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‘O Agente Secreto’: Trilha alimenta sugestões e enigmas – 08/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Ao contrário de “Ainda Estou Cá” –a conferência parece inexorável–, a trilha sonora de “O Agente Secreto”, longa metragem de Kleber Mendonça Fruto indicado a quatro categorias no Oscar, incluindo a de melhor filme, aparentemente não utiliza a MPB uma vez que fio narrativo paralelo.

Dissolvido na linguagem fílmica junto à supimpa trilha original assinada por Mateus Alves e Tomaz Alves Souza, o juntura das cenas com citações de música brasileira e internacional não é, em universal, explícito. Considerar, entretanto, que a música seja exclusivamente escora para a expressividade dos planos seria subestimar a complicação de uma obra cuja meticulosidade se manifesta em cada um de seus parâmetros.

As escolhas musicais são pensadas sempre nas entrelinhas: sugerem e deixam no ar. “Samba no Arpège”, de Waldir Calmon e Luiz Bandeira, que abre a trama, refere-se a uma boate no Leme, no Rio de Janeiro, onde se samba “jogadinho”, “moderninho”. Trata-se de uma gravação de 1957, momento em que o Brasil, no hiato democrático entre as duas ditaduras do século pretérito, acreditava fortemente em seu devir.

No som diegético que toca no rádio dos carros —o filme é ambientado predominantemente em 1977— ocorre um diálogo músico bem-humorado: na cena inicial, de Wagner Moura no posto de gasolina, passa um veículo no qual se escuta “Eu Não Sou Cachorro Não”, de Waldick Soriano, sucesso das rádios AM na idade; pouco depois, no Fusca amarelo do protagonista, a filarmónica Chicago soa com “If You Leave me Now”. Os acentos são muito diferentes, mas o tema das duas canções é praticamente o mesmo.

No intervalo entre um rádio e outro, entretanto, emerge um som que a personagem não escuta; ele traz para a narrativa uma sonoridade que poderia passar uma vez que trilha original, mas não é.

Começa com o “Estudo nº2” para violão solo de Villa-Lobos (tocado por Geraldo Azevedo), sobre o qual erguem-se a viola caipira de Zé Ramalho e um tricórdio, espécie de bandolim com ordens de cordas triplas, nas mãos de Lula Côrtes. A filete é “Harpa dos Ares”, extraída do álbum “Paêbirú: Caminho da Serra do Sol”, de 1975, raridade que é tida uma vez que o vinil de maior valor mercantil do Brasil.

Regionalismo e psicodelia juntam-se nos quatro lados do LP duplo, cada um devotado a um dos quatro elementos: terreno, ar, queimação e chuva. Se há um álbum a conduzir a trilha de “O Agente Secreto” –e que pode, propositalmente, se confundir com a trilha original– é o da parceria cult assinada por Zé Ramalho e Lula Côrtes, da qual ouviremos outras duas enigmáticas faixas na sequência do filme.

Frevos e marchas tradicionais pernambucanas também aparecem uma vez que tema recorrente. Quando Marcelo (um dos nomes de Moura no filme) encontra Dona Sebastiana, vivida por Tânia Maria, surge o frevo de rua “Esquenta Mulher” —com a Orquestra de Nelson Ferreira.

“Cabelo de Queima”, do Maestro Nunes, virá mais tarde, e a presença da Filarmónica de Pífanos de Caruaru será fundamental no ato final, com o uso de “A Recontro do Cachorro Com a Onça” no troada do “cangaço urbano” e, no fecho, da “Marcha de Procissão”, filete extraída da histórica coleção “Música Popular do Nordeste”, lançada pelo publicitário e pesquisador Marcus Pereira.

Sozinho na morada dos “refugiados”, num momento principalmente tocante do filme, Armando-Marcelo —o virtuosismo sutil da tradução de Wagner Moura pode ser ainda mais admirado numa segunda ida ao cinema— coloca na vitrola uma filete específica, “Tema de Paixão nº 3” do LP “Desabafo” (1975), do Conjunto Concerto Viola.

As duas intervenções mais divertidas e invasivas da trilha sonora estão na maluca “Guerra e Pace, Pollo e Brace”, de Ennio Morricone —cuja letra diz um pouco uma vez que: “Na guerra contra a silêncio, peça o frango na brasa”—, que aparece logo em seguida a cena do telefonema no orelhão, ou na explosiva filete tirada do filme mexicano “El Espejo de La Bruja”, de 1962, no momento do trash-cômico ataque da Perna Cabeluda.

Por termo, há Angela Maria cantando “Não Há Mais Tempo”, de Fernando César e Britinho. Sobre um dissonante arpejo menor com nona, ressaltado dramaticamente pela orquestra, ela solta a voz poderosa: “Meu muito não sei/ Porquê é que tudo aconteceu”.

Presente em dois momentos importantes (inclusive no final), “Não Há Mais Tempo” foi lançada em 1964, ano em que começa o período de exceção democrática que, nas palavras de João Pereira Coutinho, cá nesta Folha, é retratado no filme de Mendonça Fruto uma vez que “experiência surreal, febril, alucinante e alucinada”.

“O Agente Secreto” não trata, de trajo, “da ditadura”, mas da desrazão: amputado da vontade universal, o corpo social passa a se movimentar por chutes, coices de “pernas cabeludas” que agenciam, secretamente, a ruinoso da vida e dos sonhos de homens e mulheres.

Folha

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