Musical 'Jeca' transforma 'Refazenda' de Gil em teatro 10/11/2025

Musical ‘Jeca’ transforma ‘Refazenda’ de Gil em teatro – 10/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Gilberto Gil, 83, que emociona milhares de fãs com “Tempo Rei”, seu show de despedida das grandes turnês, é o inspirador do músico “Jeca – Um Povo Ainda Há de Vingar”, em papeleta no Sesc Consolação, em São Paulo. Ou oráculo, porquê dizem os artistas do Grupo 59 de Teatro.

O espetáculo, fundamentado no álbum “Refazenda”, lançado por Gil em 1975, foi montado pela trupe depois uma ampla pesquisa sobre a trilogia “Re” (“Refazenda”, “Refavela”, de 1977, e “Realce”, de 1979), um marco na curso do cantor e compositor.

Os outros dois álbuns também darão origem a peças teatrais.

Escrito por Lucas Moura da Conceição, com poemas cênicos de Marcelino Freire, e dirigido por Kleber Montanheiro, o músico acompanha as idas e voltas de Jeca para sua terreno natal.

Nas etapas dessas viagens, ele reencontra pai, mãe, a mulher querida, o velho abacateiro da cidade e suas próprias origens —a feira, o forró, o baião, as rendeiras e as jangadas.

Enxerga, também, as dores do varão sertanejo: o pau de arara, a terreno seca, a repressão, os retirantes, as violências e a devastação causada por grandes empreendimentos, porquê as torres eólicas —elas produzem vento capazes de carregar tudo, até mesmo as lembranças.

Nos anos de pesquisa, os artistas da companhia também viveram os seus próprios encontros e desencontros.

O de Fernando Vicente, um dos Jecas da montagem, foi com a obra de Gil, que chegou a rejeitar antes do aprofundamento proporcionado pelo período de estudo.

“Eu tinha algumas questões. Perguntava: por que o Gil não bate de frente? Por que ele não fala que o Brasil é racista?”, recorda, citando principalmente o álbum “Refavela”.

O ator percebeu, aos poucos, que o jeito de Gil é outro. Envolve guarida e transformação, fazer e refazer.

“E isso é genial, é incrível. Não é à toa que muita gente fala que ele é um orixá”, diz o agora fã do músico.

No caso de Felipe Gomes Moreira, que também interpreta o Jeca na peça, a relação com Gil vem da puerícia. Os pais, ligados a movimentos sociais em Santo André, no ABC paulista, sempre tiveram o baiano porquê uma das referências.

“Meu pai tocava ‘Expresso 2222’ no triângulo”, lembra sobre Eduardo José, morto em dezembro do ano pretérito.

A família Gomes Moreira, conhecida em Santo André por promover a Cantoria de Reis, foi uma das convidadas do grupo para participar da temporada das ideias e provocações que deram origem à dramaturgia, ao lado de pesquisadores e outros artistas.

No palco, os dois atores se emocionam com “Pai e Mãe”, uma das canções do álbum “Refazenda”, que embala uma cena comovente sobre o afeto entre homens de gerações diferentes. Fernando lembra do primeiro ósculo que deu no pai, aos 26 anos. Felipe ainda vive o luto da perda paterna.

Todas as músicas de “Refazenda” estão no músico, algumas na íntegra, outras em citações. O espetáculo tem também canções originais do músico Marco França, com letras de Moura e Freire.

O enredo é construído a partir de personagens, paisagens e situações retiradas das letras. Outras músicas de Gil, porquê “Back in Bahia” e “Lugar Generalidade”, essa com João Donato (1934-2023), fazem segmento da trilha sonora.

A teoria de reprofundar na trilogia “Re” veio de Mirian Blanco, atriz e produtora do projeto, a partir do histórico de 15 anos de pesquisas sobre a cultura popular brasileira do Grupo 59, que inclui espetáculos premiados porquê os infanto-juvenis “Um Dia, Um Rio” e “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”. “Jeca’ herdou a ludicidade dessas outras montagens.

“O Gil tem essa audácia maravilhosa de produzir um projeto de país”, afirma a atriz. “Até o Caetano Veloso disse que, embora goste das músicas, das letras, dos timbres, o que ele acha mais possante no Gil é essa capacidade de produzir um Brasil inteiro em sua música”.

No palco, o que aparece é um país de revezes, mas também de belezas e esperança.

Gil liderou uma construção artística que mistura influências do período do exílio em Londres ao acordeon de Luiz Gonzaga, Beatles ao sertão, ácido e cachaça, reza e sarau, pretérito e horizonte, recuo e progresso.

“O Gil escreve em alegorias, cada verso é uma parábola”, diz Blanco. “Refazenda” traz a voz dos interiores do Brasil e, também, do interno do próprio Gil e dos dez artistas em cena no músico.

“Cada disco da trilogia é um manifesto. A trilogia manifesta um projeto de país que não passava pela teoria de uma escol branca militar, em plena ditadura. Passava por uma pluralidade das frentes que ele organiza, do Brasil interiorano e rústico, um Brasil preto, diaspórico. Um Brasil festivo e matizado”.

Gil define “Refazenda” porquê uma “justaposição de nonsense”, uma celebração à natureza e um resgate de suas raízes nordestinas.

“Trazemos um pouco das raízes do Brasil e porquê elas se conectam com os dias de hoje, com o que a gente vive e ainda se espelha no pretérito, o que evoluímos e o que não evoluímos”, define Montanheiro.

No cenário do espetáculo, um praticável circunvalar remete ao abacateiro da música “Refazenda”, um marco simbólico e temporal da peça. O abacateiro, velho camarada de Jeca, é também um cúmplice de sua trajetória.

O diretor destaca o momento de valorização das dramaturgias musicais autorais, em uma risca histórica em que o teatro músico brasiliano passou por diversas transformações, desde o teatro de revista até as peças biográficas dos últimos anos.

“É um momento produtivo. Estamos conseguindo relatar outras histórias nessa linguagem. Vejo mais pessoas fazendo isso ao meu volta. Acho que estamos firmando um movimento muito importante”.

A equipe de Gil aprovou o projeto e o grupo sonha com a presença do cantor em uma das apresentações do músico. Dizem que seria porquê uma benção.



Folha

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