A cobertura de “Congénere”, segundo álbum solo de Zé Ibarra, traz uma imagem crua, íntima, vulgar: o músico sem camisa, escovando os dentes, com espuma em torno da boca, supostamente olhando para um espelho que não aparece no quadro.
“Pra muitos, essa cobertura é um horror”, comenta o artista. “Eu estava entrando num modo que todo mundo entra hoje em dia. Me vi, nesses últimos anos, hiperparanoico com a minha imagem. Pensei: ‘Quero botar na cobertura a imagem que eu não quero ver de mim, que as pessoas não querem ver de mim. Sem filtro, livre de manipulação e de algoritmização”.
Ele mesmo, porém, pondera, numa torção maliciosa em seus próprios argumentos: “Apesar disso, sei que é uma imagem icônica, o que também é bom pro algoritmo de alguma forma. E evidente que eu tô gatinho ali também”.
A foto e a reflexão de Zé Ibarra sobre ela tocam nas questões centrais que motivaram e que se mostram nas oito faixas de “Congénere”. Num primeiro projecto, está ali o libido de tematizar —ainda que indiretamente em muitas canções— o mal-estar contemporâneo com a própria imagem e a forma porquê os relacionamentos têm se construído. Ambos problemas partem de um mesmo lugar, acredita o cantor.
“A gente se relaciona não porquê entes vivos, mas porquê produtos. E o artista ainda mais”, avalia Ibarra. “E eu comecei a sentir que eu estava consumindo as pessoas também. Costumo falar, brincando: ‘Eu não me relaciono, eu consumo gente’. E sou consumido. Só que isso é uma coisa horrorosa. ‘Congénere’ também é uma vontade de transpor desse lugar.”
Ibarra chega a definir esse estado contemporâneo porquê “o termo do paixão”, frase que depois ajusta para “o termo dos sentimentos”. “O termo do paixão é muito potente”, justifica. “Só pode viver sentimento quando tem relação. Mas a gente não se relaciona mais recta. Não só com outros seres humanos, mas também de estar no mato e sentir aquela coisa magnânima, sentir paixão por aquilo.”
Mesmo a teoria da não-monogamia, ao olhar de Ibarra, aparece muito mais porquê sintoma do que porquê resposta a essa situação. “É uma das grandes promessas do descompromisso. E das mais falaciosas, eu caí nelas”, reflete o compositor. “O descompromisso aparece travestido de liberdade. Tipo: ‘Eu posso, eu faço, eu sou, eu não preciso de ninguém’. Isso é uma maluquice, tá tudo inverídico. Fica todo mundo querendo uma despretensão, se sentindo super claro de si, livre e poderoso. Mas, na verdade, é só um deserto de afeto travestido de um empoderamento de si. Porque a gente precisa dos outros.”
Para além de um pensamento sobre os afetos do mundo, “Congénere” também nasce de uma motivação de Ibarra redefinir —tanto músico quanto existencialmente— a maneira porquê sua figura artística é projetada e percebida. “Desde que comecei a tocar com o Milton Promanação, construí uma imagem que deu muito claro, mas na qual eu estava me sentindo um pouco claustrofóbico”, explica o artista. “Uma coisa do cantautor, e do tradutor também, de violão e voz, que eu adoro fazer. Mas minha núcleo sempre foi filarmónica, sempre foi rock progressivo, sempre foi panelinha, sempre foi um pouco mais grandiloquente. No Projéctil Libido consegui fazer isso de alguma forma.”
“Congénere”, identifica Ibarra, traz uma ração de veneno. “Tem uma sacanagem, uma safadeza, que eu queria colocar e nunca tinha disposto. Na vida, sou meio ácido, meio vagabundo. E a minha persona do ‘Marquês 256’ era a coisa menos vagabunda provável”.
No disco, essas ideias e desejos se materializam em canções porquê “Infinito em nós” —um sambalanço que ele diz que “ainda é super romântico, mas tem um veneninho”— e “Essa confusão” —parceria com Dora Morelenbaum de onde ele extraiu o título do álbum, a partir dos versos “Você sabe ser assim/ Difícil pra mim/ Mas repito/ Quero te fazer permanecer a termo”.
Outra cantiga médio é “Transe”. Segundo o próprio Ibarra, é a que melhor sintetiza seus interesses no disco. Musicalmente, pela maneira porquê equaciona jazz e pop. Ele cita, não por contingência, artistas porquê Preto Leo e Tyler, The Creator entre os que mais o interessam hoje.
Além das próprias canções, Ibarra pinçou também composições de outros compositores e compositoras de sua geração. De Maria Beraldo, gravou “Da Menor Valor”, dos versos “Enquanto eu não ouço sua voz/ Eu não sei proferir se é um varão ou uma mulher”.
“A questão queer é uma das grandes revoluções da nossa era, uma das coisas mais lindas do mundo”, diz o artista. Sophia Chablau entrou com “Sigilo”, que se afina com a não moralidade, com a “safadeza” que ele queria para “Congénere”. Ela também assina “Hexagrama 28” —do verso “E essa música não tem zero a ver com paixão”, principalmente simbólico no contexto de “Congénere”.
Há ainda Tom Veloso (“Morena”) e Ítallo França (“Retrato de Maria Lúcia”), que se comunicam de maneira mais nítida com o caminho de Ibarra anterior a “Congénere”. Sinais de que, além de inaugurar novas perspectivas, o disco faz gestos de reaproximação com claro eixo original do artista.
“Eu não estava muito muito quando fiz o disco, a cabeça ruim demais”, lembra Ibarra. “Teve um ano que eu fiz muitos shows, 130, 140, o que me deu uma saturada. Me sentia meio longe da música e acuado na minha persona artística, por mais que o Projéctil seja um grande paixão. Logo eu fiz esse álbum pra permanecer a termo de novo da música. Foi muito difícil pra mim, quase não lancei. Logo, ‘Congénere’ tem esse lado, além dessas ideias sobre a morte dos sentimentos, os algoritmos, o eu-mercadoria. Ou seja, é contra isso tudo.”
