Fazia tempo que uma personagem não trazia a Julia Roberts tanta repercussão —e tantos elogios— porquê Psique, a professora em crise que interpreta em “Depois da Caçada”, que estreia nesta quinta-feira. E, no entanto, foi com perceptível conforto que a atriz se despediu do papel.
“Psique e eu passamos mais do que o tempo suficiente juntas”, disse Roberts, no Festival de Veneza, no mês pretérito, quando o longa do italiano Luca Guadagnino estreou mundialmente. “Em alguns dias, eu me divertia com ela. Mas, em outros, Psique significava para mim uma luta exaustiva.”
Esse embate extenuante entre atriz e personagem é compreensível, porque encontrar o tom para interpretar Psique não há de ter sido fácil —em cena, ela sofre pressões de todos os lados e tem ainda um pretérito sombrio a enfrentar. É uma professora de filosofia que ocupa um posto de prestígio na Universidade Yale, nos Estados Unidos. Elege a dedo seus orientandos e diz só escolher os brilhantes —embora o marido lhe jogue na faceta que sua preferência seja pelos que reforçam seu narcisismo.
E talvez ele tenha razão, porque a atual discípula de Psique é Maggie, vivida por Ayo Edebiri, uma jovem lésbica, negra, que idolatra a orientadora, mas que levanta suspeitas de estar cometendo plágio em sua dissertação. E é um dos grande amigos de Psique, o também professor Hank, interpretado por Andrew Garfield, quem tenta dar uma apertada em Maggie para saber a verdade.
Mas um dia ele bebe demais e faz mais do que “estreitar” a moça, e a jovem o acusa de estupro. Não fica simples o que realmente aconteceu, mas Hank nega, e ambos pedem a Psique ajuda no processo penal.
Enquanto tenta agir com estabilidade, apesar das cobranças dos dois lados, a professora se vê diante de dilemas entre demandas de um feminismo mais contemporâneo e sua própria visão de mundo, que ela forjou ao longo de sua atribulada vida. E ainda lhe surge um problema suplementar, quando vêm à tona segredos do pretérito que têm certa relação com o caso.
Expondo conflitos entre o que defende a geração woke e um progressismo mais tradicional, “Depois da Caçada” gerou muita discussão em Veneza, inclusive com algumas feministas torcendo o nariz, chiando pelo indumentária de o filme trazer duas mulheres em confronto, em uma situação que deveria uni-las —o insulto sexual. Mas Roberts diz que o temor diante da possibilidade de reações extremas lhe foi excitante.
“Eu acho que você tem que ter susto. Se não tem, você está confortável além do que deveria no mundo da arte. E é por isso que você deixa o aconchego da sua própria moradia para ir a lugares desconfortáveis”, ela diz.
“Eu tento sempre encontrar um pouco dissemelhante nos personagens que eu escolho. O que, simples, fica mais difícil quanto mais papéis você interpreta. Mas também fica mais interessante quanto mais velha você fica. Porque seu ponto de vista e seus recursos se tornam muito mais vastos”, diz, ressaltando em seguida que, apesar da experiência acumulada em seus 57 anos de vida, a crédito em Guadagnino foi fundamental. “Se meu navio começava a desviar do curso que definimos, ele gentilmente me guiava de volta, para onde sabia que deveria ir.”
O diretor diz considerar o longa uma espécie de “thriller moral”. “É sobre o que está por trás da frontispício dos personagens e de porquê eles vão tentar continuamente eclipsar, com sua própria perspectiva da verdade, a perspectiva da verdade dos outros. O filme foi criado para explorar muitos detalhes nesse sentido, mas tentando também expor o que não é dito, para além do que as pessoas tanto falam.”
Dois dos filmes mais conhecidos de Guadagnino, “Me Chame pelo Seu Nome”, de 2017, e “Queer”, do ano pretérito, traziam de perceptível modo personagens de gerações distintas que procuravam se entender, apesar da diferença de idade. Desta vez, porém, existe mais marcadamente um conflito de visões, com cada geração tentando impor a sua.
