Uma estrutura rosa, tenro e enxurro de dobras se ergue sobre um pequeno pedestal. Envolta em pelúcia, a superfície atiça o libido tátil, enquanto a forma gira em torno de si mesma.
Premissas uma vez que o apelo tátil e as formas moles, fluidas e informes —presentes na obra “Inhaços”, de Jessica Costa— atravessam a expografia e outros trabalhos da exposição “Inconformadas”, na Galeria Claraboia, na zona oeste de São Paulo.
Ao reunir superfícies instáveis e volumes que recusam a rigidez geométrica, a mostra questiona leituras críticas que associaram a fluidez à fragilidade e propõe outra chave para pensar a forma na arte brasileira produzida por artistas mulheres.
Idealizada pela curadora Ana Avelar, a mostra resulta de uma investigação de longo prazo sobre a arte abstrata feita por mulheres no Brasil, sobretudo a partir de meados do século 20. O projeto foi concebido há muro de cinco anos, mas se apoia em mais de duas décadas de pesquisa da curadora sobre abstração moderna e contemporânea.
Ao revisitar textos críticos do período, Avelar identificou um padrão recorrente —artistas que trabalhavam com formas fluidas ou não geométricas eram descritas uma vez que “delicadas”, “frágeis” ou “maternais”, numa leitura que confundia a obra com uma suposta núcleo feminina. “Essas categorias apareciam quase sempre uma vez que desqualificação, nunca uma vez que potência”, afirma.
Críticas de nomes centrais do modernismo brasiliano, uma vez que Mário Pedrosa, sustentam essa hipótese. Segundo Avelar, enquanto artistas uma vez que Maria Leontina ou Fayga Ostrower eram associadas à imaturidade ou à maternidade, pintores homens que exploravam a gestualidade e a fluidez —caso de Iberê Camargo— eram lidos uma vez que viris e intelectualmente densos, ainda que operassem em campos formais semelhantes.
A exposição se constrói a partir dessa assimetria. Reúne artistas históricas, uma vez que Maria Polo, Yolanda Mohalyi e Maria Leontina, a nomes contemporâneos uma vez que Jessica Costa, Paula Jochen, Flávia Ventura e Elle de Bernardini.
O eixo generalidade é a recorrência do que Avelar labareda de formas moles —volumes abertos, contornos instáveis e uma recusa da rigidez geométrica.
Essa escolha formal não é tratada uma vez que estilo, mas uma vez que campo simbólico. Segundo a curadora, quando essas formas aparecem na produção de mulheres, são historicamente associadas ao corpo —útero, vulva, vísceras— e carregadas de sentidos negativos. “O mesmo não acontece quando artistas homens trabalham com a fluidez”, diz.
Nesse ponto, “Inconformadas” tensiona leituras consagradas da sátira brasileira, uma vez que a noção de “forma difícil”, formulada por Rodrigo Naves para pensar a instabilidade da forma na arte moderna do país. Embora reconheça a prestígio do diagnóstico, Avelar se distancia dessa tradução. Para ela, a fluidez não indica nequice ou incapacidade de assimilação dos discursos modernos, mas uma escolha estética e histórica.
“Não acredito que a forma brasileira não se estabeleça. O capitalismo se estabeleceu cá. O que não se consolidou foi uma distribuição justa”, afirma. A instabilidade formal, nesse sentido, não seria sinal de incompletude, mas resposta a uma experiência social marcada pela colonização, pela exploração e pelo sincretismo cultural. “Há muitas formas brasileiras, assim uma vez que há muitas identidades brasileiras.”
A mostra amplia o debate ao incluir técnicas tradicionalmente relegadas ao campo das chamadas manualidades, uma vez que o têxtil e a cerâmica. Trabalhos de Lídia Lisboa, Cláudia Lara e Paula Jochen evidenciam uma vez que materiais flexíveis enfrentam um duplo preconceito: por serem associados ao feminino e por ocuparem um lugar secundário na jerarquia das artes visuais.
Avelar labareda atenção para o indumentária de que essas técnicas, muitas vezes transmitidas entre gerações, sempre desempenharam papel social e político relevante, ainda que desvalorizado pela historiografia da arte. “O bordado, por exemplo, foi durante séculos um espaço de troca, de elaboração coletiva e até de organização política entre mulheres, mas sempre visto uma vez que um pouco menor”, afirma.
O projeto também questiona a teoria de que a abstração seria neutra ou destituída de teor —noção difundida pela sátira modernista. Para Avelar, toda abstração carrega sentidos culturais, simbólicos e afetivos, ainda que não literais.
Essa leitura se materializa em obras uma vez que as pinturas de Flávia Ventura, que abordam relações afetivas e de gênero por meio de campos cromáticos instáveis, ou nas cerâmicas de Paula Jochen, que evocam organismos e formas biológicas.
A expografia, assinada por Alberto e Bruna Sperling, reforça esse oração ao transformar a galeria em um espaço macio e hospitaleiro, em contraste com a tradição dos ambientes expositivos rígidos. “Queria um lugar de afeto, não de contenção”, diz a curadora.
O título da mostra sintetiza essa postura. “Inconformadas” remete tanto às formas que não se fixam quanto às artistas que recusam se moldar a expectativas normativas. Mais do que oposição frontal, trata-se de deslocamento. “É uma forma de subsistir de lado, com flexibilidade, com ginga —um pouco que também diz muito sobre a experiência brasileira”, afirma.
Ao reunir gerações distintas e obras de naturezas diversas, “Inconformadas” propõe uma revisão sátira da história da abstração no país, apontando lacunas e leituras enviesadas. “Ainda sabemos muito pouco sobre várias dessas artistas. Em alguns casos, nem sabemos onde estão suas obras”, afirma Avelar.
Nesse sentido, a exposição funciona também uma vez que gesto historiográfico: uma tentativa de reinscrever essas produções num campo que, por muito tempo, lhes foi hostil —e de declarar que as formas moles podem sustentar tensões centrais da arte brasileira.
