Em entrevista recente, Taís Araujo evitou criticar Manuela Dias, autora do remake de “Vale Tudo”. Questionada sobre a despolitização do remake em confrontação à romance original, disse que não cabia a ela julgar as escolhas da roteirista, mas sim fazer a melhor Raquel provável. Segundo a atriz, se pensasse só nas críticas, não conseguiria trabalhar.
Semanas depois, no entanto, o tom mudou. Em conversa com a revista Quem, Araujo demonstrou tristeza e fez duras críticas aos rumos de sua personagem, que volta à pobreza depois de um breve momento de subida social. Ela contou ter se surpreendido ao desenredar que Raquel voltaria a vender sanduíches na praia —alguma coisa que não acontece na versão original. “Entendi que era uma escolha da autora, e meu papel era seguir em frente e recontar essa secção da história.”
Na trama, Raquel havia conquistado R$ 1 milhão em um reality show, investido na sua empresa de catering, a Paladar, e firmado sociedade secreta com Celina Junqueira. Mas a revelação da parceria a Odete Roitman resultou na compra e no fechamento da empresa.
Endividada, a protagonista perdeu tudo e decidiu reiniciar do zero, vendendo sanduíches na praia. No capítulo desta quarta-feira, reencontrou Heleninha, ex-mulher de seu namorado, no mesmo ponto onde sua trajetória havia começado no Rio de Janeiro.
O retorno à estaca zero causou frustração no público, que esperava ver Raquel se tornar a mulher poderosa da primeira versão da romance —quando interpretada por Regina Duarte. Nas redes, muitos apontaram que o círculo reforça a teoria de que mulheres negras não podem conseguir segurança ou poder perdurável. A própria atriz disse ter sentido essa logro.
“Eu gostaria muito que a Raquel tivesse uma curva ascendente, poderosa, que a guerra dela fosse outra e não a guerra pela sobrevivência. Para além das histórias que a gente conhece, a ficção, ela serve para a gente se sentir provável, para sonhar. Ela tem um trabalho de responsabilidade, sim, na construção da narrativa, de um país. E uma vez que o país entende um povo”, disse a atriz à revista Quem.
Ironicamente, não é a primeira vez que Dias escreve uma personagem que perde tudo para a atriz. Em “Paixão de Mãe”, de 2019, também escrita pela autora, Araujo viveu Vitória, advogada de sucesso que, ao longo da trama, foi levada à ruinoso financeira e pessoal, terminando uma vez que modista no subúrbio. Em ambos os casos, a trajetória de mulheres negras interpretadas por Araujo seguiu uma lógica de perda e rebaixamento social, numa aparente romantização da pobreza pela autora.
O incômodo da atriz —e do público— toca em uma questão medial sobre representação —não basta multiplicar papéis de destaque para atores negros, é necessário prometer autoria negra na geração dessas histórias. A Orbe vem investindo em protagonistas negras em todas as faixas de horário, mas a iniciativa esbarra no limite de narrativas escritas majoritariamente por autores brancos.
A subida de Raquel, seguida da queda, ecoa um ciclo espargido por muitos —a sensação de que, por mais esforço e talento, sempre há um teto imposto às trajetórias negras.
A autora bell hooks, em seu livro “Olhares Negros: Raça e Representação”, alertou para o risco de produções brancas reforçarem estereótipos ao moldar personagens negros. Já Stuart Hall lembrou que a representação nunca é neutra —carrega significados sociais e políticos. Por isso, levar Raquel de volta à praia não é exclusivamente uma decisão de roteiro, mas um símbolo de contenção de possibilidades.
Sueli Carneiro amplia essa reflexão. Segundo ela, o poder de narrar é tão decisivo quanto o de desabrochar. A presença de protagonistas negras não rompe estruturas racistas se não houver também a mão negra na escrita, disputando sentidos do que significa prosperar e permanecer no topo. Carneiro labareda esse apagamento de “epistemicídio” —quando vozes negras não escrevem suas próprias histórias, prevalece a visão da branquitude, ainda que personagens negros ocupem o meio da cena.
Araujo chegou a expressar a esta repórter que foi um equívoco não pensar Helena, sua personagem de “Viver a Vida” duramente criticada na era, a partir do paisagem racial. Raquel parece ser uma novidade oportunidade perdida.
