Nelson Rodrigues: o 'imoral' da literatura brasileira que era um

Nelson Rodrigues: o 'imoral' da literatura brasileira que era um conservador na vida privada

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Nelson Rodrigues em foto de 1967; noticiarista seria ‘cancelado’ nos dias de hoje?
Registo Vernáculo via BBC
“Toda unanimidade é burra”, sentenciou o noticiarista, dramaturgo, jornalista — e grande frasista — Nelson Rodrigues (1912-1980).
E estas palavras funcionam muito muito quando pensamos que as contradições do próprio responsável também fazem dele uma figura controversa na contemporaneidade.
Morto há 45 anos, em 21 de dezembro de 1980, Nelson Rodrigues é considerado o mais influente nome da dramaturgia brasileira.
Marcou as artes cênicas, a literatura e a TV com obras uma vez que “Vestido de Prometida”, “Álbum de Família”, “Toda Nudez Será Castigada” e “Asfalto Selvagem: Engraçadinha”, “Seus Pecados” e “Seus Amores”.
Na introdução de “O Criancinha Pornográfico”, robusta biografia que fez sobre Nelson Rodrigues, o jornalista Ruy Castro enfatizou que “mesmo os seus piores inimigos nunca lhe negaram o talento — e não foram poucos os que o chamaram de gênio”.
“Para alguns, era um santo; para outros, um miserável; para todos, sempre uma surpresa”, definiu o biógrafo.
Em sua obra, retratou sem escrúpulos personagens e situações consideradas imorais. Abundavam problemas familiares, sexo, morte, culpa, traição — e toda a sorte de neuroses e obsessões.
Para os críticos e secção do público, o que ele produzia era obsceno e vulgar.
Na vida privada, Nelson Rodrigues foi mulherengo e traiu companheiras, ao mesmo tempo em que era católico, conservador e apoiador da ditadura militar.
Crimes passionais
Nascido no Recife, em 1912, mudou-se ainda moço para o Rio com os pais.
Na logo capital do país, cresceu e construiu sua curso — tornando-se, aliás, devotado torcedor do Fluminense.
Começou a ortografar aos 13 anos no jornal A Manhã, publicação pertencente ao pai.
No periódico, sua primeira função foi a de repórter policial. Esse repertório de ocorrências seria depois terreno fértil para suas criações dramáticas, trágicas, retratos nus da vida real.
Crimes passionais estavam entre suas predileções, e rendiam boa repercussão entre os leitores do jornal.
Em 1928, quando seu pai perdeu o controle acionário do jornal e fundou outra publicação, A Sátira, o jovem prodígio também foi para lá.
O jornal duraria pouco menos de dois anos — depois de ser noticiada com soberbia a separação de um parelha da subida sociedade carioca, a mulher exposta na material foi até a redação e atirou contra um dos irmãos de Rodrigues, que morreria alguns dias depois.
Nos anos 1930, Nelson Rodrigues iniciou sua trajetória de historiador esportivo.
Inaugurou um jeito novo de relatar as partidas, sobretudo quando um dos times era o seu Fluminense.
Em textos publicados, entre outros, no Jornal dos Sports, lançava mão de personagens sabidamente fictícios uma vez que o Gravatinha e o Sobrenatural de Almeida para narrar os acontecimentos futebolísticos da rodada.
Em 1932, Rodrigues se tornou repórter efetivo do jornal O Orbe.
Ali, acabaria assumindo o caderno de cultura e assinando críticas de óperas.
Também editou a seção juvenil, roteirizou histórias em quadrinhos e atuou uma vez que tradutor.
Em 1941, escreveu sua primeira peça, “A Mulher Sem Vício”.
O prestígio viria dois anos mais tarde, com “Vestido de Prometida”.
O texto era inovador para o teatro da era. Nelson Rodrigues trazia uma história em três planos simultâneos: verdade, memória e alucinação.
Outra novidade trazida pela dramaturgia de Rodrigues era a facilidade de incorporar, nos seus textos, gírias e expressões coloquiais da era e do cotidiano carioca — inclusive palavrões. Isso conferia um privativo realismo às suas peças.
Para o noticiarista e crítico literário Luís Augusto Fischer, professor de literatura na Universidade Federalista do Rio Grande do Sul, essa foi uma das frentes em que Nelson Rodrigues “revolucionou” a dramaturgia brasileira.
