Mostra narra chegada do hip hop ao brasil através de sp

Mostra narra chegada do hip-hop ao Brasil através de SP – 07/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Uma roda de pessoas de braços cruzados se forma. Curiosos, eles observam três dançarinos, cada um com sua luva, cruzando as pernas para completar passos de uma dança que começava a ser praticada no Brasil —o break.

A descrição é de uma das imagens presentes na exposição “Hip-Hop 80’sp – São Paulo na Vaga do Break”, em papeleta no Sesc 24 de Maio, na capital paulista. Ela compõe, junto a roupas de era e recriadas, equipamentos de som, flyers, filmes, discos e recortes de jornais e revistas, o cenário da chegada do movimento hip-hop no país.

“Contamos a história da primeira geração que absorveu esse meteoro que veio dos Estados Unidos nos anos 1980 —de que forma isso foi entendido, filtrado e abrasileirado”, diz Gustavo Pandolfo, que faz secção da dupla Osgemeos, que assinam a curadoria ao lado de outros pioneiros do hip-hop no Brasil, porquê Rooneyoyo O Guardião, KL Jay, Thaíde, Sharylaine, Rose MC e Alam Beat.

A mostra destaca a chegada do hip-hop ao país enquanto movimento, com enfoque peculiar no grafite e na dança, além dos MCs e DJs do rap. “O que explodiu cá mesmo foi a dança, mas sempre vinha junto com a música”, afirma Alam Beat, DJ do Sampa Crew e b-boy. Para a rapper Sharylaine, essa cultura chegou através dos bailes, que já existiam desde os anos 1970. “Conheci o hip-hop no dança, através do breaking, e os DJs tinham que tocar os breakbeats para os b-boys e b-girls dançarem.”

Um dos pontos de encontro de dança —que incluíam também a rossio Roosevelt, o parque Ibirapuera e os periferia da estação São Bento do metrô— era justamente a esquina onde hoje fica o Sesc que abriga a exposição, entre as ruas 24 de Maio e Dom José de Barros, no núcleo da cidade.

Rooneyoyo, possessor de grande secção do ror da mostra, diz que começou a colecionar o material a partir de uma revista do primórdio de 1983 que trazia uma reportagem sobre o breaking. Ele trabalhava no núcleo e conheceu a dança justamente na roda da 24 de maio, comandada pelo lendário Nelson Triunfo, que é figura estável na mostra, em imagens, textos e roupas.

“Hip-Hop 80’sp” começa na verdade antes da chegada do movimento ao Brasil. A primeira sala é dedicada a Novidade York, nascimento do hip-hop, que desde 1973 já dava seus primeiros passos na metrópole americana. Há um filme inédito que o cineasta americano Michael Holman preparou para a exposição, com as primeiras imagens de batalhas de breaking nos Estados Unidos.

Destacam-se também as fotos inéditas de Martha Cooper, testemunha do período, e o documentário “Style Wars”, lançado em 1983 pelo fotógrafo Henry Chalfant, que destaca o grafite. Os desenhos ganham vida no envolvente, em peculiar os vagões do metrô nova-iorquino cobertos por pinturas. “O mesmo face que começou a pintar, se envolveu com a dança e com a discotecagem”, diz Gustavo, um dos dois Osgemeos.

Um espaço da mostra é tomado pelos filmes que foram referência de dez entre dez integrantes do movimento hip-hop nos anos 1980 —entre eles “Flashdance”, “Beat Street”, e “Breakin’”— e inclui material original usado nas filmagens, porquê peças de roupa. Alguns desses longas foram exibidos em cinemas do núcleo de São Paulo e eram consumidos avidamente pelos fãs e curiosos daquela cultura.

“Hoje um jovem vê um vídeo e pega os passos. A gente tinha que ir ao sítio, ver o Nelsão [Triunfo] dançar para aprender. É só depois do filme, o ‘Beat Street’, que a gente começa a entender o que é o hip-hop”, diz Rose MC. Otávio Pandolfo, a outra metade de Osgemeos, se lembra de permanecer o dia todo assistindo aos filmes para aprender os passos de dança.

