Música nacional rodou o mundo e chegou até Stevie Wonder

Música nacional rodou o mundo e chegou até Stevie Wonder – 08/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

No final de setembro, o cantor e compositor Antônio Carlos Pinto, da dupla Antônio Carlos & Jocafi, recebeu em seu apartamento no Rio de Janeiro um pedido privativo da produção do Grammy Latino. A cantora cubano-estadunidense Celia Cruz (1925-2003) teve seu centenário de promanação lembrado na entrega do prêmio em Las Vegas, nos Estados Unidos, em 13 de novembro.

Em 1977, Celia gravou em dueto com Willie Colon a salsa “Usted Abusó”, versão de “Você Abusou” (1970), da dupla soteropolitana. “Uma vez que Celia tinha um paixão pela gente fora de conta, eles pediram um testemunho meu e de Jocafi para perfurar a cerimônia do Grammy”, diz Antônio Carlos.

Com o parceiro inepto de participar da gravação, Antônio Carlos gravou sozinho a mensagem. “Você Abusou” teve centenas de versões ao volta do mundo, da Argentina ao Sri Lanka.

Além de Celia Cruz, a música foi gravada por Ella Fitzgerald, Sérgio Mendes, Serge Gainsbourg, Vinicius de Moraes, Toquinho, Maria Creuza, Maysa, Jorge Aragão, MPB-4, Sivuca, Pauline Croze, Daniela Mercury e Diogo Nogueira, entre muitos outros nomes celebrados da música vernáculo e internacional.

Também foi cantarolada por Stevie Wonder em um show com participação de Gilberto Gil no Rock in Rio 2011, com coro de milhares de pessoas.

“Você Abusou” exibe simetria sofisticada, na qual a risco de grave (sequência de notas tocadas pelo instrumento grave, normalmente o contrabaixo) ajuda a fabricar um efeito de gula lamento.

Em uma estação de canções-manifesto destinadas a um público jovem cada vez mais intelectualizado, a letra despojada ria da própria simplicidade: “Você abusou/ Tirou partido de mim, abusou/ Tirou partido de mim, abusou/ Tirou partido de mim, abusou/ Mas não faz mal/ É tão normal ter desamor/ É tão cafona tolerar dor”

“Foi a nossa única parceria em que a música é 100% de Jocafi, e a letra, 100% minha”, afirmou Antônio Carlos, ao lado do parceiro, em entrevista por videoconferência à BBC News Brasil em 21 de outubro.

Normalmente, a dupla cria letra e música de maneira colaborativa, sem preocupação com a separação rígida de papéis. Na estação, a primeira reação de Jocafi aos versos escritos pelo colega foi negativa.

“Eu disse: ‘É uma melodia tão formosa, e você está botando essas coisas de que é tão cafona tolerar dor'”, relembra Jocafi. Foi o multiartista Edy Star, colega dos dois, que convenceu o compositor a mudar de teoria.

“Ele disse: ‘Jocafi, isso aí é a coisa mais moderna que eu já vi, ninguém faz letra dessa forma'”, recorda-se o músico, que acabou se rendendo aos versos do parceiro.

A cantiga mais famosa de Antônio Carlos & Jocafi soma-se a uma robusta produção da dupla, que inclui 16 discos, dezenas de prêmios em festivais, trilhas sonoras para TV e cinema, shows e turnês por todo o mundo —e nenhum sinal de aposentadoria à vista.

Suas canções já foram interpretadas por Orlando Silva (“Desespero”), Luiz Gonzaga (“Chuculatera, Cordel”), Alcione (“Jesuíno Galo Doido”), Emílio Santiago (“Recado”), Marcelo D2 (“Qual é?”, releitura de “Kabaluerê”) e BaianaSystem (“Chuva, Miçanga”), entre muitos outros.

Com 80 anos recém-completos, Antônio Carlos comemora também nascente ano o 54º natalício de “Mudei de Teoria” (1971). Foi o primeiro álbum com Jocafi, que fará 81 anos em 21 de dezembro.

A seguir, alguns momentos marcantes da vida e da obra dos baianos, cultuados por quatro gerações de fãs.

Origem músico

Antônio Carlos Marques Pinto conta que cresceu junto com a música. “Meu avô tocava. Antigamente, na mansão de todo mundo na Bahia havia um piano, era normal. Minha mãe tocava um pouquinho de piano. Geralmente, também tinha concertina e violão”, relata o artista.