Outra frente foi a “coragem de enfrentar tabus, uma vez que relações incestuosas e altamente dramáticas, inclusive no sentido das relações de classe no cenário social brasílico”, aponta.
Em 1945, Rodrigues deixou O Orbe para trabalhar nos Diários Associados.
No grupo do magnata Assis Chateaubriand (1892-1968), ele estreou seu primeiro folhetim, “Meu Direcção é Pecar”.
Nesta obra, nascia um heterônimo que se tornaria marca do responsável: Suzana Flag, uma vez que ele assinava esses textos.
Segundo Ruy Castro conta na biografia de Rodrigues, o noticiarista “não gostava que soubessem que ele […] era também Suzana Flag”.
“Quase todo o meio jornalístico sabia, mas não era uma coisa que achassem urgente propalar”, escreveu Castro. “A tamanho dos leitores acreditava que Suzana Flag existia […].”
A personagem-autora ficou tão famosa a ponto de certa vez Nelson Rodrigues declarar que ela escrevia melhor do que ele.
Em 1946, ele publicou “Minha Vida”, “autobiografia” de Flag. A esta profundidade, os amigos costumavam folgar que era Suzana Flag quem pagava as contas de Rodrigues.
Aos poucos, o noticiarista acabou se cansando de Flag e deixando a autora para trás, conta Castro na biografia.
Não houve, aos leitores, um pregão solene de que ela era ele — ou de que ele era ela. Isso foi sendo revelado de forma gradual.
No início dos anos 1950 Rodrigues já era um responsável de prestígio e ganhava um bom numerário com suas obras.
Logo, migrou para o jornal Última Hora e ali publicou aquele que seria o seu auge da curso na prelo: a série de contos “A Vida Uma vez que Ela É”.
O ator e dramaturgo Walter Lima Torres Neto, professor na Universidade Federalista do Paraná, destaca que Rodrigues conseguiu viver do que escrevia.
“Foi um noticiarista profissional que sobreviveu de seu trabalho intelectual, o que fez com que sua produção fosse imensa”, aponta Torres Neto.
Conservador e mulherengo
Nelson Rodrigues era católico tradicionalista
Registo Vernáculo via BBC
Na vida pessoal, Nelson Rodrigues fazia o clássico papel de varão de família aproveitador da vida.
Casou-se com a jornalista Elza Bretanha e, com ela, teve seus dois primeiros filhos. Mas era um mulherengo inveterado e vivia se envolvendo com amantes.
Abandonou o himeneu e teve outros quatro filhos — a caçula, fruto de relacionamento extraconjugal com uma mulher casada.
“O paixão entre marido e mulher é uma grossa bandalheira. É degradante que um varão deseje a mãe de seus próprios filhos”, argumentou Rodrigues em uma crônica.
O noticiarista se autointitulava reacionário. Apoiou a ditadura militar e elogiava o governo do general Emílio Garrastazu Medici (1905-1985).
Ao mesmo tempo, a repreensão imposta pelo regime o atingia. Em entrevista realizada em 1978, o próprio responsável disse: “Todos os presidentes, inclusive depois de 64, me massacraram. Tive oito peças interditadas. A repreensão usa um tratamento discriminatório contra mim”.
O pesquisador de literatura brasileira André Gomes, professor na Universidade Estadual Paulista, considera que, de indumento, Rodrigues era um “varão desempenado ao conservadorismo”.
“Há relatos de que só mudou seu posicionamento quando seu fruto mostrou ao pai as cicatrizes provenientes da tortura sofrida durante sua prisão. Do ponto de vista da sua ficção, Nelson nunca usou o que ele labareda de imoralidade a serviço de uma perspectiva mais progressista”, avalia.
O roteirista Nelson Rodrigues Rebento foi recluso nos anos 1970 por ter sido militante contra o regime.
Mas seu pai — o noticiarista dizia que “toda congruência é, no mínimo, suspeita” — também não era alheio às contradições da direita.
“Uma vez que são parecidos os radicais da esquerda e da direita. Dirá alguém que as intenções são dessemelhantes. Não. Milénio vezes não. Um miserável é exatamente igual a outro miserável”, cravou Nelson Rodrigues em crônica.
“No Brasil, quem não é miserável na véspera é miserável no dia seguinte.”
