A personalidade discreta de Gal Costa e a impossibilidade de ouvir a cantora sobre as lacunas da trajetória de 77 anos levaram os idealizadores do músico sobre a artista, com estreia marcada para março do ano que vem, no 033 Rooftop, no Multíplice JK Iguatemi, em São Paulo, a optar por uma dramaturgia psicológica e um tanto mística.
“Resolvemos racontar essa história uma vez que se fosse dentro da cabeça da Gal”, conta Marília Toledo, dramaturga, diretora e idealizadora do projeto.
Três atrizes e um ator vão personificar uma das maiores artistas da música brasileira, morta em novembro de 2022, depois tolerar um infarto agudo do miocárdio. O atestado de óbito mostrou que a cantora tinha um cancro de cabeça e pescoço.
Em “Gal, O Músico”, uma das personagens será a representação da baiana uma vez que o público a conheceu —superabundante e dona do palco com sua voz cristalina e a sensualidade. As outras três, incluindo o ator, simbolizando o lado masculino, estarão na cabeça dela, dialogando o tempo todo sobre sonhos, desejos, conflitos e medos, em um processo junguiano.
“Ela foi pouco reverenciada perto do que merecia”, opina Marília, que escreveu o texto em parceria com Emilio Boechat e vai guiar ao lado de Kleber Montanheiro, sob produção é da Paris Cultural.
A valimento de Gal para a música brasileira e para as mulheres será destacada sem que ela seja tratada unicamente uma vez que a voz do tropicalismo, por não ter sido compositora dos clássicos do movimento, ao contrário de Caetano Veloso e Gilberto Gil.
“A maneira da Gal interpretar as canções trazia uma mensagem tropicalista. Eles foram para o exílio e essa mulher ficou cá. Ela resistiu, ela cantou e carregou essa bandeira sozinha. Foi uma atitude extremamente tropicalista”, diz a dramaturga e diretora.
Os figurinos ousados, o cabelo que ditava voga, a boca vermelha, o comportamento livre e o veste de ter batizado um trecho da praia de Ipanema, as dunas da Gal, são exemplos de atitudes marcantes.
O músico vai abranger do promanação à adoção de Gabriel Costa, o único fruto, hoje com 20 anos. Wilma Petrillo, a polêmica viúva, não aparece na montagem teatral.
A morte de Gal também não faz secção da dramaturgia, ao menos de forma explícita. O espetáculo terá cenas em que a artista compreende o tamanho de sua força e formosura, em uma integração de seus vários eus, uma vez que uma peroração do ciclo da vida.
Esse momento será simbolizado por uma imagem de Shiva e pela música “Vaca Profana”, de Caetano, interpretada pela cantora na dezena de 1980. “Gal era um tesão, não é? Todo mundo ficava louco, ela transou com todo mundo, todo mundo se apaixonou por ela”, diz Marília.
Posteriormente musicais sobre Silvio Santos, Ney Matogrosso e Renato Aragão, que escreveu e dirigiu ao lado de parceiros, a dramaturga desejava encenar a vida de uma mulher e, apaixonada pelo tropicalismo, tinha Gal uma vez que prioridade. “Não tive a sorte de conversar com ela, de extrair histórias”, lamenta.
A cantora morreu antes de ver o filme “Meu Nome É Gal”, com Sophie Charlotte, que faz secção do pacote da Paris Cultural sobre a tropicalista.
O jornalista Thallys Braga, que escreve a biografia de Gal, colaborou com as pesquisas para o músico, o que foi importante para a construção da peça. “Trazemos uma explosão de teatralidade para dar conta das nuances que vão além do que sabemos sobre a história da Gal”, afirma a idealizadora.
Marília e Boechat escolheram 40 músicas para o espetáculo, em uma trilha sonora que se encaixa na jornada de heroína contada no palco.
“Baby”, “Mamãe Coragem”, “Brasil” e os sucessos carnavalescos são canções garantidas no repertório. Em pré-shows antes do músico, integrantes do elenco vão interpretar canções que ficaram fora, uma vez que “Chuva de Prata”, grande sucesso que não encaixou na dramaturgia.
Foi longo o trajectória de Marília Toledo até chegar à proposta, ousada, do músico psicológico sobre Gal. Jornalista de formação, ela trabalhou uma vez que produtora do programa “Altas Horas” e escreveu e produziu o primeiro espetáculo, “Amídalas”, aos 20 anos, em parceria com Rodrigo Castilho.
As premiações recebidas pelo trabalho infanto-juvenil abriram as portas e vieram vários outros projetos no mesmo estilo. “Eu fui uma garoto que cresceu com ‘Os Saltimbancos” e ‘Caixa de Noé’. Logo eu sempre fui muito fascinada pelo teatro com a música brasileira’, conta.
Ao longo do tempo, Marília diversificou sua atuação profissional, escreveu peças adultas, administrou teatros e viveu uma experiência marcante com o lendário Antônio Abujamra, o Abu (1932-2015). Ela trabalhou ao lado dele em uma adaptação de “O Escrivão”, de Herman Melville, encenada no extinto Teatro da Coligação Francesa.
“Foi um caos, uma das experiências mais malucas que eu vivi”, resume. “Abu era um gênio, deixava a gente completamente apaixonada por ele, no sentido intelectual”, lembra. Mas tinha alterações de humor, brigava com a equipe, desaprovava o que já havia confirmado e sumia.
A relação fascinante e difícil deu origem ao texto “Quero Ser Antônio Abujamra”, que a dramaturga ainda pretende levar para o teatro e que mostra um encontro imaginário entre os dois para lembrar tudo o que viveram e, sim, lavar roupa suja.
Abu, segundo ela, não apareceu nos últimos ensaios e não viu a montagem de “O Escrivão” pronta. Mas não deixou de mandar emails, indicações de textos e cartões postais de vários lugares do mundo para a amiga, com quem gostaria de ter reencontrado. “Não tivemos esse papo, aí eu escrevi o texto”.
