Mulheres negras são maioria das vítimas de feminicídio no país

Mulheres negras são maioria das vítimas de feminicídio no país

Brasil

As mulheres negras são maioria entre as vítimas de feminicídio em todo o país.

Uma estudo dos 5.729 registros oficiais desse tipo de delito, ocorridos de 2021 a 2024, mostrou que 62,6% das vítimas eram negras, enquanto 36,8% eram brancas. Mulheres indígenas e amarelas somam, cada grupo, 0,3% dos registros. A desenlace é do levantamento do Fórum Brasílico de Segurança Pública (FBSP), divulgado nesta quarta-feira (4).

A entidade avalia que, diante desses resultados, o feminicídio não pode ser entendido uma vez que uma violência de gênero isolada de outras questões estruturais da sociedade, uma vez que a desigualdade racial.

Para a diretora executiva do FBSP, Samira Bueno, a sobrerrepresentação de mulheres negras entre as vítimas de feminicídio evidencia a extrema vulnerabilidade dessa parcela da população.

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O perfil das vítimas e as circunstâncias dos crimes identificados no levantamento revelam ainda que a violência mortal contra mulheres no país é, majoritariamente, uma violência de proximidade física, emocional e relacional.

“Trata-se de uma violência que se desenvolve no espaço privado, muitas vezes ao longo do tempo, e que poderia ser interrompida antes de compreender seu desfecho irremissível, desde que haja condições institucionais para isso”, concluiu o relatório do FBSP.

O feminicídio atinge majoritariamente mulheres adultas: metade das vítimas tinha entre 30 e 49 anos, o que corresponde a mulheres em idade produtiva e reprodutiva, e muitas vezes responsáveis pelo sustento da família e pelo zelo de filhos e outros dependentes.

Vínculo afetivo

Em relação aos agressores, 59,4% são companheiros, 21,3% são ex-companheiros e 10,2% são outros familiares.

Os dados demonstram que de cada dez feminicídios oito foram praticados por homens que mantinham ou já tinham mantido vínculos afetivos íntimos com a vítima. Unicamente 4,9% foram mortas por desconhecidos e 4,2% por outras pessoas conhecidas.

Segundo o Fórum, o feminicídio expressa uma assimetria de gênero sistemática: homens matando mulheres com quem mantêm ou mantiveram vínculos íntimos, em contextos nos quais a autonomia feminina é percebida uma vez que prenúncio à domínio masculina.

Ainda no período de 2021 a 2024, constatou-se que 97,3% dos casos de feminicídio foram cometidos exclusivamente por homens.

“A quase exclusividade masculina na autoria indica que estamos diante de uma forma de violência vinculada a padrões de masculinidade que associam poder, controle e posse à identidade masculina”, avalia a entidade. 

Envolvente doméstico

Em relação ao lugar do delito, 66,3% dos casos aconteceram na residência da vítima.

“A centralidade da residência uma vez que cenário do delito é mais um elemento que mostra que estamos diante de uma violência enraizada no cotidiano doméstico, no interno de relações afetivas e familiares”, indicou o Fórum.

A via pública aparece em segundo lugar, com 19,2% dos registros desse tipo de delito, enquanto estabelecimentos comerciais ou financeiros (3,4%), áreas ruais (2,2%), sítios e fazendas (2,%), muito uma vez que hospitais (1,4%), representam percentuais significativamente menores.

Outrossim, 48,7% das vítimas foram mortas por arma branca e 25,2% por arma de queimação. O soberania da arma branca sugere situações de confronto direto, em envolvente doméstico, com instrumentos disponíveis naquele espaço. A presença significativa de armas de queimação indica que sua disponibilidade potencializa a mortalidade de conflitos íntimos.

A entidade reforça que a violência com desfecho irremissível não surge sem sinais prévios. Em universal, há histórico e escalada nas agressões.

“Quando o feminicídio ocorre, ele expõe não exclusivamente a ação do responsável, mas também, e talvez principalmente, as falhas acumuladas na capacidade de prevenção, proteção e resposta do Estado e da sociedade.”

Pequenos municípios

O levantamento, que analisou ainda a distribuição dos feminicídios ocorridos no ano de 2024, identificou que as cidades pequenas, de até 100 milénio habitantes, concentram 50% desses crimes no país. Esses mesmos municípios abrigam 41% da população feminina. 

“Justamente nessas cidades, a gente não tem uma infraestrutura do estado, unidades especializadas para fazer o atendimento dessa mulher”, avalia a diretora do FBSP. 

Entre as cidades pequenas, exclusivamente 5% têm delegacia da mulher e 3% têm lar abrigo, que é o equipamento para a mulher que está numa situação de risco muito saliente. 

As cidades médias que têm entre 100 milénio e 500 milénio habitantes concentram 25% das vítimas de feminicídios. Em 81% dessas cidades, há delegacia da mulher e, em 40%, lar abrigo.

Em relação às cidades grandes, com mais de 500 milénio habitantes, 98% tem delegacia da mulher, 73% tem lar abrigo e concentram 25% dos feminicídios.

Políticas públicas

Segundo Samira, o enfrentamento à violência contra a mulher passa pela descentralização das políticas públicas. Ela destaca que a Lei Maria da Penha é importante e muito reconhecida, inclusive internacionalmente, no contexto de combate a esse tipo de violência. No entanto, há uma desigualdade territorial na oferta de serviços e na institucionalização das políticas para as mulheres.

“A gente tem uma boa legislação, tem equipamentos e unidades especializadas de referência em muitos lugares, a gente sabe uma vez que eles precisam funcionar para o adequado protecção à mulher. Uma vez que é que a gente vai fazer para de trajo dar capilaridade para a política?”, questiona Samira.

Diante de dificuldades orçamentárias, o FBSP aponta soluções que não dependem, necessariamente, da geração de novos equipamentos físicos, mas da capacidade de integrar serviços já existentes, estabelecer protocolos claros de atuação e atribuir responsabilidades concretas a cada instituição envolvida.

“É provável mobilizar equipamentos que já existem e estão presentes na maioria dos municípios de pequeno porte, uma vez que Unidades Básicas de Saúde, delegacias não especializadas e centros de assistência social, para que integrem de forma estruturada a rede de atendimento às mulheres em situação de violência doméstica”, diz o relatório da entidade.

 

Fonte EBC

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