'o deserto de akin' é frágil ao acompanhar médico cubano

‘O Deserto de Akin’ é frágil ao acompanhar médico cubano – 02/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O grande, irrecusável valor de “O Deserto de Akin” é alargar o repertório temático do cinema brasiliano —e nos lembrar de que ele é alargável— ao tratar do quase ignoto trabalho dos médicos cubanos durante os anos do programa Mais Médicos.

Quem eram eles? Quase não sabemos. Uma vez que executavam seu trabalho, que tipo de atenção conseguiam dar aos pacientes etc… É por esse terreno que vai o filme de Bernard Lessa, a partir do trabalho do médico Akin. Estamos no momento da eleição de Bolsonaro, que prometeu mandar os cubanos de volta e fechar o programa. Existe certa impaciência com o retorno ou não desses profissionais.

Akin está disposto a voltar. Ele gosta das “missões”, uma vez que diz, que lhe são confiadas pelo governo cubano. Encontra-se, numa das cenas, com um colega, Rafael, que vive com uma brasileira, que por sinal está prenha naquele momento. Voltar não é uma opção para ele.

Desde o início, Akin namora uma moça brasileira, papel de Ana Flavia Cavalcanci. Talvez não fosse a melhor solução: ele a encontra numa balada e logo se tornam íntimos. Seria mais interessante, talvez, se o conhecêssemos antes disso: sofria muito com a intervalo do país? Tinha amigos? Era hostilizado por bolsonaristas? Era protegido pelo pessoal do SUS? Era um solitário?

À secção isso, Lessa cria cenas muito interessantes do atendimento do Mais Médicos a pacientes indígenas e idosos, sempre pobres, que antes não possuíam nenhum atendimento razoável. São cenas vivas, tão boas quanto Akin e seu companheiro cubano Rafael jogando beisebol —esporte vernáculo de Cuba.

A situação dois dois é dissemelhante: Rafael mora com uma brasileira e pretende se instalar no país. Akin sente-se muito livre e disposto a voltar para Cuba, pois gosta de viver em missão. Poderia ser um bom caminho para o roteiro, mas Lessa opta por outro.

A namorada tem um companheiro, vivido por Guga Patriota, gay simpático e cozinheiro. Essa particularidade dá lugar a outra bela reparo, esta sobre o trabalho na cozinha, quando uma assistente do rapaz recebe o prato, coloca-o num suporte e aperta uma chocalho para invocar o garçom. Parece uma bobagem, mas captar essas pequenas cenas do cotidiano talvez seja um dos aspectos mais difíceis dessa estranha arte do cinema. E Lessa faz isso muito muito.

Uma vez que zero é perfeito nesse mundo, o filme logo se desvia para o tópico meão da vida brasileira, ou pelo menos da vida brasileira no cinema brasiliano: a vida sexual, de preferência envolvendo a homossexualidade.

Ou, no caso de Akin, bissexualidade. Ele se encanta com o rapaz, o que não é de estranhar, porque ele é simpático, bem-apessoado e tudo mais. Isso poderia fabricar variantes interessantes, quando se sabe que as relações homossexuais em Cuba não são exatamente do aprazimento do governo cubano.

Daqui por diante o leitor pode se preocupar porque estará diante de spoilers, isto é, de revelações capazes de frustrar o seu prazer com as surpresas que o filme suplente. Mas não faz diferença, porque daqui por diante o filme trata de arruinar a si mesmo.

Prosseguindo: talvez Akin se sentisse reprimido em Cuba. Diz à moça que só uma vez teve relações com outro varão. Ela é muito emancipada e não se incomoda com a atração que o médico sente pelo outro rapaz. Os dois começam a namorar concomitantemente.

Mas aí entra em cena o novo governo e os cubanos são retirados pelo próprio governo de seu país. Uma questão lançada nunca será respondida: o que terá sucedido a Rafael? Será forçado a voltar para Cuba? E, se deliberar permanecer, será ele forçado a aderir ao novo governo, com camisa da seleção e tudo mais? E uma vez que ficará sua situação caso um dia queira voltar a Cuba? Eis um paisagem que o filme abandonou.

Em troca, Akin, que parecia muito feliz com a hipótese de ir embora, de repente passa a hesitar. Será que cooperar em várias partes do mundo, rumo dos médicos cubanos, ainda lhe interessa? Se apaixonou pelo país ou pelos seus dois amores, o rapaz e a moça? Ótimo, isso pode resolver sua situação emocional e sexual. Mas uma vez que ficará no SUS, de onde o novo governo pretende se livrar de qualquer traço de cubanismo?

Diante desse impasse o que resta é largar Rafael, o companheiro médico cubano na estrada e nos levar a uma espécie de final feliz, tão simpático quanto trivial. Diante das perspectivas que abriu é uma pena.

Folha

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