O pai do compositor cultivava uma tradição. “Todo sábado, trazia para mansão um disco 78 rotações com canções de Francisco Alves, Orlando Silva, Nelson Gonçalves”. Antônio Carlos cresceu no bairro Garcia, em uma mansão vizinha à de Carmen Oliveira da Silva, filha da mãe de santo Menininha do Gantois.

Carmen sucedeu a mãe em 2002, assumindo uma vez que Mãe Carmem do Gantois. “O batuque, pa-tá-tim-tum-tum-tum-pá-tá, chega ao ouvido da petiz que acaba de nascer, e antes de falar ‘mamãe’, todo mundo já sabe fazer ijexá [ritmo de origem africana bastante presente na Bahia]”, diverte-se Antônio Carlos.

Criado no bairro Cosme de Farias, Jocafi lembra de outra influência geral aos dois parceiros: o rádio. “Meu pai era um garçom do município de Bonfim, mas conseguiu juntar moeda para comprar um aparelho de rádio”, diz.

“A Rádio Vernáculo foi a grande mentora de todos os compositores de nossa geração.” Outra presença manente nos anos 1950 nas ruas de Salvador e de outras cidades brasileiras eram os serviços de alto-falante, que transmitiam músicas, notícias e recados.

“Quando a gente estava jogando globo na rua, ouvia [pelos alto-falantes] todos os cantores e compositores famosos da estação, uma vez que Luiz Gonzaga e Waldick Soriano, e também música erudita, Bach, Beethoven, Ravel…”, afirma Antônio Carlos.

“A plebe rude não tinha rádio, que era custoso, mas tinha alto-falante”, comenta Jocafi.

O encontro da dupla

Quando foi apresentado a Jocafi, Antônio Carlos já tinha participado, uma vez que cantor e compositor, de festivais na Bahia e do 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967, em São Paulo.

A cantiga selecionada para nascente festival, “Sarau no Terreiro de Alaketu”, foi interpretada no evento por Maria Creuza. No ano seguinte, a cantora e Antônio Carlos uniram-se em um enlace de quase duas décadas que deixou três filhos e um legado inestimável para a música brasileira por meio de discos, shows e turnês juntos.

Aos 81 anos, baiana de Esplanada e hoje radicada na Argentina, Maria Creuza é uma das maiores cantoras do Brasil, com repertório que inclui títulos de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Lupicínio Rodrigues, Nelson Cavaquinho, Chico Buarque e Roberto Carlos, entre outros.

Jocafi conta que era fã de Antônio Carlos desde o festival de 1967. Quem apresentou a dupla foi o pianista e compositor Carlos Lacerda (nenhum parentesco com o homônimo ex-governador do portanto Estado da Guanabara).

A oportunidade de parceria surgiu, porém, somente em 1968, por intermédio do poeta Ildásio Tavares, com quem ambos já tinham trabalhado. “Jocafi tinha a música do que viria a ser “Catendê” e queria que Ildásio colocasse letra. Acabou que fomos lá para mansão e aconteceram “Catendê, Mercado Padrão” e outras”, diz Antônio Carlos.

A primeira formação da dupla, “Catendê”, tinha dois coautores: Ildásio e Onias Camardelli. Em 1969, “Catendê” foi selecionada para o 5º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, registrada uma vez que formação somente de Jocafi, Ildásio Tavares e Onias Camardelli —segundo Antônio Carlos, na estação “era mal-parecido quatro parceiros assinarem uma música”.

A término de seguir os intérpretes Maria Creuza e Ruy Felipe à final do festival, a futura dupla viajou para São Paulo. “Ildásio Tavares era rebento de quinteiro, e Jocafi e eu, filhos de pobre. Ele pediu à mãe que nos emprestasse 1 milhão de cruzeiros para a viagem. Gastamos 500 milénio nas passagens e ficamos com 500 milénio para passar o resto da vida”, brinca Antônio Carlos.

“Catendê” acabou desclassificada por já ter concorrido em um festival regional. Depois de alguns meses na capital paulista, transferiram-se para o Rio de Janeiro. Ao ouvir Maria Creuza interpretar “Mirone”, de Aldir Blanc e César Costa Fruto, no 2º Festival Universitário de Música Popular Brasileira, realizado pela TV Tupi, Vinicius de Moraes insistiu em saber a cantora.

