Ninguém se divertiu mais em 'vale tudo' do que odete

Ninguém se divertiu mais em ‘Vale Tudo’ do que Odete – 06/10/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

A boa notícia é que Odete morreu. Oferecido o histórico de alterações promovidas em relação à trama original, havia o temor de que Manuela Dias decidisse manter a vilã de “Vale Tudo” viva. Aparentemente, pelo que se viu na noite desta segunda-feira (6), a autora respeitou o libido de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères.

Escrevo “aparentemente” porque, diante do furor iconoclasta que moveu a autora nestes mais de seis meses, ainda temo que Odete reapareça viva, tomando dry martini e sassaricando com um garotão sarado em alguma ilhéu grega no último capítulo. Vai que…

A “Vale Tudo” original mostrou um Brasil vivendo uma crise socioeconômica e moral de grandes proporções. Enquanto Raquel teimava em se manter em traço reta, defendendo a teoria de que valia a pena ser honesta, Odete se destacou ao mostrar que a anelo da heroína beirava o ridículo. Com seus maus modos, preconceitos, ofensas e vilanias, Odete gerou um desconforto que poucas vezes se viu igual numa romance exibida pela Orbe. A personagem entrou para a história.

A novidade versão abandonou em grande secção esta tensão entre honestidade e vale tudo para se dar muito, e investiu na representação de um país imaginoso, sem conflito de classes nem falta de grana. A personagem falou muitas barbaridades, mas mudou radicalmente. No final das contas, os únicos lampejos de política no Brasil de “Vale Tudo” aparecem na início. A romance foi totalmente despolitizada.

A novidade Odete deixou para trás o tom rascante e tremendo que marcou para sempre a curso de Beatriz Segall. Porquê se tivesse tirado uma revestimento chique que cobria a personagem, Debora Bloch foi uma vilã que, metaforicamente, bebeu caipirinha e caiu no samba.

A Odete de Debora foi a personagem mais feliz de “Vale Tudo”. Transou praticamente em todos os capítulos com quem ela escolheu. Empoderada, sexy, sacana, esta Odete 2 se divertiu do início ao término. Não sobrava muito tempo para planejar suas vilanias, o que explica as inúmeras ações mal ajambradas que promoveu.

Não espanta que, que 86% dos espectadores, segundo o Datafolha, tenham dito que gostariam de ver Odete punida, mas exclusivamente 4% queriam a morte da personagem —47% gostariam de vê-la pobre e 35% preferiam que ela fosse presa.


Em 1988, quando o Datafolha fez esta mesma pergunta aos paulistanos, a morte da personagem foi desejada por 38% dos entrevistados, enquanto 20% queriam que ela fosse para a prisão e 14% que ficasse na miséria.

“Eu também fiquei apaixonada pela Odete. Portanto, realmente, deu dó [matar a personagem]”, disse Manuela Dias ao “Fantástico”. “Odete é altamente viciante”, disse a própria personagem, sem nenhuma simplicidade, no conjunto que antecedeu sua morte.

Desta vez, pelo menos, o capítulo não abusou da paciência do testemunha com a inserção de ações comerciais em número exagerado e mal colocadas. Essa é uma reclamação justa – faltou talento e desvelo em muitas publicidades. Mas ainda há de nascer o responsável com o poder de vetar a inclusão de um pregão de sabão em pó numa cena de doença.

Vários personagens acordaram com o libido de matar Odete no capítulo desta segunda-feira. Maria de Fátima comprou uma arma e aprendeu a atirar em dois minutos. Marco Aurélio se mudou para o Copacabana Palace. Olavo revelou ser um “fuzileiro sniper”. Celina inventou uma desculpa para visitar a mana. César arrumou um revólver, sabe-se lá uma vez que. Heleninha também deu as caras no hotel. Quem matou Odete Roitman? A esta profundeza, não importa tanto.

Não considero que Manuela Dias tenha traído Gilberto Braga com esta versão. Num momento em que a Orbe atira em todas as direções, investindo recursos até na geração de uma romance com episódios de dois minutos para exibição em redes sociais, levante remake parece adequado aos dias de hoje: cenas curtas, diálogos simplórios, tramas superficiais e menos preocupação com o conclusão.

No ano em que completa 60 anos, a Orbe sonhava exibir números robustos de audiência e publicidade. Os dados do Ibope não são empolgantes, mas não deixaram a emissora passar vergonha. Sobre o sucesso mercantil, não há o que questionar.

A verdade é que as novelas nesta terceira dezena do século 21 são um resultado completamente dissemelhante do que eram nos anos 1980 e 1990. Em vez de reclamar com Manuela Dias, sugiro falar com a direção da emissora.

Folha

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