Não está na hora de criticar o pensamento crítico?

Não está na hora de criticar o pensamento crítico? – 07/10/2025 – Wilson Gomes

Celebridades Cultura

Comecemos com um jogo muito espargido. Você segmento do mês de promanação, do dia em que nasceu e da inicial do nome; o algoritmo entrega o “título crítico” do seu projeto de pesquisa ou item. Exemplo: “Epistemologias interseccionais na resistência ao racismo estrutural.” Outro: “Corpos-territórios queer na resistência à necropolítica.” Ou logo: “Performatividades decoloniais na resistência à ciência eurocêntrica”.

Nesse jogo de combinações dá para produzir, em série, 1.728 títulos indistinguíveis no que importa: objeto, método, evidência e novidade. São todos perfeitos para sinalizar pertencimento à tribo certa —no caso, a esquerda progressista. E ainda é fácil variar os termos, a depender do público.

O truque é simples. Primeiro, um substantivo-selo de prestígio (“saberes”, “vivências”, “epistemologias”, “corpos-territórios”). Depois, o marcador identitário (“interseccionais”, “decoloniais”, “afrodiaspóricos”, “queer”). Em seguida, o conectivo providencial —”na resistência a/ao” ou equivalente—, que distingue o responsável uma vez que sujeito crítico, engajado em fazer deste um mundo melhor. Por término, um inimigo totalidade (“necropolítica”, “racismo estrutural”, “pacto da branquitude”, “patriarcado”). Pronto: um título impenetrável, cuja força está menos em proferir o que será estudado e uma vez que e mais em informar de que lado você está e que deseja “mudar a veras”.

Em ambientes de preeminência progressista, esses clichês são levados a sério. Não uma vez que piada interna, mas uma vez que régua de prestígio. O resultado é espargido: tudo, de ideias a pessoas, passa a valer mais pela sinalização de virtude que emite do que pelo que explica.

E, no entanto, o mundo que supostamente queremos investigar e transformar fica cada vez mais distante. As pessoas comuns não falam assim. Quando decifram o mistério, veem desperdício de tempo e recursos —principalmente diante da urgência de problemas concretos: trabalho, escola que funcione, fileira no posto de saúde, segurança no ônibus, serviço público previsível.

“Mas é pensamento crítico”, dirão. É. E cá está a segmento menos engraçada. Por trás do gerador de jargões há uma história intelectual poderosa: a glorificação da 11ª tese de Marx sobre Feuerbach —”Os filósofos têm exclusivamente interpretado o mundo; o que importa é transformá-lo”.

Ao longo do século 20, muita gente leu isso uma vez que imperativo moral para transmutar a vida científica ou intelectual em atividade militante. A versão e a explicação —que sustentam o etos científico— passaram a ser tratadas uma vez que atividades normativamente menores, ociosas ou cúmplices. Ideias, cursos, livros e pesquisas passaram a ser julgados por sua capacidade declarada de “transformar o mundo” conforme a taxa da tribo, não por sua cultura em explorar a veras.

De onde vem essa régua? Há um longo caminho até essa atitude virar pedagogia social. A oposição, por exemplo, entre a “teoria tradicional” a “teoria sátira” instalou a primazia de um saber que se justifica por fins emancipatórios. Depois, a contraposição entre “pesquisa administrativa” e sátira desenhou um planta moral do campo: explicar para prever, gerir e gerar competências soava uma vez que projeto cúmplice do “sistema”; explicar para desnaturalizar ganhava prestígio.

Nos projetos pedagógicos “críticos”, a escola virou laboratório de consciência: formar sujeitos críticos passou a importar mais do que domínio de teor, método e cumulatividade. Daí títulos, ementas e chamadas de projeto valerem mais pelo alinhamento moral do que pela capacidade de esclarecer uma vez que o mundo funciona.

No mundo real, porém, quem ambiciona transformar precisa, antes, proferir o que está em jogo, por quais mecanismos, com quais evidências e em que condições a mediação funciona. Sem isso, a taxa “sátira” vira simplesmente outro nome para militância.

Não se trata de neutralidade perfeita, e sim de honestidade: professores, cientistas e certos trabalhadores intelectuais, uma vez que jornalistas, têm a obrigação de evitar que inclinações ideológicas comprometam a qualidade do trabalho. Isso se traduz em práticas: separar honestamente hipótese e preferência, expor métodos, admitir refutação, ajustar conclusões aos dados, declarar conflitos de interesse e resistir à tentação de confundir “serve à minha justificação” com “é verdadeiro”.

Em tempos de hiperpolarização, esse esforço não é ornamento —é o que sustenta a crédito pública no trabalho intelectual. Gente querendo modificar o mundo não falta; o que anda em falta é mão de obra honestamente dedicada a entendê-lo e explicá-lo recta.


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Folha

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