Guerra, morte, palavrões, nudez e muito sexo. Essas se tornaram marcas inseparáveis de “Game of Thrones”, a série que mudou as séries com suas oito temporadas hiperbólicas, exibidas entre 2011 e 2019. Não é, portanto, envolvente propício para um menino de nove anos.
Mas esta é a idade de Egg, protagonista da terceira série da HBO a ingerir dos livros de George R. R. Martin. “O Cavaleiro dos Sete Reinos” estreia neste domingo (18), inspirada no livro homônimo com três contos sobre Westeros, o universo imaginoso criado pelo responsável americano.
Com graduação menor e tom mais ligeiro que seus pares, a produção é ambientada entre os acontecimentos de “A Lar do Dragão”, que tem uma terceira temporada a caminho, e “Game of Thrones”, que a HBO pretende continuar expandindo.
Um “road movie” medieval, “O Cavaleiro dos Sete Reinos” acompanha a improvável amizade de Dunk, um cavaleiro errante de origens humildes, e Egg. O primeiro tenta gerar um nome para si, enquanto o segundo quer justamente fugir de seu nome. Expor mais que isso estragaria a experiência para os menos aficionados pelo universo de Martin.
Curiosamente, é Egg quem se mostra mais habilidoso ao velejar pelas intrigas e a violência inerentes a Westeros. Um rapazinho careca e franzino, ele prepara Dunk para uma espécie de vida adulta tardia, depois que o rabino deste morre e ele precisa assumir a sua punhal.
Um colosso em profundeza e musculatura, ele não tem a perceptibilidade uma vez que um de seus fortes. “Ele precisa do Egg para permanecer vivo”, disse Peter Claffey, tradutor de Dunk, em passagem pelo Brasil em dezembro, quando participou da feira de cultura pop CCXP25.
“Há tanta política e traição em Westeros que ser bonzinho acaba não sendo um pouco bom. O conflito do meu personagem é esse, ter que assimilar certas características para poder sobreviver. Mas ele se apega à indulgência o sumo verosímil.”
Sob os olhares vigilantes da mãe, Dexter Sol Ansell concorda e diz que, na série, as aparências enganam. “Ele pode ser grandão e potente, mas sou eu, Egg, o protetor da dupla”, afirma o britânico, que diz não ter visto nem “Game of Thrones”, nem “A Lar do Dragão” devido às suas classificações indicativas.
Uma vez que a HBO já aprovou a segunda e a terceira temporadas de “O Cavaleiro dos Sete Reinos”, Ansell não pôde deixar a cabeleira crescer para a turnê de divulgação da trama. A teoria é percorrer com as gravações, já que nos contos do livro não há salto temporal para justificar a puberdade que se desenrola fora das telas.
Tom mais ligeiro e protagonista mais novo, porém, não impediram os criadores, Martin e Ira Parker, de injetar um pouco dos ingredientes que tornaram “Game of Thrones” motivo de parlapatório em “O Cavaleiro dos Sete Reinos”. Mas as intenções agora são outras, e às vezes parece até que a novidade série quer zombar de suas antecessoras.
Logo na primeira cena, Dunk pega a punhal que pertenceu ao cavaleiro de quem foi escudeiro. Seus olhos brilham, a mão se enrijece e, quando a icônica música tema de “Game of Thrones” está prestes a explodir, um namoro escarpado mostra o protagonista disparando fezes por trás de uma árvore.
Humor é secção intrínseca da produção, diz Claffey, que acredita que ele aparece sempre com um propósito, principalmente para ajudar o testemunha a saber e se relacionar com os novos personagens. “O projecto foi ter o sumo de comédia, sem deixar as coisas bobas. O objetivo é dar leveza a esse universo”, diz.
“O Cavaleiro dos Sete Reinos” não articula batalhas épicas e coreografias de dragões em CGI –imagens geradas por computador. A intenção, cá, é expor a verdade de Westeros em sua forma mais crua. Se “A Lar do Dragão” foi o spin-off que ampliou o xadrez político de “Game of Thrones”, “O Cavaleiro dos Sete Reinos” é aquele que olha para os peões e a vida tacanha que levam.
Assim, a expansão deste universo imaginoso pretende encontrar os mais variados públicos. Nos planos da HBO –isto é, se eles não forem alterados, caso a compra da marca e da Warner Bros. pela Netflix se concretize– estão ainda aventuras marítimas, animações e histórias de origem. Há um cocuruto proporção de sigilo envolvendo os derivados, porém, e uma vez que um punhado deles já foi cancelado no pretérito, é difícil saber o que de veste vai vingar.
