato “Lucas Cordeiro”, de Pedro Marighella.

A obra retrata um dos profissionais que segura cordas para delimitar o espaço dos blocos pagos no Carnaval baiano. Esses trabalhadores são chamados de cordeiros, daí o título da retrato. Não vasqueiro, eles relatam baixos salários e longas jornadas.

“Quando a gente elege falar do trabalho, queremos contribuir para uma justiça sobre o poder e o lugar de preço desses profissionais”, diz Maia. “Para a gente, é fundamental entender que o evento não acontece por eventualidade ou por milagre. O Carnaval é oriente grande monumento vernáculo justamente por motivo dessas pessoas.”

Folha

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