Em seguida, foi a vez de Creuza apresentar Antônio Carlos e Jocafi ao poeta. Em uma tarde de sábado, quando os três preparavam-se para ir à mansão de Vinicius no bairro da Gávea, o telefone tocou.

“Naquele tempo, usava-se telegrama da Western [telegrama fonado da companhia Western Union]. Eu atendi, e o rosto falou assim: ‘Sua mãe morreu. O enterro é amanhã'”, lembra Antônio Carlos.

Consternados, Creuza e Jocafi quiseram cancelar o compromisso, mas Antônio Carlos se recusou a fazê-lo. “A riqueza da minha mãe era que eu fosse cantor. Na última vez que ela me viu trovar na TV Itapoan, me disse: ‘Meu rebento, você cantou uma vez que um artista do Rio’.”

Na mansão de Vinicius, o trio encontrou, além do poeta, os compositores Tom Jobim e Dori Caymmi e o jornalista Nelson Motta, que mantinha uma pilastra diária na TV Mundo, exibida antes do Jornal Vernáculo.

“Na segunda-feira, Nelsinho Motta disse assim: ‘Olha, eu estive na mansão de Vinicius no sábado e conheci uma dupla de baianos chamada Antônio Carlos & Jocafi. Se eu fosse produtor, contrataria eles logo antes de todo mundo'”, recorda-se Jocafi.

Em poucas semanas, com a intermediação do produtor Rildo Hora, a dupla assinou contrato com a gravadora RCA Victor.

O primeiro álbum

Na estação, era de praxe que artistas estreantes lançassem um ou dois compactos (discos menores, com somente duas faixas, uma de cada lado) antes de produzir um álbum.

O primeiro compacto de Antônio Carlos & Jocafi pela RCA tinha um rock, “Roberto, Não Corra”, e “Por Culpa Dela”. A primeira filete era uma sátira a Roberto Carlos, que acabara de lançar “As Curvas da Estrada de Santos”.

“Ele [Roberto Carlos] é gente fina, mas não perdoa a gente até hoje”, diverte-se Jocafi. O apresentador Silvio Santos (1930-2024), que na estação comandava um programa de auditório dominical na TV Mundo, convidou-os para uma participação.

Amigos da dupla que trabalhavam na emissora alertaram que a real intenção do apresentador seria ridicularizá-los, em uma espécie de desagravo a Roberto Carlos. “Silvio Santos queria concluir com a gente”, deduz Antônio Carlos.

Semanas antes, o músico, jornalista e jurado José Fernandes quebrara o compacto da dupla diante das câmeras. Fernandes tinha reputação de rigoroso e não via com bons olhos a influência estrangeira, principalmente do rock e da guitarra elétrica, na música brasileira.

“Dizia: ‘Isso aí é um rock, é um rock!”. Os caras tinham uma teoria errada, porque era um rock muito muito feito”, ironiza Jocafi. A dupla compôs portanto uma cantiga satírica em forma de recado ao próprio Fernandes para ser apresentada antes de “Roberto, Não Corra”.

“Fomos aplaudidos de pé pelo Zé mesmo”, diz Antônio Carlos, rindo. A repercussão foi tão grande que o próprio diretor artístico da RCA Victor na estação, Alfredo Corletto, viajou de São Paulo ao Rio para saber os baianos.

Assim, surgiu em 1971 o primeiro álbum, “Mudei de Teoria”, que trazia “Você Abusou, Kabaluere, Conceição da Praia, Deus o Salve” e outras.

“Versão” francesa

Depois de uma turnê da dupla pela Europa, Maria Creuza alertou que Você Abusou fazia sucesso em uma versão francesa, “Fais Comme L’oiseau” (“Faça uma vez que o pássaro”), de Michel Fugain.

A versão de Fugain chegou a ser adotada uma vez que hino semioficial do Partido Socialista Gálico, do qual o cantor e compositor é simpatizante. O caso motivou uma ação judicial por plágio contra Fugain nos tribunais franceses.

A dupla brasileira acabou obtendo proveito de culpa, com ressarcimento financeiro e inserção de autoria em todos os registros da obra. “A RCA mobilizou advogados, e todo o moeda que iria para ele [Fugain] veio para nós”, lembra.

