Um canteiro tapado por terreno e por folhas não está onde deveria. Ele não só ocupa a sala de uma galeria, porquê tampouco se encontra sobre o solo. Cultivada pelo artista C.L. Salvaro, a obra flutua num salão da Nara Roesler, em São Paulo, e obriga quem passa a se desviar para que possa acessar outros espaços.
A relação incomum que a peça estabelece com os visitantes, afirma a curadora Ana Carolina Ralston, é justamente o cerne da exposição “Telúricos”, em papeleta até março.
A teoria é relembrar que as forças naturais antecedem as intervenções humanas. Seja pelas inquietações do planeta pintadas por Felipe Góes, com tonalidades quentes que flertam com a lava vulcânica, seja nas percepções auditivas do meio envolvente, porquê o quartzo que interfere nas ondas sonoras de uma caixa de música.
“O varão pensa que domina a Terreno, mas é ela que nos comanda. Somos forçados a nos ajustar aos movimentos que ela propõe”, afirma Ralston, que estudou as relações entre a natureza e as tecnologias desenvolvidas ao longo do tempo. “As placas tectônicas [blocos que compõem a crosta terrestre e se deslocam], por exemplo, conduzem uma dança eterna que determina quais espaços podemos habitar.”
Além de desafiar essa jerarquia humanista, o evento subverte, diz a curadora, o ocularcentrismo, filosofia que entende a visão porquê principal manadeira de conhecimento e leitura da verdade. Os quadros olfativos de Karola Braga, em que a artista aplica cera para fixar resinas aromáticas de variados tipos, demonstram esse tirocínio.
Visualmente, o resultado lembra um mineral fragmentado, porquê se partículas saltassem de dentro para fora. É o cheiro, porém, que atrai visitantes e, segundo Ralston, invoca sensações distantes e até práticas culturais. É um efeito parecido com o de “Perfumare”, também de Braga. A obra preenche a vitrine da galeria com fumaça perfumada, emitida por um tipo de invólucro dourada e com visual futurista.
Novamente, aponta a curadora, o objetivo é espelhar as manifestações do interno que fazem o mundo pulsar. “Funciona porquê uma válvula de escape, que todos temos. Por vezes, para que possamos atingir o estabilidade, é necessário entrar em erupção.”
Essa mesma teoria de estabilidade determina, mesmo que de outro modo, o trabalho da artista Kuenan Mayu, que transpõe bagagens dos povos indígenas tikúna e tariana para seus desenhos. Neles, materiais porquê a barro e pigmentos de sementes são inscritos sobre cascas de árvores típicas da Amazônia.
Nessa superfície, as misturas vegetais dão origem a animais também transmorfos —criaturas que sobrepõem caudas de serpentes, caules que brotam do solo e cabeças humanas. É mais uma evidência das transformações constantes da natureza.
Raciocínio semelhante, agora no projecto tridimensional, concebe “As Duas”, estátua da ex-enfermeira Amorí que entrelaça fios de ferro, enrola tiras coloridas, de epiderme e de algodão, ao volta das linhas resultantes e dá vida a um objeto mutante. O ser que surge desse enredado traz diversos pontos de contato com o solo, diversas extremidades que apontam para o teto e, de maneira universal, um turbilhão de contornos que parece não ter término.
Ao volta desse corpo improvável, bordados do manauara Alessandro Fracta costuram rabos de peixe e outros símbolos ribeirinhos, e amuletos rochosos esculpidos por Salvaro, com falhas e ranhuras, sugerem sabedorias de outros tempos. Por perto, uma pintura de Amorí reúne raízes, grama e outros produtos da terreno sob um firmamento turvo, com nuvens indefinidas.
Enquanto repertórios porquê os de Amorí e Mayu tensionam elementos distintos em um único suporte, “Telúricos” também cria oposições físicas entre peças de autores diferentes. É o caso de “Moon”, esfera branca do suíço Not Vital, de ar precisamente descrita pelo título, e dos “Organóides” da paulistana Lia Chaia.
A primeira obra recorre a sete toneladas de mármore ao simbolizar um planeta espacial, enquanto a segunda converte fibras de madeira em ilustrações de órgãos, vísceras e outros itens do organização humano.
O resultado, diz Ralston, é um jogo entre a densidade celestial e a leveza de corpos humanos. Junto de uma retrato de Isaac Julien, em que o artista britânico equipara uma mulher à magnitude de geleiras da Antártida, a relação entre as duas obras reforça a pequenez do varão perante a imensidão do mundo. “As geleiras sofrem transformações pequenas, mas precisamos nos lembrar que esse processo resulta em mudanças colossais”, afirma a curadora, em referência aos efeitos do aquecimento global.
Noutro galeria, em uma extensão mais escura da galeria, dois conjuntos de lâmpadas neon simulam estrelas e iluminam o espaço com azuis vibrantes. “As constelações só existem porque o varão decidiu classificá-las dessa forma”, afirma Ralston, ao falar sobre a curiosidade que leva a humanidade a investigar objetos além do alcance.
Na nossa espécie, inclusive, ela pontua que tais motivadores não estão restritos a jovens porquê Mayu e Amorí. Por isso, “Telúricos” também reúne veteranos das artes plásticas. Nesse sentido, o britânico Richard Long, expoente da land art —movimento que faz das paisagens a sua matéria-prima—, usa tinta preta para produzir padrões e ressignificar imperfeições em madeira, e ametistas de Amélia Toledo encaram um espelho que as reproduz infinitamente.
Entre quadros, esculturas e outros experimentos, um vídeo de Brígida Baltar é quase uma síntese da exposição. Nele, a artista enterra fotografias, roupas, livros e outros vestígios da existência humana. Ao cavar camadas cada vez mais profundas, ela atravessa o tempo e constrói um repositório de memórias, talhado a retornar à superfície.
“Quando enterramos lembranças, estamos ressignificando esses objetos”, diz Ralston. “Eles se transformam em vegetação e ganham uma outra vida.”
