O sobrenome e o sotaque deixavam simples para os brasileiros que o arquiteto e designer Jorge Zalszupin tinha origem estrangeira. Mas, na Polônia, onde nasceu, seu nome e sua curso consagrada, principalmente pelo papel que teve na evolução do mobiliário brasiliano a partir dos anos 1960, são quase desconhecidos, mesmo entre quem trabalha na dimensão.
Nascido em 1922 em uma família judia, Jerzy Zalszupin era jovem quando deixou Varsóvia para fugir do Sacrifício. Depois estudar arquitetura na Romênia e trabalhar brevemente na França, chegou ao Brasil em 1949. Fincou raízes em São Paulo, onde virou Jorge, se naturalizou brasiliano, casou, teve duas filhas e criou dezenas de móveis e projetos de arquitetura. Zalszupin morreu na capital paulista em 2020, aos 98 anos.
Cinco anos depois, seu nome está de volta ao país natal, na exposição “Warsaw – São Paulo – Warsaw”, em edital até leste domingo (19), em Varsóvia. Em um casarão dos anos 1920, a mostra reúne 34 peças do designer, além de desenhos e fotos de projetos, espalhados por oito salas. A organização é da Instalação Visteria, que promove internacionalmente o design e a arte da Polônia, com colaboração da brasileira Etel, operário dos móveis de Zalszupin.
É a primeira mostra dedicada a ele no país, e o objetivo é apresentar tanto sua produção quanto segmento de sua vida aos europeus. Dados biográficos, fotos de família e documentos, porquê seu pedido de naturalização ao governo brasiliano, também são exibidos. Ao volta dos seus móveis, textos explicam o cenário e os materiais que Zalszupin encontrou no Brasil. Sua autobiografia, “De * pra Lua” (ed. Olhares, 2014), acaba de ser publicada em polonês.
“Estudei arquitetura e urbanismo na Polônia e nunca tinha ouvido falar nele”, diz a arquiteta de interiores Maria Murawsky, uma das curadoras da mostra. O primeiro contato com sua obra foi há muro de dez anos, quando, em procura de um carrinho de chá para um de seus projetos, viu na internet a imagem da peça mais célebre de Zalszupin.
“Fiquei impressionada pela quantidade de histórias que o carrinho conta: essas grandes rodas de latão, a madeira curvada, a bandeja com detalhes, a alça minimalista com o rodízio”, diz Murawsky, que passou a pesquisar sobre o responsável e descobriu sua origem polonesa.
Criado em 1959, o carrinho de chá é a única peça que faz referência direta à memória polonesa de Zalszupin, que afirmou ter se inspirado em carrinhos de bebê que circulavam por Varsóvia quando ele ainda vivia no país. Do mesmo ano, estão outros dois móveis icônicos: a poltrona Dinamarquesa, inspirada na arquitetura de Oscar Niemeyer para Brasília e no design escandinavo, e a mesa de meio Pétalas, com sua madeira curvada.
Tirando alguma inspiração escandinava, Zalszupin desenvolveu um design 100% brasiliano, sem conexão com a produção do pós-guerra de seu país-natal. “Nosso modernismo definitivamente não foi tão vibrante porquê no Brasil. Foi mais fundamentado na forma e na funcionalidade, sem espaço para fantasia”, diz Murawsky.
Lissa Carmona, cocuradora da mostra e CEO da Etel, manteve contato frequente com o designer durante sua colaboração com a marca, entre o término dos anos 1990 até sua morte, e vê o racionalismo porquê um traço de sua origem europeia. “Ele veio com uma estética completamente revolucionária, com a madeira folhada, prensada. Era sempre um tirar e o treino de reduzir. Para a gente, foi uma grande mudança, trazendo outras técnicas”, diz.
Foi Carmona que idealizou a conversão da residência da família, em São Paulo, na Lar Zalszupin, um misto de museu e galeria, que hoje recebe exposições. Na mostra em Varsóvia, imagens e desenhos do projeto, construído por Zalszupin em 1962, ganharam destaque e foram inspiração para a cenografia com vegetação tropicais, em referência à vegetação presente na lar.
Também a história da fábrica L’Atelier é contada aos poloneses, com alguns dos objetos fabricados e os coloridos cartazes da idade. Ensejo por Zalszupin em 1960 no Conjunto Vernáculo, na avenida Paulista, a loja surgiu da premência de preencher os interiores das novas casas e edifícios, diante da carência de móveis que dialogassem com os traços modernos.
No catálogo, itens porquê as poltronas Brasiliana e Presidencial, a cadeira Itamarati e as mesas Chanceler indicam a relação com a capital Brasília e a colaboração com Niemeyer. Além da madeira, Zalszupin explorou no L’Atelier o plástico, em meio ao desenvolvimento industrial no país. Em 1968, passou a fabricar a cadeira Hille, do designer britânico Robin Day, que virou um fenômeno.
Ao completar 90 anos, em 2012, Zalszupin foi convicto pela família a visitar Varsóvia pela primeira vez desde o término da Segunda Guerra. Era para ser um presente de natalício, mas se transformou em uma experiência muito menos festiva, pelas lembranças da fuga e da mãe, que não seguiu com eles para a Romênia e acabou morta pelos nazistas.
“Ele achava que todo mundo era antissemita e não quis nem trespassar da van para ser fotografado em frente ao prédio em que havia morado”, diz a filha Verônica.
Se Zalszupin tinha o libido de ser reconhecido em seu país natal, isso nunca ficou simples para quem o acompanhava. “Acho que ele nunca imaginou isso”, diz Marina, a segunda filha. “Não acho que fosse um libido dele, mas no íntimo imagino que fosse um sonho. Seria alguma coisa que o deixaria feliz, porquê completar um ciclo”, afirma Carmona.
A jornalista viajou a invitação da Instalação Visteria
