'o agente secreto', cotado para oscar, estreia nos cinemas

‘O Agente Secreto’ propõe elo entre o passado e o futuro – 25/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Uma das razões das muitas surpresas provocadas por “O Agente Secreto” talvez decorra do indumentária de ele ser esperado, e depois visto, uma vez que um filme sobre a ditadura militar. Esse mal-entendido engendra outros, já que não se trata mesmo de um filme “sobre” a ditadura, mas “na” ou “durante” a ditadura, uma vez que explicita um letreiro no início em que se fala de um “tempo de pirraça”, o que de certa forma explicita o momento da ditadura sob Ernesto Geisel, posteriormente a defecção da flanco mais sinistra do Tropa.

Estamos diante de alguma coisa sobre o que não tenho visto referências mais detidas —o gato de duas cabeças, mas que pontua a anfibologia da era retratada, assim uma vez que do próprio filme. Uma cabeça olha para o pretérito, podemos pensar, outra para o porvir.

O pretérito é o tópico mediano do filme, embora não especificamente o pretérito ditatorial. Kleber Mendonça Rebento, uma vez que em outros de seus filmes, observa os fatos e pessoas passados uma vez que mistérios. Ele se preocupa em próprio com o esquecimento, ou antes, o apagamento.

Os sinais de apagamento ao longo do filme são evidentes e recorrentes. Há a morte da mulher do protagonista, de que se fala uma vez que uma doença, mas qualquer adulto percebe que se trata de uma história para enganar crianças.

Existe apagamento do nome do protagonista, Armando, substituído por Marcelo. Apagamento de sua mãe, jovem criada possuída pelo patrão e depois desaparecida. Esses sucessivos apagamentos desembocarão na cena final, em que o fruto de Armando-Marcelo entrará em contato, por meio da voz, com a história de seu pai, de que foi doido.

Esse eixo é mediano também em outros filmes do responsável, de “O Som ao Volta” a “Aquarius” —o talento na orifício do primeiro; a evocação de uma mestra libertária no segundo—, em que a remissão a fatos passados conforma e justifica toda a ação ulterior.

Armando é um varão obcecado pela figura materna, por seu apagamento. Isso o leva a buscar o Instituto de Identifcação, embora não explique sua presença no Recife. Ele é um professor, talvez ex-professor universitário com certos desafetos, mas não um perseguido político.

No entanto, ele se tornará —terá o passaporte confiscado, vai morar num abrigo para “refugiados”. Será um perseguido político-policial, digamos, pois o desafeto, um industrial paulista, consegue mexer os pauzinhos contra ele em Brasília, ao mesmo tempo em que contrata dois assassinos profissionais, evidentemente vindos de funções policiais ou militares.

Eles nos levam por outro caminho ao Recife e, com isso, à hoje famosa perna cabeluda que ocupa qualquer segmento do filme. Mas, antes dela, me parece que as pernas ocupam lugar privilegiado na trama, ou numa das tramas do filme.

A perna aparece logo de início, na ventre de um tubarão tomado na orla do Recife, enfim num lugar próximo. Em si, a perna é exclusivamente uma curiosidade. Não, no entanto, para um solicitador lugar, que se empenhará em roubar o membro do Instituto Médico Permitido para em seguida, com sua equipe, jogar aquilo de volta às águas.

A preocupação do solicitador não é com a perna, simples, mas com o restante do corpo —ele atirou no mar o corpo de alguém, um provável “comunistazinho”. Seu problema é que a perna pode suscitar uma procura do restante do corpo e, por conseguinte, trazer à luz a história —outro apagamento— do assassinado, o que seria inconveniente para ele.

Espera com isso enterrar de vez o caso da perna. Ela também terá sumido sem que ninguém saiba por quê. No entanto, essa perna persiste. Porquê um retorno do reprimido ela reaparecerá uma vez que signo, ou alucinação, ou o que seja, na memória popular —nas manchetes dos jornais, por evidente, mas sobretudo nos lugares de prática amorosa noturna ensejo.

A perna é um signo de repressão, óbvio, associado à atividade policial, e ao mesmo tempo um signo de liberdade, de um humor que dá vazão, indiretamente, a uma rebeldia que não pode ser expressa.

