Nos estúdios do programa Jovem Urgente, da TV Cultura, um jovem Arnaldo Baptista surge vestindo um terno quadriculado adiante de um órgão Vox recém-comprado. Rita Lee o acompanha com uma flauta, enquanto Sérgio Dias, Liminha e Dinho Leme completam a formação dos Mutantes.
Eles tocam uma versão de “A Day in the Life”, dos Beatles, música do disco “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, lançado em 1967. As imagens em preto-e-branco do programa gravado em 1969 foram resgatadas por fãs da filarmónica, que postaram o material, até logo inédito nas redes sociais.
Na versão mutante de “A Day in the Life”, Arnaldo Baptista assumiu os vocais principais, originalmente cantados por John Lennon, enquanto a secção da música que era cantada por Paul McCartney ficou a missão de Sérgio Dias e Rita Lee.
“Hoje, assistindo, penso: incrível eu saber aquela letra de cor. Dificílima! Devo ter estudado”, diz à Folha o mutante Arnaldo Baptista. Uma das inovações daquele LP dos Beatles foi justamente trazer as letras das músicas impressas no verso do álbum.
Naquele dia, o Jovem Urgente, que era apresentado pelo psicanalista Paulo Gaudêncio, recebeu também Tom Zé e os Novos Baianos. Em 2009, o programa foi reprisado pela TV Cultura porquê secção das comemorações dos 40 anos do meio, mas sem o trecho em que os Mutantes tocam o clássico dos Beatles.
“Foi interessante rever, uma recordação ótima. Imagina! Eu estava inaugurando o órgão Vox que eu tinha comprado, e o Liminha estava com um reles Baldwin”, diz Arnaldo, que à era havia pretérito do reles para os instrumentos de tecla, abrindo espaço para a ingresso do baixista Liminha nos Mutantes.
Outra novidade daquele programa, revelada agora, é a versão dos Novos Baianos —tocada e cantada por Moraes Moreira e Paulinho Boca de Cantor— para “Quero que Vá Tudo pro Inferno”, sucesso na voz de Roberto Carlos.
“Eu adorei [rever o vídeo], estava até mostrando agora para minha mulher, eu tocando bongô. E o Frejat me ligou dizendo que adorou o meu modelito”, diz Paulinho Boca de Cantor. “A gente andava com aquele figurino na rua, só quem não gostava muito era a polícia, que parava a gente”.
Paulinho conta que, naquela era, o grupo tinha o mesmo empresário de Roberto, que já estava consagrado porquê rei. “Nesse tempo, a gente estava empolgado com Roberto Carlos, e aí a gente cantava algumas coisas dele, mas nunca colocamos em show nem zero, só em momentos assim. Nem eu lembrava disso”, diz Paulinho sobre o cover da cantiga de Roberto e Erasmo.
Moraes e Paulinho também tocaram “Cérebro Eletrônico”, lançado naquele ano por Gilberto Gil, que àquela profundidade já estava lá em Londres no exílio com Caetano Veloso. Nos outros números, eles tiveram a companhia de Galvão e Baby Consuelo, mas sem os irmãos Pepeu e Jorginho Gomes, com quem já colaboravam desde meados daquele 1969.
O material bruto que veio à tona na primeira semana de janeiro tem quase uma hora de filmagem, todo ele dissemelhante da versão reprisada em 2009. Pelo menos na internet, essas imagens são inéditas.
“O que eu fiz mesmo foi só pegar e colocar no YouTube para deixar alcançável para todo mundo. É uma coisa que todo mundo merece ver”, diz Daniel Fernandes, gestor do “Baú Rita Lee” no Youtube e no Instagram.
O vídeo circulava restritamente, há tapume de três meses, em grupos de fãs no Facebook, mas só viralizou depois um galanteio com “A Day in the Life”.
Com todos juntos no palco, o primeiro número músico do programa foi “2001”, constituição de Tom Zé e Rita Lee. Os Mutantes ainda apresentaram “O Meu Refrigerador Não Funciona” e “Ando Meio Desligado”, músicas que fariam secção do LP “A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado”, lançado meses depois, em março de 1970.
“Foi muito permitido ter pintado esse vídeo porque ele faz uma menção a uma coisa muito interessante, que é o Tom Zé na vida dos Novos Baianos. Tom Zé foi muito importante”, diz Paulinho. Com uma plateia de jovens que lembra o formato do programa Altas Horas, da Mundo, os números musicais do Jovem Urgente eram entremeados por análises psicanalíticas de Paulo Gaudêncio.
Ele falava sobre a rapidez com que as informações circulavam na era, graças às telecomunicações, num deslumbre que parece atual. “Ele era muito permitido, era um face considerado. Na era, todo mundo achava ele interessante”, relembra Paulinho.
O tema do programa era o conflito de gerações tão em voga na era. A vinheta do pausa mostrava cenas de turbulências sociais daqueles anos rebeldes e fotos das estrelas musicais da era, porquê os Beatles e os próprios Mutantes.
“O que houve que provocou nesta geração um susto tão grande nos mais velhos, fazendo com que houvesse uma agressividade violenta das antigas gerações contra a música jovem, que não existiu tão marcadamente nas crises de geração que nos precederam?”, questionou Gaudêncio.
Antes de “A Day in the Life”, Gaudêncio disse que a cantiga foi “talvez das primeiras músicas a depreender um sucesso mundial que chocaram os adultos, que disseram: ‘que é que esses doidos estão querendo’? Que fizeram com que os adultos sentissem que as estruturas estavam sendo violentamente abaladas”.
