Mostra reúne fotos de bob wolfenson e claudia andujar

Mostra reúne fotos de Bob Wolfenson e Claudia Andujar – 17/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Ao lado do largo da Batata, na zona oeste de São Paulo, uma mostra celebra a riqueza do espaço ao unir trabalhos de diferentes fotógrafos. Com imagens de nomes consagrados, uma vez que Claudia Andujar e Bob Wolfenson, e olhares de uma novidade geração, “Largo: Entretempos Fotográficos” traz reflexões sobre a teoria de lugar e está em papeleta no recém-aberto Instituto ViaFoto, meio cultural com ingresso gratuita.

“Me pareceu que o melhor jeito de introduzir esse lugar era estabelecendo um diálogo com os seus periferia. Decidi pesquisar a história desse entorno e descobri aspectos bastante particulares sobre o largo. Ele foi um dos primeiros pontos de ocupação da cidade, e a questão da disputa de território geográfico e simbólico se tornou fundamental para a exposição”, diz o curador Rodrigo Villela.

Isso não restringe a seleção aos limites da rossio. Pelo contrário. O objetivo é menos um retrato físico do largo e mais o estabelecimento de um repertório emblemático por trás de sua consolidação.

Logo na ingresso, fotografias de “Reahu, o Invisível”, célebre série de Andujar, retratam rituais xamânicos dos yanomamis. Segundo Villela, a teoria é que as cores saturadas, os desfoques e outras marcas da atmosfera mística que popularizou a artista convidem o testemunha a repensar seu olhar para o mundo.

Essa teoria, que inclusive embaralha as concepções entre o material e o transcendental, reaparece em outras escolhas. É o caso das colagens de Caio Reisewitz, que partem de uma antiga mito da região, segundo a qual um padre viu uma catarata dentro de uma igreja próxima ao ViaFoto.

Com isso em mente, Reisewitz expõe o retrato de uma queda d’chuva, imagem base para as colagens que espalha por paredes da galeria. Nascem daí miscelâneas de folhas, vegetalidade e outras espécies vegetais, que reúnem fotos verdadeiras para dar origem a contornos que flertam com a imaginação.

“Ele fotografou a lajeada dos periferia, sobrepôs imagens para produzir um fundo, uma espécie de contexto geográfico, e fez essas colagens delicadas ao produzir formas livres e tridimensionais”, diz Villela ao comentar as pequenas colagens emolduradas. É uma forma de simbolizar camadas que se amontoaram pela história do largo.

As fotografias de Marcela Novaes e Gui Christ —nomes em subida no meio—, por outro lado, jogam luz sobre heranças culturais que caracterizam a rossio. As da primeira, moradora de Paraisópolis, imprimem cenas vibrantes com tons de neon, paredões de bailes funk e festões abarrotados da comunidade.

As do segundo registram manifestações da umbanda —com recta a trajes e utensílios típicos da religião de matriz africana, bonecos e uma penosa— e reivindicam o largo da Batata uma vez que espaço de encontro entre crenças.

O divino também aparece nas lentes de Cristiano Mascaro, reconhecido pela forma uma vez que preserva os ângulos, as texturas e as dimensões da arquitetura. Suas fotos contrapõem estruturas que beiram a devastação com símbolos religiosos presentes no interno de igrejas.

“Temos cá uma relação entre o sagrado e o secular, em permanente transformação. É um encontro entre exteriores e interiores que propõe um tipo de mistura entre tempos diferentes”, afirma o curador. Gerações distintas também se encontram na relação entre os trabalhos de João Farkas e de Wendy Andrade, que centralizam corpos negros e refletem as raízes raciais do Brasil.

Nem por isso, entretanto, o largo da Batata deixa de estar presente uma vez que objeto direto das imagens selecionadas. Entre outros projetos, a série proposta por Luiza Sigulem labareda a atenção por sua bagagem pessoal.

Vítima de um acidente que a colocou numa cadeira de rodas, ela retrata pessoas, sempre sentadas, em diferentes pontos do largo. Villela explica que a teoria era propor não só o deslocamento para aquele espaço, uma vez que também que o olhar dos modelos se deslocasse para a profundidade com a qual a fotógrafa teve de se habituar.

Ao final dos corredores, que elencam formas objetivas e metafísicas de se repensar o espaço, uma retrato de Bob Wolfenson convida o público a retornar à verdade que o aguarda na saída. “É uma foto que mostra a multiplicidade da cidade, a imensa variedade de figuras que se reúnem num mesmo lugar.”

Folha

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