Natália do Vale: Tudo é possível na terceira idade, diz

Natália do Vale: Tudo é possível na terceira idade, diz – 05/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Em “A Sabedoria dos Pais”, peça de Miguel Falabella, em edital em São Paulo, sobre um par de longa data que decide se divorciar, a personagem de Natália do Vale decide reencetar a vida amorosa na terceira idade e reflete a sua curso ampla de mulheres irreverentes.

Escrita pelo diretor mormente para ela, a figura explosiva recorre a diferentes palavrões ao deslindar a traição cometida pelo marido, mas acha um modo de manter o seu carinho por ele e se distancia da moral duvidosa que a guiou pela romance “O Outro” em 1987. A diferença entre papéis não aparenta ter minguado a animação que sentia na estação do folhetim, em que trabalhou com Falabella pela primeira vez.

“Antes das redes e da rapidez atual, Miguel telefonava de madrugada e passávamos horas e horas falando sobre projetos futuros”, diz ela, que dividiu com o artista uma dupla de irmãos trambiqueiros —disposta a tudo para ir detrás do moeda do empresário vivido por Francisco Cuoco— na produção de Aguinaldo Silva.

Houve um tempo, porém, em que as malandragens da televisão e o divã no teatro eram veras distante, quando a prioridade era a graduação em filosofia e aulas particulares de geografia que pagavam as suas contas. Ainda assim, deixou os desejos falarem mais cumeeira, achou tempo para um curso de artes cênicas e foi invenção por nomes da TV Cultura, que fizeram dela apresentadora antes do mergulho nas novelas.

Embora o prestígio tenha disparado de lá para cá, o seu perfil reservado, distante das redes sociais e que costuma recusar as classificações mais pomposas atribuídas à ela, permaneceu uma metódico. Com a voz calma e paciente, ela descreve à Folha a supresa que funcionárias suas sentiram depois vê-la na temporada carioca de “A Sabedoria dos Pais”.

“O público pode não perceber, mas, no teatro, todo dia é dissemelhante. As reações da plateia provocam o ator, e, a cada apresentação, um pulo ou inflexão muda. Tudo pode sobrevir de maneira um pouco dissemelhante”, explica Do Vale, que vive o seu retorno aos palcos depois de mais de duas décadas. Em frente às cortinas, aliás, a sua personagem revela uma intensidade muito distante daquela com que responde à reportagem.

Logo na primeira cena, na procura por respostas sobre uma suposta amante, Júlia confronta Mauro, parceiro interpretado por Herson Capri, com todas as forças. Na mesma noite, mal ele conclui seu exposição ao receber um prêmio, ela rouba o microfone, improvisa injúrias e torna públicos os desafetos. Zero que a impeça, na volta para moradia, de debater com mel o horizonte dos filhos perante a separação.

Entre a sabedoria do envelhecer e facetas mais extremas da humanidade, a mulher reúne características dos rostos que Do Vale acumulou em seu repertório. No caso da parceria com Falabella, os estratagemas de “O Outro” deram lugar, dois anos mais tarde, à “A Partilha”, um dos textos mais vindouros do encenador.

No palco, onde quatro irmãs se juntam para lamentar a morte da mãe, a comédia reforçou a capacidade da atriz de ironizar os piores aspectos da sociedade brasileira. As motivações de sua Selma —que se envolve com amargura nas conversas sobre a legado familiar— lembram, inclusive, de modo menos exagerado, às da vilã Andréia Souza, personagem de “Cambalacho” que almejava a subida social a qualquer dispêndio.

Apesar das falhas de caráter, Do Vale nunca deixou de agradecer à oportunidade, que impulsonou seu alcance na esteira de atrações porquê “Saramandaia” e “Chuva Viva”. Uma dezena depois “A Partilha”, agora numa versão mais espirituosa, ela se viu outra vez entre os elos fraternais de Selma com o espetáculo “A Vida Passa”.

Minimalista, a prolongamento reforçou o elenco enquanto força principal da encenação e fez do humor um revérbero do maduração daquelas personagens. Pouco depois, foi a vez de uma versão audiovisual da peça original, que não envolveu Falabella e nem Do Vale, mas incluiu Capri ao expandir eventos da trama.

Sete anos separaram a estreia do filme e a primeira vez em que os três trabalhariam juntos. Lançada em 2008, a romance “Negócios da China”, dirigida pelo dramaturgo, reuniu os atores em um escandoloso caso amoroso e, mais tarde, em “Em Família”, foi a vez de Manoel Carlos desenvolver uma paixão entre os dois.

“O Miguel sempre desenvolveu um olhar para questões contemporâneas, mormente ligadas à família”, afirma Capri, que diz ver o título da peça porquê menção aos saberes que cruzam gerações. “Elas são questões sérias, mas que ele desenvolve com bastante leveza, e que dizem reverência a cada um de nós.”

Convidado para o projeto depois anos de planos adiados entre Do Vale e Falabella, ele também cita tópicos porquê a misoginia e o etarismo. Hoje, sete anos depois de sua última romance, “A Dona do Pedaço”, a atriz demonstra querer enfrentar estigmas do tipo de cima do palco.

As longas gravações de episódios são uma teoria que hoje a desagradam, e certas conquistas parecem ter se materializado para o conforto de moradia. “Acho bonito porquê a peça coloca essa possibilidade do paixão na terceira idade”, diz. “Podemos nos gostar, amar e até transar. Tenho um exemplo disso dentro em minha própria vida. Tudo é verosímil.”

Folha

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