Nelson Rodrigues era também católico tradicionalista, apreciador do padre francesismo Marcel Joseph Lefebvre (1905-1991), que chegou a fundar uma sociedade católica em oposição às modernizações preconizadas pelo Concílio Vaticano 2º, nos anos 1960.
Rodrigues cunhou o sobrenome de “padre vermelho” para o religioso Hélder Câmara (1909-1999), um dos fundadores da Conferência Vernáculo dos Bispos do Brasil (CNBB) e grande protector dos direitos humanos.
Para Rodrigues, Câmara era um falsário, um “ex-católico”.
Cancelamento?
Esses elementos fariam de Nelson Rodrigues alguém sujeito ao “cancelamento”, em dias de escrutínio popular momentâneo uma vez que hoje?
“Acho que todos os autores que fazem o tratamento da prática humana de forma tão ocasião quanto Nelson fez são sujeitos passíveis de cancelamento. Logo, sim, ele seria”, sentencia Gomes.
“Seguramente sim, seria cancelado barbaramente”, endossa Fischer. “De indumento, ele foi cancelado em seu tempo, sem redes sociais. Ele se queixava, por exemplo, que era o responsável dramático mais censurado, e nunca teve ninguém em seu obséquio.”
O linguista Vicente de Paula da Silva Martins — que também acha que o noticiarista seria cancelado — aponta para um ponto sensível da obra de Rodrigues.
“O que envelheceu mal em Nelson Rodrigues é, sem incerteza, a visão muito problemática que ele tinha sobre mulheres, sexualidade e algumas outras questões sociais que hoje já não cabem mais”, diz Martins, professor na Universidade Estadual Vale do Acaraú.
“Tem coisas que são tão ultrapassadas que até nos fazem levantar a sobrecenho.”
“Mas o que continua atual é a forma uma vez que ele desmantela a hipocrisia humana e a fragilidade das convenções sociais. A luta interna entre libido e repressão, a violência emocional, o jogo de máscaras nas relações.”
“Isso tudo continua muito presente, e, de certa forma, muito atual. Ele tinha um talento único para escancarar o que as pessoas preferem esconder, e, no término, esse desconforto e essa crueza ainda ressoam em muitas das questões que vivemos hoje”, completa.
Embora a obra de Rodrigues seja criticada pelo texto machista, para Fischer, ela contém também críticas à “estrutura patriarcal das elites”, servindo para “interpretar a dominação machista e a submissão das mulheres”.
O sociólogo Rogério Baptistini, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, também aponta para o texto sensível e ao mesmo tempo atual da obra de Nelson Rodrigues.
“Envelheceu mal tudo o que, lido hoje, pode tanger uma vez que naturalização de violência ou uso de estereótipos; mas o que continua atual é o núcleo: a sátira à hipocrisia, a percepção de que o moralismo público convive com a degradação privada, e a capacidade de transformar a família idealizada em laboratório de poder, libido e ressentimento”, assinala Baptistini.
Torres Neto lembra que Rodrigues “gostava do debate público”, não fugindo da “réplica” e da “tréplica”.
Por isso, o professor acredita que o noticiarista “certamente saberia se manter vivo em meio ao debate público com todas as suas ambiguidades e contradições de varão e de responsável teatral”.
Mas é preciso ser desvelo para não tombar no anacronismo, alerta a teatróloga Elen de Medeiros, professora na Universidade Federalista de Minas Gerais e autora do livro “Formulações do Trágico no Teatro de Nelson Rodrigues”.
“Nelson Rodrigues, uma vez que todo mundo, era um sujeito de seu tempo. Acho perigoso e complicado equiparar os tempos e os modos de vida e de compreensão da sociedade, sem tombar em armadilhas”, lembra Medeiros.
“A obra rodrigueana está aí. Ela provavelmente incomoda, talvez às novas gerações mais ainda, porque estamos vivendo tempos de verdades absolutas, de respostas imediatas, coisas a que a dramaturgia rodrigueana se nega a fazer.”
Baptistini concorda: para ele, Rodrigues segue sendo um “responsável incômodo” justamente pela dificuldade de colocá-lo “nos esquemas morais” ou “políticos” do presente.
“Ele se dizia conservador, mas sua obra é uma denúncia implacável da família patriarcal, do moralismo religioso, da hipocrisia da classe média e da violência exercida em nome dos ‘bons costumes'”, avalia o professor.
