[RESUMO] Jornalista nascido e criado no Recife revisita detalhes de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Rebento, reunindo lembranças de puerícia e contexto histórico. Em meio a cenas no aeroporto dos Guararapes, a diálogos com léxico pernambucano e ao conjunto Pitombeira dos Quatro Cantos, mostra porquê segmento do filme se torna mais magníloquo para quem é familiarizado com o lugar.
Em glosa sobre “O Agente Secreto”, Arthur Nestrovski chamou a atenção para a profusão de detalhes do filme e observou que cada um deles tem uma “fardo de significados”. Entre tantos, escreveu o crítico, há “os que a gente capta e os que só capta quem viveu no Recife há 50 anos”.
Depois, o jornalista David Remnick, editor da revista The New Yorker, em meio a rasgados elogios ao longa-metragem de Kleber Mendonça Rebento, disse à Folha: “Sei, no fundo, que o público brasílico está captando coisas, referências, pedaços de linguagem, música, que me escapam. É isso que significa estar perdido na tradução”.
Quanto de um filme só é captado por quem é familiar àquele universo? E o quanto isso importa? Embora convicto de que um dos encantos da experiência cinematográfica —da reparo de qualquer obra de arte— seja justamente o estranhamento, as conjecturas e reflexões proporcionadas pelo incógnito, não tenho porquê desprezar a força da segmento que me toca.
Nasci e cresci no Recife. No Carnaval de 1977, quando se passa “O Agente Secreto”, eu tinha 4 anos —faria 5 logo depois. Uma vez que a puerícia é o firmamento da memória, quase tudo no longa me é profundamente familiar —a paisagem, o vocabulário, o sotaque, o envolvente, a cenografia, o espírito. A ponto de ser inevitável que eu precise ortografar sobre ele.
Não se trata de uma resenha. São notas que misturam memória com referências históricas, reportagem com lirismo, tentativa com fantasia.
Ao longo do texto a seguir há spoilers (a maioria inofensivos, mas não custa alertar).
Em primeiro lugar, a remontagem do Recife de 1977 é primorosa, valorizada pela direção de arte de Thales Junqueira, pelo figurino de Rita Azevedo e pela opção de Kleber Mendonça de filmar com câmeras digitais que simulam película e alcançam cores e textura granulada semelhantes às dos anos 1970.
Um dos pontos altos dessa arqueologia são as cenas no aeroporto dos Guararapes, num terminal daquele tempo em que observar pousos e decolagens do mirone no primeiro marchar era uma alegria nas idas até lá para buscar ou levar alguém.
O destaque, ali, é o mural de Francisco Brennand. Primeira obra do tipo em cerâmica feita para um espaço público, dentre tantas que o genial artista criaria ao longo de uma extensa trajetória, “Sinfonia Pastoral”, de 1958, retrata cenas da vida rústico em cores saturadas.
Quando o novo terminal do aeroporto entrou em operação, nos anos 2000, aposentando o idoso, o quadro de Brennand foi transferido, mas hoje está com visibilidade restrita, na dimensão de embarque e desembarque.
Anunciou-se a demolição do velho terminal, criticada por arquitetos e especialistas em patrimônio, para quem ele formava um conjunto modernista com a terreiro em frente, projetada por Burle Marx. Nele ficaram outros murais de grande valor artístico de Lula Cardoso Ayres, e a concessionária do aeroporto informou que os restauraria e os colocaria em exposição ao público na dimensão de convívio de um terminal de integração que está sendo levantado.
O Recife é uma cidade antiga, a capital mais antiga do Brasil. Em 12 de março, completará 489 anos. Sua irmã-vizinha Olinda é ainda mais velha –no mesmo dia, soprará 491 velinhas.
A capital pernambucana tem o jornal mais idoso em atividade do país (o Quotidiano de Pernambuco, que acabou de completar 200 anos), muito porquê o restaurante mais idoso em um mesmo endereço (o Leite, de 1882), ambos já retratados em filmes de Kleber Mendonça –o primeiro no “Agente Secreto”, o segundo em “Aquarius” (2016)–, um cineasta para quem a preservação da memória de uma cidade é vital para fortalecer sua história e cultura.
