Gabriel Domingues tem certeza de que vencerá o Oscar de melhor direção de elenco, ao qual concorre por “O Agente Secreto”. Responsável por selecionar os atores que hoje compõem o filme de Kleber Mendonça Fruto, ele diz que a vitória seria só mais um passo em uma série de conquistas que já lhe parece surreal.
“Vim de Jacarepaguá [bairro do Rio], tenho feito um esforço enorme e cheguei até cá. Só posso pensar que vou vencer”, afirma ele, que recentemente foi várias vezes para Novidade York e maratonou debates para promover o longa. Ao justificar o otimismo, ele cita ainda uma curiosidade —dissemelhante dos adversários de categoria, boa secção dos intérpretes que dividem a tela com Wagner Moura são desconhecidos nos EUA.
“Muitos são uma completa novidade. Isso fortalece a mitologia do ineditismo que a Ateneu quer trazer com a categoria.” Ainda que a curiosidade americana pelo Brasil tenha sido reforçada por “Ainda Estou Cá”, que trouxe ao país o seu primeiro Oscar, muitos dos artistas surpreenderam os próprios brasileiros.
Ele mesmo, que trabalhou com cineastas porquê Gabriel Mascaro, escreveu filmes porquê “Baby” e já viu a profissão ser confundida com a de preparadores de elenco, ganhou muita projeção nos últimos tempos.
Outro caso evidente é o de Tânia Maria, de 79 anos, que foi de figura alheia ao show business hollywoodiano à garota-propaganda de marcas porquê o Burger King. Modista e artesã, ela foi invenção pela equipe de Mendonça Fruto ao longo das filmagens de “Bacurau” e aparecerá, outrossim, em “Yellow Cake”, distopia pátrio, com estreia programada para oriente ano, exibida no Festival de Roterdã.
Em sessões de “O Agente Secreto”, a indiscrição de sua personagem, junto à clemência de quem arrisca a vida para salvar vítimas da ditadura, caiu nas graças do público e da sátira. Já na internet, a atriz viralizou ao confrontar o papel com traços pessoais, que enquadra entre o libido de ajudar e o mal-humor eventual.
Os louros do elenco, todavia, não se resumem à artista, que há poucos meses sequer tinha ouvido falar no prêmio audiovisual. “O filme reúne personagens muito densas, pelas quais muitos têm sido hipnotizados. Tem sido hilário escoltar o público elegendo os seus favoritos, muito diferentes uns dos outros”, diz Domingues, que entende o grupo porquê uma espécie de constelação de origens, costumes e sotaques.
Para ele, inclusive, a falta de flutuação pode explicar a carência de “Valor Sentimental” —que recebeu três indicações a mais que “O Agente Secreto” unicamente nas categorias de interpretações individuais— na disputa de melhor direção de elenco, que conta ainda com títulos porquê “Marty Supreme” e “Pecadores”.
“Apesar das atuações excelentes, as personagens de Joachim Trier são mais parecidas mais entre si. No nosso caso, temos uma refugiada portuguesa, uma dentista pernambucana, um frentista pernambucano e por aí vai. É uma gama vasta, e cada ser traz uma história mais absurda do que a outra.”
Entre rostos porquê o do mineiro Carlos Francisco —colaborador de diversos realizadores independentes e quase onipresente no calendário brasílio— e o da potiguar Alice Roble, estrela da série “Cangaço Novo” e bastante elogiada por sua única cena no longa indicado ao Oscar, outro ator que virou figura carimbada nas notícias é o cearense Robério Diógenes, que dá vida ao duvidoso solicitador Euclides.
Longe de ter o salafrário porquê primeiro papel de sua curso, mas longe do eixo Rio-São Paulo, Diógenes abriu mão de se malparar em um teste de elenco na quadra em que “Bacurau” foi filmado. Anos mais tarde, decidiu tentar a sorte com a produção da vez e foi recompensado por suas credenciais teatrais.
Segundo Domingues, o que saltou aos olhos foi o flerte do artista com a comédia e a palhaçaria, que trouxe a ele os atributos necessários para dar vida a um varão que, nas palavras de Mendonça Fruto, tinha de ser bruto e absolutamente patético.
São condições quase opostas às que determinaram a seleção de Kaiony Venâncio porquê um matador de aluguel, que em certa fundura é recrutado por mercenários cariocas. Dos ensaios às salas de cinema, a performance se destaca pela incoerência —por trás do sangue insensível, o criminoso anda pelas ruas com olhar pacífico e calcula seus passos com toda a calma do mundo.
Diante desse universo vasto em personagens, o diretor de elenco destaca a riqueza de sotaques presente em “O Agente Secreto”. Se, por um lado, a filmografia de Mendonça Fruto referencia americanos porquê John Carpenter, por outro também labareda a atenção pela polifonia pátrio.
Entre ouvidos americanos, distantes desse repertório de maneira universal, Domingues afirma confiar que a multiplicidade de vozes não provoca estranheza. Já em solo brasílio, onde a concentração de produções realizadas no Sudeste se mantém porquê verdade, tal vista pode subverter uma oralidade hegemônica.
Não por casualidade, quando críticas negativas sucederam a primeira sessão paulistana de “O Agente Secreto”, alguns usuários disseram que “sudestinos tinham menos motivos para se conectar com o filme”. Outros, por sua vez, evitaram generalismos e reforçaram a valimento de se evidenciar outras regiões brasileiras.
“Os sotaques adicionam significados metafóricos. Eles geram identificação e são importantes para o exposição do filme, que também tem chamado muita atenção por conta de suas pretensões políticas.”
Apesar dos diálogos da quadra representada por Mendonça Fruto com as políticas agressivas de Donald Trump, a sonância de títulos internacionais no Oscar exige campanhas de custos altíssimos. A vitória do longa e de Wagner Moura —de quem trabalho internalizado, diz Domingues, demonstra primazia junto de coadjuvantes expansivos— em cerimônias porquê o Mundo de Ouro tem ampliado investimentos da Neon, e a distribuidora do longa.
“Estou triste com a graduação industrial que é fazer um ignoto porquê eu viver publicamente”, afirma Domingues. “Todos os esforços para o reconhecimento dessa potência artística, que reúne a força humana que faz uma produção sobrevir, estão sendo feitos.”