“O ‘Flashdance’ não é um filme de breaking, mas tem uma cena emblemática de uns dois ou três minutos que tem os caras da Rock Steady Crew dançando na rua”, diz Rooneyoyo. “Para a nossa era, quando a gente viu isso, era referência máxima, inspiração para todo mundo. Tinha que ir ver no cinema umas dez vezes para ver rever aqueles dois minutos.”

São mais de 3.000 itens distribuídos nas salas. Há uma bateria eletrônica Roland TR-808, o mesmo protótipo usado por Afrika Bambaataa para produzir a música “Planet Rock”, seminal no rap. Também a recriação de roupas usadas por Michael Jackson, que popularizou passos de breaking, e até uma original de Tim Maia, ícone do soul, que junto ao funk de James Brown eram os gêneros mais sampleados e tocados por DJs de hip-hop.

A voga da era, desde o estilo futurista, passando pelas jaquetas pintadas à mão e os uniformes originais das equipes de dança, ganham destaque. As luvas, uma marca de estilo desse primeiro momento do hip-hop, também estão presentes. “Era para dar um efeito. Um face no escuro, todo de preto, a luva branca se destacava”, afirma Alam Beat.

Um espaço recria porquê era o quarto de um DJ, com móveis, toca-discos, vinis e posters, inspirado na experiência pessoal de KL Jay, dos Racionais MCs. O envolvente inclui um mixer Gemini vetusto que ele mesmo forneceu à mostra, além de uma espécie de discoteca básica de quem selecionava o que tocar para os b-boys e b-girls dançarem.

Toda uma extensa parede conta a história da pioneira roda de breaking da 24 de maio, comandada por Nelson Triunfo e com destaque para Ricardo, b-boy do grupo Funk e Cia. “O mais importante dessas rodas é a resistência”, conta Alam Beat. “Nessa era, era ditadura militar, e a polícia proibia a gente de dançar na rua. Às vezes levava à delegacia para investigação. Quem não tinha carteira de trabalho registrada era levado porquê vagabundo. A dança na rua salvou muita gente da marginalidade.”

Outra parede é dedicada à primeira geração do grafite de São Paulo. “Começamos a ver que eles faziam grafite no metrô e fizemos a mesma coisa. Demorava uns 15 dias para pintar uma jaqueta, mas o face andava com uma obra de arte na rua”, diz Otávio, da dupla Osgemeos. “A gente estava tentando deslindar um estilo, tinha muito pouca gente fazendo grafite no estilo hip-hop em São Paulo. Cada um pintava no seu bairro, e foi só no termo dos anos 1980 que começamos a desbravar a cidade.”

A sala principal de “Hip-Hop 80’sp” traz a réplica cenográfica de um vagão do metrô da risco azul onde acontecem oficinas dos quatro elementos do hip-hop. Ainda que tenha nascido nos passos, no cabelo black power e através das caixas de som de Nelson Triunfo na 24 de maio, o hip-hop se instalou nos periferia da estação do metrô. Foi lá, por exemplo, onde os integrantes dos Racionais se conheceram.

O espaço começou a ter movimento por desculpa dos b-boys João Break e Luisinho. “Quando o João chegava com o rádio, era a alegria da São Bento, porque precisava de música para dançar”, diz Alam Beat. “Os encontros eram sábado à tarde. Aí tem muita história.”

Uma delas tem a ver justamente com a falta de equipamentos para tocar música —e com uma lixeira. “Esse cá era o instrumento da São Bento”, diz Gustavo, nas mãos a réplica de uma lata de lixo de metal, típica dos metrôs de São Paulo, que integra a mostra. “Usava-se rádio ligado na tomada, e às vezes o metrô desligava a pujança —para você não usar a tomada, porque eles não queriam. Aí ficava sem música.”

As batidas na lata de lixo, recorda Rooneyoyo, davam o ritmo para os primeiros raps feitos de improvisação. “Foi ali que nasceu o primeiro beatmaker”, diz. “Todo mundo que frequentou a São Bento, porquê não tinha equipamento de som, acabou indo para o som da batida do lixo.”

Folha

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