Seu trabalho costuma iluminar espaços em extinção e resgatar outros já extintos. No longa que concorre ao Oscar, surge outro desses lugares. O restaurante Dom Pedro, que provavelmente Kleber conheceu quando trabalhava no Jornal do Commercio, pois o estabelecimento de culinária portuguesa funcionava na rua do Imperador, quase ao lado da antiga Redação do quotidiano, que fechou as portas em 2024, depois 57 anos –foi fundado em 1967 por um imigrante português que já trabalhara no Leite.
Pois o Dom Pedro renasceu em “O Agente Secreto”: foi a locação para o jantar infernal de Armando (porvir Marcelo, Wagner Moura) e sua mulher, Fátima (Alice Roble), com o vilão Ghirotti (Luciano Chirolli) e seu fruto Salvatore (Gregório Graziosi).
Mas reconstrução histórica é feita também de detalhes menos perceptíveis que um mural ou um restaurante. Os que mais me deleitaram no filme não foram os óbvios, porquê os retratos de Geisel nas repartições, mas os sutis: a alpercata de Marcelo na já célebre lhaneza do posto de gasolina; a carona do garoto Clóvis (Robson Andrade) no estribo do Fusca (era uma delícia); os garrafões de chuva mineral de vidro (dominantes na era, em qualquer momento depois dos anos 80 passaram a ser de plástico); a camiseta de Universitária Banorte —programa de reconhecimento acadêmico promovido por um dos maiores bancos regionais da era— vestida por uma empregada doméstica possivelmente iletrada, refugo-doação dos patrões…
O realismo que atiça o imaginário infantil pode valer para aspectos exclusivamente pernambucanos e para outros nem tanto. É sempre difícil discernir com exatidão o que é único da nossa família —ou seria de nossa cidade, nossa região, nosso país, nossa era?
Logo no início do filme, uma gaiato (Débora, filha de Cláudia/Hermila Guedes) surge com um ornamento estranho para uma rapariga. “Esse lenço na cabeça, que é isso?”, pergunta dona Sebastiana (Tânia Maria). “É pra matar piolho, ela pegou na escola”, responde a mãe.
De vestimenta, naquela era as crianças no Recife tinham muito piolho. Não lembro de ter usado lenço, minhas irmãs e primas certamente sim. Tratávamos com Pruritrat (parece que não existe mais), sabonete ou shampoo. Era tudo meio rés e repugnante, mas, tal qual a do bicho de pé, a pruído intensa provocada pelo sevandija às vezes dava uma sensação de conforto, porquê expressar…, gostosa.
Principalmente no Carnaval, as crianças brincavam de molhar todo mundo com “bombas” d’chuva artesanais. Eram feitas com canos de PVC, e o êmbolo, de cabo de vassoura e nacos de sandálias havaianas. Iguaizinhas às usadas na cena em que Marcelo está chegando de Fusca ao prédio Ofir, o predinho dos “refugiados”.
Nem tudo é fantasia. Resquício persistente da escravidão, empregadas domésticas são onipresentes no filme —porquê no Recife de ontem e de hoje.
Mesmo a classe média em situação fragilizada, os habitantes do prédio Ofir, não abre mão delas. Uma vez que as duas que surgem numa cena almoçando na escada de serviço do prédio.
Ou mesmo Clóvis —o menino desdentado que “chegou mês pretérito de Rio Formoso, fugido do pai e do tio, [que] querem porque querem que ele seja varão” (na apresentação de dona Sebastiana)—, que faz serviços domésticos em troca de moradia, mas não estuda.
Também a empregada cuja filha foi morta atropelada por inadvertência da patroa —incidente claramente inspirado no caso do menino Miguel—, patroa essa cuja barra o solicitador e a burocracia da ditadura tratam de serenar.
Ou ainda a mãe de Armando/Marcelo, uma indígena que trabalhava porquê doméstica e foi engravidada juvenil pelo pai dele, o patrão, um pouco que só sabemos no final do filme por Fernando, o fruto do protagonista…
Uma vez que sintetiza dona Sebastiana numa singeleza cortante, a vida tem coisas ruins, mas também tem coisa boa.
