A Cia. Empório de Teatro Sortido celebra seus 15 anos com uma versão repaginada de “Música para Morrer de Paixão”. A peça, que originalmente se chamava “Música para Trinchar os Pulsos”, foi o trabalho de estreia do grupo em 2010 e lhe rendeu o prêmio APCA de melhor espetáculo jovem. A novidade montagem é uma reinvenção peculiar, que troca os monólogos confessionais da versão original por uma linguagem músico.
A direção dupla de Fabrício Licursi e Victor Mendes é o coração dessa transformação. Mendes, que atuou no elenco original, traz um conhecimento íntimo do texto, garantindo que a núcleo da obra seja preservada. Já Licursi, com sua expertise em movimento, é o responsável por dar corpo à novidade proposta, fazendo com que a música não seja exclusivamente um fundo emocional, mas a própria dramaturgia. Juntos, eles equilibram a verdade textual com a frase física.
A mudança do título já sinaliza uma novidade abordagem: de um ato impulsivo (“trinchar os pulsos”) para uma consequência melancólica (“morrer de paixão”). A novidade montagem explora essa profundidade, usando canções originais, criadas de forma colaborativa com o elenco, para exteriorizar a dor e a confusão que antes ficavam restritas aos longos monólogos. Luiza Porto, Daniel Haidar e Vitor Rocha, que, além de excelentes intérpretes, são co-criadores, tocando instrumentos em cena e transformando a angústia individual em uma experiência coletiva e catártica.
A peça mantém a estrutura que consagrou o texto: três jovens – Isabela, Felipe e Ricardo – navegando pelos dramas do desamor e da amizade, com um triângulo amoroso que mantém sua relevância. Com exclusivamente 70 minutos de duração, o espetáculo é ligeiro e prestímano. A música funciona uma vez que um tramite emocional, dando facilidade à narrativa e intensidade à experiência, evitando o risco de desabar em clichês.
Ao transformar a confessionalidade estática em performance dinâmica, a direção consegue uma proeza: torna a dor amorosa dos personagens não só compreensível, mas genuinamente compartilhada com a plateia. A novidade versão prova que a obra seminal da companhia não exclusivamente resiste ao tempo, mas ganha novas camadas e sonância em sua forma musicada.
Três perguntas para…
… Victor Mendes
Você é um dos únicos artistas a vivenciar essa obra em três dimensões: uma vez que ator na montagem original de 2010, no filme de 2019 e agora uma vez que co-diretor. Porquê essa experiência completa moldou a sua visão para esta novidade montagem?
Essa é uma história que me acompanha de perto desde que ela existe. Nasceu enquanto eu cursava meu primeiro ano na Escola de Arte Dramática da USP. Fui amadurecendo uma vez que artista ao mesmo tempo que a peça amadurecia em mim. Na montagem original vivemos o sonho dos processos: amigos apaixonados pelo teatro querendo fazer uma peça juntos, com tempo, com investigação e com delicadeza para deslindar as forças e sutilezas do texto do Rafa.
Hoje, em conexão com esse texto há 15 anos, eu sinto que conheço essa peça de cabeça pra grave, já vivi emoções parecidas, já vi novos atores se aproximarem do texto e ouvi suas visões sobre ele. Disso tudo, o que me instigava a pensar numa novidade montagem era justamente equalizar a delicadeza e intimidade que a primeira montagem tinha com a possibilidade de colocar a música dentro da cena, na boca desse trio, de forma oriundo, pensar música para a peça.
Isso era uma coisa que não tínhamos feito ainda. Por isso eu sugeri aos meus parceiros (Fabricio Licursi na direção e Rafael Gomes no texto) invitar Luiza Porto, Vitor Rocha e Daniel Haidar, pois para além dos talentos individuais para músicas, eles são amigos e espelham essa amizade antiga que tenho com Mayara Constantino e o Rafa Gomes.
A mudança do título, de “Música para Trinchar os Pulsos” para “Morrer de Paixão”, parece refletir uma mudança de tom. Na sua visão, o que essa novidade versão diz sobre o paixão e o desamor que a versão original de 2010 não dizia?
Mesmo correndo o risco de parecer um tiozão com essa resposta (risos), acho que em 2010 a gente sofria mais, num outro tempo. Expandido. O público chorava muito na peça. Tudo era mais profundo e dolorido quando se referia a dores de paixão. E isso não era uma direção não… A dor de hoje ou o paixão de hoje talvez sejam os mesmos, mas a maneira de mourejar com esses sentimentos não… Não era o tempo do meme, das trends… esse é mais prestímano, mais solto… Hoje, de uma forma que eu ainda acho esquisita, as coisas são um pouco mais leves, ou parecem ser… sei lá, a gente era mais “Jovem Werther” em 2010 (simples que com as devidas proporções).
Hoje acho que eles são mais rápidos na transformação desses sentimentos, e se munem de recursos para camuflar ou anular aquilo que sentem, seja uma dor sincera, seja uma novidade paixão. Na peça, nessa novidade versão, perseguimos um pouco essa leveza, numa constituição de scrapbook, muito artesanal mesmo, criando um relicário com muitas sobreposições dessas lembranças.
A peça original tinha um poder de informação enorme com os jovens. Hoje, em 2025, o que você acredita que nascente espetáculo tem a expressar para uma novidade geração de adolescentes e jovens adultos, em um contexto cultural tão dissemelhante de 2010?
Acho que ela se comunica muito muito com esse público ainda! É uma peça que “envelheceu” muito demais. Porque é um sentimento universal, né? E quando se é jovem, você com certeza vai se identificar com eles ou pelo menos com qualquer desses personagens.
Acho que não temos uma mensagem específica para o público, mas a formosura da peça e dessa novidade versão é justamente essa, fabricar essa identificação tão direta, tão exclusiva que por mais que o teatro, seja uma experiência coletiva, você parece ter a dimensão de que o “algoritmo” criou alguma coisa sob medida para você. Seja pela música, seja pelos objetos que aparecem em cena, pelas roupas ou só pelo veste de serem jovens e estarem ali dizendo essas palavras, às vezes doces e às vezes porrada.
Teatro Estúdio – rua Mentor Nébias, 891, Campos Elíseos, região medial. Qua. à sáb., 20h. Dom., 15h e 18h. Até 30/10. Duração: 70 minutos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br