“Seu olhar não é progressista nem reacionário no sentido contemporâneo: é trágico.”
Entre o moral e o impudico
Montagem de 1947 da peça Vestido de Prometida, com Maria Della Costa encarnando a personagem
Registo Vernáculo via BBC
Elen de Medeiros traz outro adjetivo útil para entender Nelson Rodrigues: era um provocador.
“[Ele] Aponta para a incongruência inerente aos sujeitos, um tanto que existe em todos nós, entre o que está escondido e o que é demonstrado”, explica a teatróloga, para quem a dramaturgia de Rodrigues foi “profundamente transgressora”.
O linguista Vicente de Paula da Silva Martins afirma que a dramaturgia de Rodrigues explora o lado sombrio da psique humana, “onde o sorte das personagens é muitas vezes marcado pela inevitabilidade da tragédia”.
“Aliás, ele misturou elementos cômicos e melodramáticos, criando uma tensão entre o trágico e o sem razão, propriedade de seu estilo único”, explica Martins.
E o olhar aguçado de Rodrigues para os sujeitos mira também a sociedade.
Para Baptistini, Nelson Rodrigues expõe o libido, a culpa e a peta “uma vez que forças estruturantes da vida social brasileira” — o que faz da obra dele universal.
“Pois toda sociedade organiza seus conflitos a partir de recalques, silêncios e interditos”, explica o sociólogo.
Por isso, diz Torres Neto, a obra do noticiarista continua atual.
“Talvez o Brasil que é representado nas suas peças tenha envelhecido, porém o humano com seus dilemas, aflições e conflitos continua lá para ser reapresentado às novas gerações”, comenta.
Mas a suposta imoralidade retratada em sua obra e a moralidade defendida pessoalmente por Rodrigues pode tanger confusa para os novos leitores.
Esse paradoxo é justamente um dos “ingredientes mais importantes” da obra, diz Luís Augusto Fischer.
“Obsceno por ter abordado muitas situações de traições em casamentos supostamente monogâmicos, assim com por ter trazido para dentro do enredo coisas tidas uma vez que inaceitáveis, uma vez que por exemplo em ‘Os Sete Gatinhos’, em que um pai de família agencia suas filhas uma vez que prostitutas”, aponta Fischer, responsável do livro “Perceptibilidade com Dor: Nelson Rodrigues Ensaísta”.
“E moralista porque o fundo ético de seus enredos faz, no fundo, uma resguardo meio desesperada da pureza, da monogamia, da fantasia do paixão único para sempre.”
Gomes endossa que temas uma vez que a homossexualidade, a representação feminina e as fantasias sexuais foram usados por Rodrigues “a serviço de uma perspectiva que, no término das contas, era regressiva, moralista e tinha uma vez que término pedagógico a teoria de uma sexualidade limpa”.
“Nesse sentido, o temário de Nelson Rodrigues não emula a liberdade. E isso fica evidente no tratamento que se dá a ele ao longo da obra”, destaca o professor.
“Mas enfatiza, ainda que subrepticiamente, a teoria de família, de sexualidade, de feminilidade ou de masculinidade alinhadas a uma visão conservadora da existência.”
O último domingo
Em seguida uma longa curso na prelo e na dramaturgia, Rodrigues ainda teria uma experiência interessante na TV.
Pouco tempo depois da TV Orbe ser fundada, nos anos 1960, ele integraria a bancada do programa Grande Resenha Esportiva Facit, considerado a primeira mesa-redonda sobre futebol da televisão brasileira.
Ele já era um nome consagrado do jornalismo e da dramaturgia brasileira nos anos 1970. Mas a saúde estava debilitada — Rodrigues viveu os últimobs anos lidando com problemas gástricos e cardíacos.
Ao mesmo tempo, atuava uma vez que historiador em O Orbe, não raras vezes defendendo o regime militar e criticando a oposição.
“A maior desgraça da democracia é que ela traz à tona a força numérica dos idiotas, que são a maioria da humanidade”, declarou.
Nos últimos anos de vida, o dramaturgo havia voltado a viver com a primeira mulher, Elza Bretanha.
Mas a saúde dava sinais de que não iria sustentar muito.
E aquele que disse que “o sábado é uma ilusão”, morreu em uma manhã de domingo, 21 de dezembro de 1980. Do coração.

Fonte G1

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