“O filme é sobre o que acontece quando alguém quer falar uma verdade subjetiva, e o quanto o outro está disposto a ouvi-la. É porquê um jogo de poderes, e isso é o que me interessou no material”, diz, sobre o roteiro da estreante Nora Garrett.
Mas o diretor não crê que se trate exatamente de uma guerra geracional. “Acho que sempre há a premência de a geração mais jovem tentar superar aquela que a antecedeu. Creio inclusive que é uma situação saudável e importante. E acho que furar um diálogo com alguém que possa ter outra perspectiva é vital. Permite-nos ver as coisas de um ângulo dissemelhante. Palato de pensar que o filme é uma espécie de cabo-de-guerra, mas em que uma pessoa qualquer tenta prevalecer sobre a outra, muito mais do que propriamente uma disputa geracional”, explica Guadagnino.
Conhecida por seu papel porquê a chef Sydney na série “O Urso”, Ayo Edebiri, que no longa dá vida à estudante que diz ter sido estuprada, concorda com o diretor sobre a premência de interlocução entre as gerações.
“Vai requerer muito trabalho —e trabalho sério. Eu sei que preciso fazer minha segmento, outros grupos terão que fazer a deles. E mesmo quem acha que já fez sua segmento também vai ter que trabalhar nesse sentido”, diz Edebiri, sobre uma provável “conciliação” entre gerações com pensamentos diferentes, mas unidas por um libido de progressismo.
“Precisaremos estabelecer muitas conversas, por mais tediosas, desagradáveis e repetitivas que possam parecer. Mas vamos todos ter que reprofundar nessa vasa. Vai ser rente, mas o ponto é esse: precisa ser repugnante para que um pouco verdadeiro saia dessas interlocuções.”
Andrew Garfield, que interpreta o professor indiciado de estupro, ressalta que um dos grandes acertos do roteiro é evitar vilanizar ou santificar demais quem quer que seja. “O roteiro faz isso maravilhosamente: não coloca ninguém unicamente porquê a vítima, o vilão ou o herói. Assim, mostra a cada testemunha um espelho para que ele reconheça a si mesmo, que reflita sobre sua relação com sua própria vilania”, diz o ator, que em seguida pontua, rindo: “Mas deixo simples que não estou dizendo que meu personagem não seja um vilão!”
“Depois da Caçada” é um filme com muitos diálogos, vários deles trazendo menções a conceitos filosóficos, o que pode fazer alguns espectadores se dispersarem de vez em quando. A própria Julia Roberts diz que pediu ajuda para a filha para a elaboração de Psique —nem tanto para saber as visões de mundo de outra geração, mas um auxílio para melhor reprofundar no universo intelectual da personagem.
“Minha filha é formada em filosofia, logo eu pedi para ela ler o roteiro. Perguntei se aquela professora parecia crível, e felizmente ela meu deu o sinal virente”, diz a atriz. “É que eu quis ter uma compreensão mais profunda do que eu estava apresentando. Todos aqueles ensinamentos filosóficos em sala de lição… Você tem que entender o que está falando. E essa linguagem é tão pessoal, com jargões próprios. Ser professora é profundamente significativo para Psique, ela realmente governanta desvendar o quebra-cabeça nas mentes dos alunos jovens e ajudá-los a entender o mundo.”
Mas não é só em palavrório que o filme se estrutura: há também bastante música. E Guadagnino, porquê já havia feito em “Queer”, com Caetano Veloso, recorre a algumas vozes brasileiras no novo longa. E a escolha por vezes tem a ver com o que a própria letra diz, mesmo em português, ainda que o longa seja falado em inglês.
“O filme quer que uma reconciliação aconteça, e não é à toa que a música que aparece ali muitas vezes, de Antonio Carlos Jobim [na verdade, de autoria de Carlos Coqueijo e Alcivando Luz], é ‘É Preciso Perdoar’. Porque o perdão é importante, e o longa é também sobre isso. Há ali uma espécie de premência de entender o outro. Acho que é um filme muito esperançoso.”