Ainda as ruins: desgraçadamente, o feminicídio continua uma praga no Brasil atual, e Pernambuco historicamente ocupou lugar de destaque nesse ranking da infâmia —não à toa, sempre foi também lugar de feminismo, onde pioneiras porquê Nísia Floresta e Josefina Álvares de Azevedo começaram a militar.
Um filme que tanto embaralha as desgraças com as riquezas de um lugar, tão entranhadas que quase fundidas, haveria de abordar o tema.
O apartamento onde Wagner se esconde é de Geisa, sobrinha de dona Sebastiana, segundo quem a dona não está lá porque viajou. Numa conversa com o protagonista Marcelo, a dentista Cláudia conta a verdade. “Ela foi morta pelo nubente, que não queria que ela viajasse pra estudar na Alemanha.”
No livro publicado com o roteiro do filme, ficamos sabendo que a própria Cláudia está refugiada ali, de visível modo, também por ser vítima de machismo.
Mas, porquê hoje, em 1977 a violência contra a mulher era disseminada pelo país. Os matadores de aluguel do filme são os sudestinos Augusto (Roney Villela) e seu enteado Bobbi (Gabriel Leone), que subcontratam o pistoleiro sítio Vilmar (inspirado no vingador da vida real Vilmar Gaia, perfilado por Eduardo Coutinho num Orbe Repórter justamente de 1977 e interpretado magistralmente por Kaiony Venâncio) para dar término a Marcelo.
Pois sabemos que a mãe de Bobbi foi morta pelo marido (e padrasto dele), Augusto —e ainda assim os dois trabalham juntos.
A angolana Teresa Victoria (interpretada pela portuguesa Isabél Zuaa) lembra outra propriedade do rol das muitas coisas ruins da cidade-musa de Kleber Mendonça. “Eu não palato de Recife. Não fui muito tratada cá, mas é uma cidade peculiar, esta”, ela diz a certa profundeza. Não menciona a termo racismo. Mas não precisa.
Mais do que um vocabulário “nordestino”, generalização simplificadora comumente usada no centro-sul, sobressai em “O Agente Secreto” um léxico pernambucano. Talvez o melhor exemplo seja o (agora já célebre entre entusiastas do filme) “raparigou/raparigar/raparigueiro”.
Raparigar significa se entregar à prostituição, fornicar. O verbo não aparece em dicionários. Raparigueiro sim, e pode ser substantivo ou adjetivo. O guarda noturno pego com uma mulher no sítio de trabalho, o registo onde Marcelo vai trabalhar, é chamado de raparigueiro.
Mais tarde, num dos mais hilários diálogos do filme, seu Alexandre (Carlos Francisco) intima Armando/Marcelo: “Tu raparigasse muito quando tu tava com Fátima, não foi?”. O genro fica pasmo: “Seu Alexandre…”. O sogro insiste: “Raparigou ou não raparigou?”. A pergunta fica no ar; Marcelo se recusa a respondê-la. Isso no filme, porque no roteiro original, publicado em livro, o mistério é desvendado pelo próprio Marcelo.
Ao responder a Marcelo sobre o sucumbido estirado a poucos metros do posto na cena de lhaneza, o frentista (Joálisson Cunha) conta que um varão apareceu com uma peixeira, e o vigia da noite “deu-lhe dois tebeide 12, um nas caixa dos peito, outro na faceta”. A onomatopaica e pernambucaníssima “tebei” deriva do som de um tiro, mas serve também para outras ações violentas/barulhentas —uma explosão, um chuto possante, uma pancada.
Depois, dona Sebastiana pede a Marcelo um “bigu” no Fusca, uma carona.
Quando o matador Bobbi trata o solicitador Euclides (Robério Diógenes) de “seu”, é repreendido por ele: “‘Seu Euclides’ não, que eu não trabalho no fiteiro, viu? ‘Doutor’ é melhor, tá visível?”. Fiteiro, em Pernambuco, é um pequeno quiosque de rua onde se vendem doces, cigarros e miudezas.
