Natureza de Jards Macalé era converter maldição em bênção

Natureza de Jards Macalé era converter maldição em bênção – 19/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Jards Macalé tossia. Muito. Já seria uma situação incômoda se ele estivesse no sofá de morada, vendo um pouco na TV —porquê “Seinfeld”, que amava, ou DVDs de mestres porquê João Gilberto e Miles Davis, que via de violão na mão. Mas não. Ele tossia muito e estava no palco, numa das apresentações, oriente ano, do show no qual lembrava as canções de seu primeiro álbum, lançado em 1972.

A certa profundeza, incapaz de domar sua tosse, ele não se curvou a ela: convocou a plateia a acompanhá-lo num coro de tosses, que regeu com pompa. Dissipou a tensão pelo riso, pela surpresa —e a partir dali seguiu com o show lindamente até o término.

Macalé não mostrou ali simplesmente porquê se toma o controle de um show que não se dá sob as condições ideais. Ele mostrou que é mal se vive —era mal ele vivia. Morrer e voltar pra curtir não era só um verso de seu parceiro Waly Salomão que ele tomou para sua voz.

Zero era só um verso na vida e na arte de Macalé. Em ambas, sua natureza foi transmutar a tosse em coro, a maldição em bênção, a contracultura em cânone, a neurose em violão, a morte em curtição —quase sempre temperado pelo golpe amolado e fundo do humor.

Do humor e do paixão. Seu deboche, sua acidez, mesmo seus desentendimentos públicos com amigos de geração porquê Caetano Veloso e Gal Costa —até seus atos mais violentos, fossem em sua música ou nas entrevistas, eram marcados por uma perspectiva profundamente amorosa.

Não à toa retomou com ternura e contundência política o mote positivista —é lindo que tenha feito isso via o samba “Positivismo”, de Noel Rosa e Orestes Barbosa— do “paixão por princípio, ordem por base e progresso por término” para pedir que a bandeira brasileira incorporasse o paixão em sua tira meão. Sua leitura do “Hino Vernáculo Brasílio”, cruzando João Gilberto e Jimi Hendrix, talvez guarde a síntese de seu paixão cortante por seu solo da Silva, ou melhor, da selva.

Uma vez que outros grandes de sua geração, e com mais veemência do que quase todos eles, Macalé levou a vida afirmando a cada ato criativo que ser artista —talvez mais ainda, ser artista de cantiga no Brasil— é uma enorme responsabilidade existencial e política. Em sua música, desafiou fórmulas, arrancou formosura de recantos inesperados, inventou um jeito de tocar que resplandece em seus discos e de outros —porquê “Transa”, de Caetano. Fora dos palcos, peitou um capitão quando estudava no Escola Militar, lutou por direitos autorais, comandou o show-protesto “Festim dos mendigos” em plena vigência do AI-5.

Pagou um preço. Atravessou depressão, tentativas de suicídio, anos sem gravar, ainda mais anos sem conceber. Uma travessia que encontrou sentido nas duas últimas décadas, quando se tornou referência meão para novas gerações, voltou a lançar inéditas, ganhou prêmios e capas de cadernos culturais. Sobre tudo isso, veio o paixão pela cineasta Rejane Zilles, com quem se casou em 2018. Voltou para curtir, portanto, a sabedoria de entender que o paixão vem da tranquilidade, porquê canta em seu último disco, “Coração bifurcado”, numa cantiga feita em parceria com Ronaldo Bastos.

Foram nestas duas últimas décadas que pude me aproximar de Macalé. Muitos encontros em bastidores de shows, em plateias de outros artistas, entrevistas, mesas de bares. Numa dessas vezes, no Bar Rebouças, no Jardim Botânico, perto de onde ele morava, a entrevista era picada pela chegada de pessoas de todos os tipos que o cumprimentavam, de senhoras passeando com cachorros a bebedores da tarde. Alguns se sentavam à mesa, convidados pelo próprio Macalé. A certa profundeza, ao ouvir uma de minhas perguntas, ele se virou para um de nossos colegas que tomava cerveja sentado ali e disse: “Essa você responde!”. Talvez eu tenha usado a resposta na reportagem — em reverência a meu entrevistado.

Noutra, no mesmo Rebouças, logo posteriormente o show de Maria Bethânia no Manouche, que havíamos completado de presenciar, Macalé e Rejane me contavam do presente que ele tinha oferecido a ela naquele dia: uma moto. Na hora de escolher o padrão, ele só tinha uma exigência: que a bateria fosse de lítio. “O lítio [usado como remédio psiquiátrico] me fez muito muito, deve fazer muito à moto”, justificou —noutra fala absolutamente Macalé.

Certa vez, pedi para ele definir o Jards e o Macalé, partilha proposta por seu biógrafo Fred Coelho para dar conta, de um lado, de sua dimensão pública e artística, e, de outro, da sua vida íntima. “Macalé é um faceta bacana, camarada de todo mundo, vive tendo ideias estrambólicas, bebe de vez em quando caipiroska de maracujá e mojito, grava discos, faz shows, agrega gente”, disse o compositor. “Jards Anet fica em morada, seja em Penedo, no Leme [seu último endereço no Rio] ou no Jardim Botânico [onde morou por décadas]. Fica tocando seu violão, quieto, fazendo suas musiquinhas, passa o dia inteiro pensando que ‘as coisas estão no mundo só que eu preciso aprender.’”

Depois referir o verso de Paulinho da Viola, completou. “A única semelhança entre Anet e Macalé é que os dois fumam maconha. Mas quase porquê uma religião, para aguçar a sensibilidade, sobretudo músico. Nem Anet, nem Macalé usam maconha para conceber ou se apresentar. Aí não entra zero. A própria música é o barato. A música é o sagrado, o barato da lucidez absoluta”.

Sua musicalidade, Macalé me explicou numa dessas ocasiões, foi formada pelo sagrado barato fornecido por um grupo de artistas que ele chamava de “cinco jotas”: “Johnny Alf, João Donato, João Gilberto, Tom Jobim e… [pausa dramática] Johann Sebastian Bach. Tem muitos outros, evidente, mas essa é a síntese do lance”, disse, brincando com o nome do disco que havia completado de gravar com João Donato.

Na última vez em que nos encontramos mais longamente, sentamos juntos no Amarelinho, na Cinelândia, em junho. Ele comentava informalmente sobre os planos de um novo disco de inéditas. Olhava com gosto pro horizonte. Sabia —porquê me disse em 2001, na primeira entrevista que fiz com ele, comentando o funk que fazia sucesso na idade, repetindo no refrão “tá subjugado, tá tudo subjugado”— que “não tem zero subjugado”.

A tosse que o incomodava no show realizado em fevereiro na Livraria Parque, dentro do projeto Parque de Ideias, já era uma revelação dos problemas de pulmão que tiraram sua vida nesta segunda-feira. Ao propor um coro de tosses para os risos da plateia, ele olhava para a morte, com seu sorriso vivo e seus olhos espertos por trás das minúsculas armações redondas, porquê se dissesse: “E volto para curtir”.

Folha

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