Quando Leon Hirszman realizou seu último longa de ficção, “Eles Não Usam Black-Tie”, em 1981, o diretor sul-coreano Park Kwang-su realizou seu primeiro curta universitário, “A Ilhota”, com um grupo de aventureiros engajados.
A verificação entre os cineastas não é gratuita. Foi sugerida pela Cinemateca Brasileira, na mostra que promove, a partir desta quinta (19), com sessões complementares entre os filmes desses dois diretores.
O cinema sul-coreano entrou definitivamente na tendência desde o surpreendente Oscar de melhor filme para o longa de Bong Joon-ho, “Verme”, na cerimônia de 2020. O brasílico também está na crista da vaga, com as representações em festivais e as indicações para o Oscar de “Ainda Estou Cá” e “O Agente Secreto”.
Fazer aproximações entre as duas cinematografias, por meio de dois de seus mais importantes diretores, é um treino de cinefilia salutar, mesmo que algumas aproximações soem forçadas. O pretexto para ver os filmes e estudá-los em contraposição a outros é sempre válido.
Em 1981, Hirszman procurava sobreviver a uma espécie de encruzilhada, com um primícias de decadência da Embrafilme e uma inflação que ameaçava o porvir do cinema brasílico.
O cinema coreano, por outro lado, estava prestes a iniciar sua segunda era de ouro, retomando a força que tinha nos anos 1960. Os dois cineastas de ponta desse novo estouro eram Im Kwon Taek, que muitos consideram o maior cineasta coreano de todos os tempos, e Park Kwang-su, tido porquê um dos mais engajados.
É verosímil manifestar que o sul-coreano se tornou um continuador distante e inconsciente do brasílico, mesmo trabalhando em contextos muito distintos.
As carreiras de Hirszman e Kwang-su têm similaridades e paralelismos. Um deles é o pendor para o realismo social, cujas manifestações refletem as diferenças de estilo e momentos de suas lutas.
O primeiro longa de Kwang-su é “Chilsu e Mansu”, de 1988. Vemos uma amizade forjada a fórceps, porque Chilsu é persistente e, ao mesmo tempo, persuasivo. É assim também com a garçonete pela qual se apaixona. Há uma inocência nele que, depois de percebida, desarma as pessoas, possibilitando uma aproximação.
Mansu é um talentoso pintor de outdoors, raramente reconhecido em sua profissão. Chilsu insiste para ser seu assistente. Tudo com Chilsu funciona na base da insistência.
Mas o que começa porquê uma comédia vai se tornando um drama duro conforme a situação econômica de ambos os põe em situações de desespero e escolhas equivocadas. Até a bicicleta dupla que dividem os derruba. O desespero é tanto que a comédia retorna, inesperadamente.
Chilsu força a amizade chamando Mansu de irmão mais velho. Mas essa intimidade intrusiva aproxima oriente filme do clássico drama realista “Projéctil Sem Rumo”, de 1961, no qual dois irmãos lutam para sobreviver em uma Seul hostil e empobrecida, anterior ao milagre econômico do transcursão daquela dez.
“Chilsu e Mansu” é um dos melhores filmes coreanos dos últimos 40 anos. E os outros filmes de Park Kwang-su são no mínimo dignos, por vezes muito bons. Quem os procurar será recompensado de alguma forma.
Há, por exemplo, a politização intensa e a fúria trabalhista de “Eles Também São Uma vez que Nós”, de 1990, provavelmente o filme mais feroz do diretor, por seguir um ativista político homiziado e a tomada de consciência dos operários de uma fábrica.
Ou as memórias traumáticas de “Quero Ir Àquela Ilhota”, de 1993, com o varão que viaja a uma ilhota distante para enterrar seu pai, mas enfrenta a resistência dos habitantes e de quem está enterrado lá. Muitos morreram na Guerra da Coreia, entre 1950 e 1953.
Ou ainda a ramificação entre preto e branco e cores de “O Inacreditável Jovem Jeon Tae-il”, de 1995. Era já uma alternância batida, assim porquê as passagens de um tempo para o outro.
A questão é que graças à direção e à montagem, a estratégia tem força. Seja pelo contraste entre a revolta e a curiosidade, seja pela verso do olhar para uma outra era em duas etapas: final dos anos 1960, quando Jeon protestava contra as más condições de trabalho, culminando em uma tragédia ocorrida em novembro de 1970; e 1975, quando um jornalista faz sua pesquisa sobre Jeon, sendo também perseguido.
Completando o lado coreano da mostra, além de dois curtas iniciais de Park Kwang-su, temos a surpreendente mudança de graduação de “A Rebelião”, de 1999, um filme pouco percebido, que deve ser reavaliado, nem que seja pelas belas imagens da ilhota.
Do lado brasílico, Leon Hirszman é um velho publicado do cinéfilo brasílico. O novo público talvez não o conheça muito, embora seus filmes tenham pipocado por todos os lados.
É justo que seja assim. Quem começou agora a amar o cinema, deve aproveitar e ver seus filmes. Quem já os viu, deve rever. É um cineasta incontornável do chamado cinema novo e além.
Os filmes de Hirszman que mais se alinham ao tema da mostra são “ABC da Greve”, de 1979, e “Eles Não Usam Black-Tie”, embora “A Falecida”, de 1965, e “São Bernardo”, de 1972, não estejam inadequados. Ambos contêm sátira social em doses generosas, e “São Bernardo” é um dos maiores filmes brasileiros de todos os tempos.
Mais vasqueiro que esses, e também imperdível, pela qualidade de suas imagens e por flagrar um contexto privativo da cultura brasileira, é “Pequena de Ipanema”, de 1967. Perto dos outros, chega a ser um divertimento, ainda que tenha sua fagulha de sátira, geralmente nas entrelinhas.
É verosímil fazer várias associações entre o cinema de um e de outro. O mais interessante é que cada testemunha pode fazer as suas, e juntar um filme dissemelhante de cada numa sessão dupla imaginária, além daquelas promovidas pelo calendário da mostra.