Para não falar das corruptelas que inundam a língua do cotidiano: “caba” (contração de cabra), “mai tá” (mas está, usada para expressar confirmação, endosso); “ômi” (varão)…
Amanda Menelau, professora/locutora/atriz e uma das mais interessantes tradutoras de pernambuquês na internet, precisa fazer um post próprio devotado ao filme. Se já fez e eu perdi, foi mal.
A Pitombeira dos Quatro Cantos sempre foi o conjunto de minha família em Olinda. A rigor, é uma troça, mas a nomenclatura e a categorização não dão conta das interseções que ocorrem entre blocos, troças, clubes etc., donde que não é vício invocar todos de blocos.
Embora Olinda seja colada ao Recife, porquê um bairro, e nós sejamos do Recife, todo ano alugávamos uma moradia, um sobrado daqueles enormes, em Olinda para passar o Carnaval. Espaços para mais de 30 ou 40 pessoas, parentes, agregados e amigos, todos dormindo em colchões no soalho, inclusive minha avó, até por volta dos 80 anos.
Carnavalesca nata, dona Maria Clara criou uma homenagem ao Conjunto da Saudade, fundado para reviver os Carnavais saudosos, e todo ano presenteava os dez netos com camisas da Pitombeira. Comprar o traje do nosso conjunto e acompanhá-lo é um hábito que até hoje tento manter, aos trancos e com lacunas demais para meu palato.
Cheguei a ter também a do Elefante, maior rival da Pitombeira em Olinda, com o qual simpatizo, assim porquê com outros blocos daquele que é o melhor Carnaval do país —Ceroula, Vassourinhas, Cariri, Eu Acho É Pouco e, simples, O Varão da Meia Noite, o rei da sarau.
Qual não foi minha surpresa, portanto, ao ver Wagner Moura com a camisa da Pitombeira em “O Agente Secreto” e mais ainda em seguir o frisson em torno da peça.
Pitombeira é a árvore da pitomba, uma fruta brasileira, uma das mais intrigantes e sensuais que há, prima maliciosa e tropical da lichia, fruta que não se come, se chupa (e depois se rói). É também, pela simplicidade e polpa ínfima, uma “fruta besta, se compra com qualquer tostão”, porquê diz o hino da Pitombeira, fundada em 1947.
O “chora menino pra comprar pitomba”, do pregão dos vendedores ambulantes do Recife do século pretérito, está em “Cordão da Saideira”, de Edu Lobo. E a Sarau da Pitomba, uma formosura em Jaboatão dos Guararapes, é celebrada por Martinho da Vila em “Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade”, o samba-enredo de 1972 da Vila Isabel, comovente exaltação a Pernambuco.
Fora de lá não é tão fácil encontrar pitomba. Uma vez que consolo, na camisa-hit amarela da Pitombeira dá para se saber um racimo de pitomba.
No apartamento de Marcelo e dos “refugiados”, há um quadro de Bajado. Poucos artistas expressam a psique pernambucana por meio da rua e das festas populares quanto leste operário nascido na zona da mata e que se tornou tão olindense a ponto de assinar seus trabalhos com o epíteto “um artista de Olinda”.
Morto em 1996, Bajado foi pintor de letreiros e fachadas comerciais, linotipista e chegou a trabalhar no Cine Olinda porquê cartazista e operador de máquina. Na cidade que virou sua, criou estandartes para blocos e se tornou sinônimo de Carnaval.
Num filme tão recifense não podia faltar frevo. E cá a música e a dança surgem porquê catarse. Primeiro na chegada de Marcelo ao prédio Ofir. Mas sobretudo na saída do encontro em que o protagonista vai narrar sua história a Elza (Maria Fernanda Cândido) —ela está ali para ajudá-lo— no apartamento supra do cinema São Luiz, onde se hospedavam os técnicos vindos do Rio (informa o projecionista seu Alexandre).
A entrevista é tensa, e o varão jurado de morte deixa o lugar enojado. É Carnaval no Recife e, na rua lateral do cinema, às margens do rio Capibaribe, a folia come solta. Marcelo se joga. O frevo escolhido para o orgasmo tinha de ser “Cabelo de Queima”, do maestro Nunes, um frevo de rua que pesa uma tonelada.