Até aí temos vários elementos que remetem ao gato de duas cabeças, mutante, portanto. Os assassinos profissionais são convocados entre antigos policiais ou militares. Esses, por sua vez, são extremamente próximos à polícia lugar, representada pelo solicitador. Os assassinos são contratados pelo industrial poderoso, que já roubou trabalhos da universidade e pretende ver o professor rebelde, Armando-Marcelo, fora do seu caminho. Quer “extinguir” o varão. É mais um que deve sumir do planta, não deixar traços, lembranças.

São personagens de um tempo de “pirraça”. De uma cabeça no pretérito e outra no porvir. De um pompa reprimidor não mais concentrado, e sim difuso, inoculado dentro do sistema de produção e de justiça por efeito da ditadura. Ele opera tanto nos assassinatos uma vez que no encobrimento da mídia, uma vez que na prevaricação medonha dos agentes policiais achacadores.

Chegamos com isso ao apagamento de memória final. O corpo que vemos na foto do jornal, escoltado da legenda, significa que o homicídio é investigado uma vez que “queima de registro”. As falácias publicadas sobre o professor acabam fazendo sentido, enfim. Um morto que, ao contrário da perna cabeluda, não incomoda.

Exceto, digamos, pela ação de algumas pesquisadoras universitárias que se põem a pesquisar sobre os estranhos arquivos que uma benfeitora houve por muito gravar com Armando. É uma arbitrariedade, provavelmente —quem está na clandestinidade tenta não deixar traços de sua passagem.

Talvez Armando-Marcelo, prevendo as dificuldades que serão impostas a ele pela ação do industrial tenha desejado mesmo deixar um prova para o porvir. Ele é de enorme valia para o filme, mas de quase nenhuma para historiadores futuros. A não ser, simples, pela jovem que se apaixona pelo caso e chega até o fruto de Marcelo, médico num sintomático banco de sangue.

Sintomático por mais de um motivo —o mais evidente é o banco de sangue ocupar o lugar de um macróbio cinema. Temos aí mais um apagamento, o dos cinemas de rua, cruelmente assassinados por outros serviços e, sobretudo, pela especulação imobiliária.

O banco de sangue que funciona em seu lugar tem um quê irônico, já que o cinema, lugar de tanto sangue, é substituído por uma lugar de coleta e doação de sangue. Mais do que isso, é o lugar onde trabalha o médico, fruto de Armando, que desconhece a história do pai. Mais que desconhece, parece fazer questão de desconhecer. Porquê em tantos fatos notáveis da vida pátrio, passamos uma borracha sobre o realizado uma vez que forma de continuar a viver sem mexer no pretérito.

O final é de uma melancolia tocante e, me parece, inédita até cá no cinema de Kleber Mendonça Rebento. Sinaliza uma situação em zero resolvida, um pretérito que agora pode ser revolvido pelo fruto (outro fruto, outro apagamento de memória), mas que talvez não seja. A questão é deixada em descerrado —será ele tocado pela curiosidade, uma vez que o testemunha que gosta de saber uma vez que termina o filme?—, o que nos impede de realizar a catarse que outros filmes, notadamente “Ainda Estou Cá”, proporcionam.

Me parece mesmo que faz um contraponto a esse título, mais do que ao filme de Walter Salles. É uma vez que se Marcelo dissesse que já não está cá, uma vez que sua mãe, uma vez que o varão da perna cabeluda, uma vez que o sucumbido anônimo da cena inicial no posto de gasolina.

Mas é também a estruturação do “Agente” que pode frustrar um pouco os fãs de “Ainda Estou Cá”, muito mais direto a reverência dos fatos da ditadura, mas também capaz de suscitar a euforia do público, ou de qualquer público, que pode respirar aliviado e orgulhoso daquilo que felizmente já passou.

“O Agente Secreto” tem de secreto justamente isso —lembrar que aquilo não passou, apesar das aparências. Para tanto, o filme de Mendonça Rebento adere com afinco a uma estética contemporânea, feita de cacos ou, se se quiser, de camadas do cinema pretérito.

Podemos ver o longa uma vez que um filme de mistério ou de proeza, uma vez que policial ou thriller político. Não podemos olvidar o papel que ali desempenha o filme de terror. Ele aparece citado em “King Kong” ou “O Iluminado”, mas sua perspicuidade vem da perna, seja a perna isolada do corpo original, seja a perna cabeluda.

Seja, por termo, pela presença fugaz mas decisiva do estranho gato mutante, com uma cabeça para cada lado, a do pretérito e a do porvir, enquanto o corpo vive num presente inquietante.

Folha

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