Josh Safdie muito que tentou fazer o filme mais barulhento e veloz da atualidade com “Marty Supreme”, m as Nadav Lapid, com “Yes”, mostrou quem manda no pedaço. Resta saber se nessa disputa o vencedor faz o melhor ou o pior cinema.
O cinema contemporâneo está estranho. Temos quase unanimidades burras e surpresas, porquê Yorgos Lanthimos ter feito finalmente um filme interessante, “Bugonia”. A situação geopolítica mundial, por outro lado, provoca tensão, histerismo, melancolia e desespero, e o cinema responde de alguma forma a esse estado das coisas.
A trama de “Yes”, se subtrairmos os penduricalhos, não é das mais complexas. Um par, Y e Yasmin, que vive de performances e serviços diversos para gente rica, procura entender qual é o limite da distinção humana.
Numa sarau, Y deixa homens afundarem seu rosto em enormes taças de ponche e líquidos diversos. Depois, se joga na piscina e se afunda, para Yasmin se despir de seu vestido de sarau e o salvar.
Eles passam logo a dançar freneticamente, até que um grupo militar impõe uma disputa de músicas. Yasmin logo percebe que é melhor deixar os militares vencerem com sua “Love Me Visar”, já que eles pareciam fanáticos.
Mais tarde, os dois vão ao quarto de uma senhora para a seduzir. A cena é claramente uma provocação, porquê, aliás, outras cenas do filme. As orelhas da senhora são lambidas pelo par, um de cada lado. Muito mais tarde, quando Y passa, literalmente, a lamber as botas de um poderoso, o filme já tinha explicitado sua falência moral.
Com menos de 20 minutos de “Yes”, vem à tona o ataque do Hamas a Israel, e o filme se desenrola a partir dessa informação. Quando Y recebe a notícia de bombardeios em Gaza, o que ele vê é um belo jardim dentro de um parque, patinhos nadando na manadeira, uma pequena andando de bicicleta, mas o que ouvimos são as explosões e os gritos relativos ao ataque.
No quadro político do momento, as pessoas tendem a procurar escudos. Um desses escudos é o cinema. Lapid já se mostrou um diretor capaz de trilhar bons caminhos com seu cinema provocativo, mas também já enveredou para a polêmica fácil. Cá, está tão próximo da segunda hipótese quanto da primeira.
Uma coisa é clara desde o início. Seu cinema é contrário à atual política de Israel. A crise do par passa também por isso. Até quando se sujeitar às vontades de milionários sádicos num país atingido e infectado pela violência?
No apartamento, Y e Yasmin dançam. Coreografias que eles provavelmente usam em festas são ensaiadas em tom de graçola na sala do apartamento onde vivem, enquanto o bebê deles observa no sofá.
De repente, a câmera começa a se mexer freneticamente, acompanhando a batida dançante da música em movimentos rápidos de ida e volta, vertical e horizontalmente. É porquê se o diretor quisesse parodiar os maus cineastas contemporâneos, que movem a câmera por esporte.
Lapid já tinha usado esse procedimento no longa anterior, “O Joelho de Ahed”, caindo na afetação. Em “Yes”, o excesso faz a coisa funcionar de qualquer modo. É tão maluco que ultrapassa a afetação e cai numa bem-vinda galhofa.
Logo depois, o bebê vira um boneco, que passa a ser jogado para todos os lados pelo par em um momento de discussão. Ela diz que na página do bebê na Wikipédia estará “Noah, nascido em 8 de outubro de 2023, um dia depois do sinistro”.
Os dois passam a lutar sob uma trilha sonora massacrante, até suas cabeças baterem na porta provocando um rombo. A câmera do lado de fora flagra o ósculo que se dá nesse espaço improvável.
É claramente o filme mais cobiçoso de Lapid, o que mais se arrisca formalmente, com artificialismos de toda espécie, humor nonsense, loucuras à David Lynch e personagens dialogando com o público –num momento que lembra “Terreno em Transe”, de Glauber Rocha, guardadas as diferenças entre um cineasta interessante e um gênio, o brasiliano.
Por vezes, “Yes” lembra os piores filmes de Paolo Sorrentino, o que não o favorece. Em outras, corre em risco paralela com o melhor de Radu Jude, na radiografia de um mundo em colapso.
Com tantas ideias arriscadas, algumas delas até constrangedoras, é provável pensar que Lapid apostou elevado em sua própria loucura e desnudou uma veia demolidora que sempre esteve em seu cinema, embora nunca de maneira tão escancarada. Para a construção de um cinema político, mas também para sua devastação.
