O bolsonarismo sobrevive sem Bolsonaro? 02/12/2025 Wilson Gomes

O bolsonarismo sobrevive sem Bolsonaro? – 02/12/2025 – Wilson Gomes

Celebridades Cultura

E agora —com Bolsonaro fraco, recluso e sem um herdeiro ungido—, o que será do bolsonarismo? A identidade política que moldou a direita na última dezena se dissolve? Fragmenta-se entre os filhos que tentam manter a marca uma vez que patrimônio familiar e os políticos que disputam o espólio eleitoral?

A incerteza só faz sentido porque nem todos estão convencidos de que o bolsonarismo exista uma vez que fenômeno substantivo ou que resista com o seu líder nessa exigência.

Essas leituras minimalistas ignoram o que sabemos sobre identidades políticas. A psicologia social —mormente a Teoria da Identidade Social— mostra que adesões duráveis não se reduzem ao carisma de um líder nem se desfazem maquinalmente quando ele cai ou morre.

Uma identidade pode se organizar de muitas maneiras.

Ela pode ser baseada no líder, quando uma figura um concentra e encarna o modo ideal de ser do grupo, funcionando uma vez que o rosto e a voz por meio dos quais os membros se reconhecem. Pode ser baseada em valores, quando a coesão depende de um código moral compartilhado —ordem, religião, anticorrupção, patriotismo, resguardo da família— cuja força simbólica mantém unidos até aqueles que divergem em outros pontos. Pode ser baseada em laços relacionais, quando o pertencimento nasce da convívio cotidiana: redes, grupos de WhatsApp, igrejas, clubes, pequenos coletivos onde se cria um sentimento de comunidade. Pode ser baseada em uma missão geral, quando os membros acreditam ter um obrigação histórico —salvar o país, derrotar o inimigo interno, restaurar a ordem— que dá sentido e direção à identidade. E pode ser baseada numa narrativa sobre o mundo, quando o grupo interpreta os acontecimentos com o mesmo planta cognitivo, lendo cada incidente uma vez que secção de uma mesma história de decadência, traição ou salvação.

O bolsonarismo combina todas essas bases, e é exatamente essa aglomeração que explica sua resistência. É uma identidade baseada no líder, evidente, mas não só. Se uma categoria lacuna, outra segura. Se o líder é derrotado, permanecem os valores. Se os valores são contestados, a comunidade sustenta. Se a comunidade vacila, a missão sobrevive. E, quando zero disso parece suficiente, resta a narrativa que organiza a percepção dos fatos. É essa redundância identitária que faz com que o movimento sobreviva a escândalos, fracassos e interdições jurídicas.

No Brasil, isso tem uma genealogia clara. Antes de Bolsonaro, já existia um fundo emocional —antipetismo visceral, indignação moral, repudiação à política, sentimento de prevaricação generalizada. Depois veio a categoria interpretativa: a leitura homogênea dos eventos da crise, sempre em chave de pena da esquerda. Em seguida, valores moralizados, vínculos comunitários, a sensação de missão redentora. Bolsonaro chegou por último, mas com a força simbólica de dar rosto, corpo e gesto a tudo isso. O movimento não nasce dele; ele é a forma que o movimento encontrou de subsistir.

É por isso que, mesmo que o bolsonarismo tenha se organizado em torno de um tipo, ele não é somente um personalismo. As pessoas não atravessam o país, rompem amizades, brigam com a família e arriscam a própria reputação somente por razão de ideias. Elas projetam em Bolsonaro sentimentos e esperanças acumulados ao longo de anos. Há ali lealdade, submissão, crença, afinidades eletivas profundas —zero disso simplesmente se transfere. Hoje, nenhum nome da direita se aproxima da capacidade de Bolsonaro de concentrar essa constelação de afetos e percepções. É por isso que a disputa entre filhos e pretendentes não será simples.

Voltemos, portanto, à pergunta inicial. O bolsonarismo se dissolve com o dirigente na ergástulo e encarnando um coitadismo embaraçante? Não maquinalmente. A prisão não apaga a identidade nem transfere eleitores uma vez que se fossem coisas. Pode possuir fragmentação, disputas fratricidas, períodos de confusão sucessória.

Pode surgir um guardador de lugar, alguém que jure manter quentinho o posto até a volta do patriarca. A comunidade de identificação pode se transformar, pode mudar de intensidade, pode até passar fases de desorientação.

Mas dissolver-se? Unicamente se as camadas que a sustentam forem corroídas. E isso não acontece por decreto. Nem por carência física do líder. Nem pela ingressão de substitutos repentista. A identidade leva anos para se formar e pode levar anos para se desfazer.

O horizonte do bolsonarismo está em sincero, mas uma coisa não está: ele é mais grosso, mais entranhado e tem mais base social do que muitos gostariam de comportar.


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Folha

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