Mas Jocafi reconhece que Fugain é um “grande compositor” e fez uma letra “sensacional”. Antônio Carlos afirma que a versão francesa é mais famosa que a da dupla soteropolitana.

Até hoje, comentam os músicos, a maioria esmagadora do público na Europa crê que a cantiga foi composta por um galicismo. Em turnês internacionais, os baianos estão acostumados a ouvir o público trovar Você Abusou em galicismo ou espanhol —esta última na versão gravada por Celia Cruz.

“Celia fez uma leitura mais próxima da guaracha cubana [gênero musical]”, diz Jocafi. Mas, por fim, o que é que “Você Abusou” tem para emudecer tão fundo nos ouvidos e nas mentes de tantas audiências ao volta do mundo?

Os dois fornecem uma resposta simples: a cantiga é um samba de roda, gênero músico ilustre nascido no Recôncavo Baiano e cultivado por Dorival Caymmi, João Gilberto, Gilberto Gil e Caetano Veloso, que pode ser ouvido em qualquer esquina de Salvador.

“Enquanto eu venho do candomblé, Jocafi vem do samba de roda”, explica Antônio Carlos.

Praias do porvir

Com obra reconhecida no mundo inteiro e uma agenda de shows até hoje agitada, Antônio Carlos & Jocafi continuam sendo os mais célebres intérpretes de suas próprias canções.

Ao longo dos anos, deixaram de lado outros instrumentos —Antônio Carlos já tocou grave, e Jocafi, cavaquinho— para se concentrar no violão, mas assumiram novos papéis uma vez que arranjadores e produtores.

Se parcerias tão longevas são raras no mundo da música, ainda mais insólitas são duplas que ultrapassem 50 anos de atividade.

No caso de Antônio Carlos & Jocafi, porém, os dois garantem que a parceria não será interrompida enquanto viverem. “Eu não quero fazer zero sem ele”, diz Antônio Carlos.

“Quando falo ‘esta música é minha’, está sempre subentendido que é minha e de Jocafi.” Isso não significa, porém, que não haja espaço para novas colaborações.

Com naturalidade, a dupla credita a mais recente temporada —”a penúltima”, brinca Antônio Carlos— de sua longa curso a dois músicos da novidade geração: Marcelo D2, que realizou em 2003 uma releitura de “Kabaluere” em “Qual é?”, e Russo Passapusso e a margem BaianaSystem, que se tornaram parceiros recorrentes.

“Com Russo Passapusso, mudou totalmente a maneira de a gente imaginar. É o que eu sempre digo: tem de ter qualidade”, explica Jocafi.

Em 2019, o BaianaSystem lançou o álbum “O Horizonte Não Vagar”, fortemente marcado pela temática ambiental, tendo uma vez que carro-chefe “Chuva” —que tem a dupla entre os compositores. No ano seguinte, foi a vez de “Miçanga”, single da margem que ganhou o Grammy Latino.

Em 2022, Russo Passapusso, Antônio Carlos e Jocafi lançaram “Cumeeira da Maravilha”, álbum premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Em 2024, nasceu o álbum do BaianaSystem “Batukerê”, e nascente ano mais um single, “Praia do Horizonte”.

O próximo projeto da dupla é uma trilogia inspirada na obra de Jorge Querido, que já serviu de mote para o álbum “Antônio Carlos & Jocafi cantam Jorge Querido” (1996).

No momento da epílogo desta reportagem, a BBC News Brasil enviou mensagem de texto para Antônio Carlos a término de checar informações. “Estamos dentro do estúdio. Vou mandar para você a última música que gravei”, respondeu o compositor.

A filete —na qual a dupla se junta a uma cantora de voz majestosa e límpida sobre uma base de violão, órgão, cordas, percussão e vocais— parece se lastrar entre a sonoridade dolente dos primeiros trabalhos e a roupas visceral da produção mais recente dos parceiros.

O repórter transmite sua sentimento e pergunta qual é o nome da cantiga e quem é a tradutor. “Essa música, “Ingorossi”, foi a primeira música que eu fiz na minha vida. Com ela que eu comecei tudo. Esse final eu fiz agora com Jocafi”, explica Antônio Carlos em áudio.

“Quem está cantando com a gente é Maria Creuza”, complementa. “Ela gravou a primeira música minha e parece que vai gravar a última.”

Oriente texto está disponível originalmente cá.

Folha

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