O roqueiro Nasi, cantor da margem Ira!, vai se tornar o primeiro artista brasílico de renome a lançar um álbum feito com perceptibilidade sintético. Seis músicas do projeto chamado “nAsI – Sintético Intelligence” já estão prontas e começarão a ser publicadas nas plataformas a partir do dia 23 de janeiro, quando ele fará 64 anos.
“Alguns vão jogar pedras, mas não estou nem aí”, ele diz. A classe músico tem se voltado contra o uso da IA sobretudo pela teoria de que a geração humana é intransmissível e insuperável. E de que, ao fazerem uso de materiais já compostos um dia, as empresas de tecnologia deveriam remunerar direitos autorais pelas criações artificiais.
Nasi não só corre para abraçar o monstro do qual sua classe foge porquê parece pronto para rebater os dois argumentos. Todas as músicas são versões de canções que ele mesmo fez em sua curso solo: “Corpo Fechado”, “Manipanço na Rua 23”, “Ogum”, “Polvo em Los Ojos (Poeira nos Olhos)”, “Perigoso” e “Psique Noturna”.
Logo, o material que usa porquê base pertence a ele mesmo. “Não sou contra o pagamento de direitos e estou pronto para fazer isso se alguém reclamar, mas o que a IA está fazendo é o que sempre fizemos quando dizíamos ‘vamos conceber um rock tipo Led Zeppelin? Vamos fazer um blues tipo Chicago?’ O Ira! está pleno de referências do The Who. Você acha que eles pensaram em nos processar por isso?”
A reportagem ouviu as músicas na moradia do cantor, em São Paulo. O rock pesadíssimo “Ogum”, lançado em 2010 no álbum “Vivo na Cena”, se tornou um boogaloo, um ritmo porto-riquenho de dança, quente e sensual.
Outra que a IA devolveu, a pedido do artista, com panelinha e ritmo caribenho, mais particularmente “afro-cubano ao estilo Buena Vista”, foi “Poeira nos Olhos”, lançada no projeto “Nasi e Os Irmãos do Blues” em 2001, no álbum “O Rei da Cocada Preta” —uma adaptação autorizada do tema “Equinox”, do jazzista John Coltrane, morto em 1967.
Traduzida para “Polvo em los Ojos”, o que a IA fez, por mais indelicado que seja expressar isso, soa melhor do que o que Nasi e os instrumentistas humanos fizeram em 2010. “Eu também achei, pode pôr isso na material.”
As únicas participações reais no disco são da cantora Nanda Moura no vocal de “Psique Noturna”, do guitarrista Johnny Boy em uma segunda voz de “Perigoso” e de dois instrumentistas tocando trompete e violoncelo em duas faixas. A interface das ideias do artista com as plataformas de IA é feita com a ajuda do músico Augusto Junior.
Poderia portanto o talento sintético da IA superar ideias de arranjos ou mesmo de composições feitas um dia por um artista? “Sim”, diz Nasi, convicto. Mas tem aí uma insídia que pode jogar contra a máquina.
“Polvo em los Ojos”, por exemplo, veio com um panelinha de metais característico dos cubanos tão perfeito na teoria e na realização que, em qualquer momento, diz o próprio cantor, deixa de ser humano. A música, e esse pode ser o próximo debate, não precisa das imperfeições? Sua resposta também é sim.
“Eu fiquei espantado com esse naipe. Quando tocamos com músicos, ouvimos algumas imperfeições, algumas semitonadas. Até os vocais dos Beatles têm isso. Há certos defeitos e sujeiras que, na minha opinião, tornam a música mais humana. Ser perfeito demais pode desumanizar a música e torná-la robótica.”
Haveria espaço para um caminho de constituição híbrido? “Sim, o ideal seria a mistura entre IA, arranjadores e músicos, todos trabalhando juntos.”
O single que será lançado em janeiro, com um clipe também feito em IA, se trata de uma versão de “Corpo Fechado”, uma pedrada escrita em 1986 porquê rap e só gravada porquê rock sobre uma base de um blues de Muddy Waters em 2006.
O resultado do que Nasi pediu para a IA, “um samba de partido sobranceiro com referências de Martinho da Vila, João Nogueira e Agepê” é quase uma insurreição ao que existia. O rock virou samba. E deu evidente. “A IA primeiro mandou uns pagodes, que descartei. Depois que citei os nomes dos sambistas, veio a versão definitiva.”
O campo mais minado talvez esteja no resultado de “Manipanço na Rua 23”, que virou um trap. A original saiu em 2011, no álbum “Perigoso”, inspirada em uma história real que ele conta: “É sobre uma mulher que foi tirada de mim por mandinga. Tive de evoluir espiritualmente para quebrar isso e fazê-la voltar para mim. Tudo muito que depois nos separamos de novo”, diz ele, um praticante dos cultos de Ifá e Orixá da tradição Iorubá desde 2009.
“Manipanço” era um rock nos moldes do guitarrista Dick Dale, uma surf music. Podem os fãs estranhá-la agora, em formato de trap? “Rostro, não estou nem aí para isso. Só quero me divertir. E vou te expressar uma coisa, me diverti mais fazendo esse disco do que muitos álbuns que fiz com o Ira! Eu senti que poderia me mostrar porquê cantor cantando coisas que adoro, mas que não poderia fazer de outra forma.”
Outra vantagem que ele aponta tem a ver com valores. O dispêndio final da produção de um álbum concebido com a ajuda da IA, por mais que traga também a inclusão de instrumentos reais, é, em média, 50% mais barato do que as gravações convencionais.
Uma das canções traz uma sátira velada às intolerâncias imigratórias de Donald Trump. “Perigoso”, também de 2011, tinha a participação de Renato Teixeira no quina. Era um rock rústico, quase country, que não se distanciou muito desse universo. A versão atual é feita em ritmo de corrido, um gênero mexicano típico da fronteira com os Estados Unidos e consumido, conta Nasi, pelos “narcos de Tijuana”.
“A versão partiu da teoria de uma animação. Criei o roteiro de uma história na qual um galo inspirado no próprio Nasi pendência com o galo Trump na fronteira dos dois países. Queria indicar para aqueles americanos vagabundos que colocaram essas pessoas para trabalhar fazendo o que eles não queriam fazer por anos e que, agora, apoiam sua deportação.”
Nasi não acredita que vá municiar a vingança de seus detratores bolsonaristas com o disco em IA. Em abril, quando esteve com o Ira! para um show em Escrutínio, em Minas Gerais, se pronunciou contra uma secção da plateia que vaiou a margem mal ele gritou “sem anistia” no palco.
“Se eu pudesse voltar ao tempo, falaria dissemelhante. ‘É essa a direita que quer mudar o país? Que é em prol de golpista?’” Posicionamento é alguma coisa que a IA ainda não faz.
