Neste país, você não pode manifestar impunemente que resultantes da mistura de negros, brancos ou indígenas não são uma subcategoria de negros. Uma jovem mestranda achou que podia transformar isso em agenda de pesquisa em uma universidade pública. Mostraram-lhe a porta da rua, depois de tentativas forçadas de reeducação ideológica. A evidente ponto, a estudante já não era tratada uma vez que alguém que discutia posições hegemônicas, fazia novas perguntas e queria reexaminar pressupostos, mas uma vez que tola, inimiga ou impudico.
Uma vez que isso é verosímil? E, sobretudo, uma vez que isso é verosímil em uma universidade?
É simples: o dogmatismo continua sendo uma tendência intelectual nesta estação. Sabemos muito o que é o dogmatismo porque o pensamento moderno se forjou na luta contra ele.
Em filosofia política, dogma é a persuasão que a fé ou a mando colocam fora do alcance da razão. O Iluminismo, que se insurge contra o dogmatismo e o obscurantismo, afirmava que o progresso humano e a vida em generalidade dependem do que pode ser investigado pela lucidez e livremente discutido em procura de consensos esclarecidos. Zero deve estar fora do alcance do examinação racional e livre; não há crença, lei ou princípio que não possam ser discutidos.
Na psicologia social, dogmatismo é um modo rígido de pensar. A ênfase recai na inflexibilidade: o quidam dogmático resiste a evidências contrárias, evita a incerteza, fecha-se ao dissenso e concebe suas posições uma vez que fixas. É uma maneira de pensar. Se esse traço aparece mais na direita ou nos extremos de ambos os lados, continua sendo a controvérsia clássica da espaço. Há resultados consistentes para sustentar ambas as teses.
O que surpreende hoje são duas coisas.
Primeiro, que justamente as arenas institucionais por vantagem da liberdade de pensamento —universidade e jornalismo, onde se fazem perguntas, se desafiam consensos e se testam certezas— tenham se tornado alguns dos principais espaços do dogmatismo e da ortodoxia. É mais que paradoxal, é contraditório, mas esses são os fatos.
Segundo, que a posição progressista, que se bateu por séculos por ciência, sátira, emancipação e desmistificação, seja agora protagonista de uma novidade vaga dogmática. Os progressistas não hesitam em declarar que determinadas proposições são indiscutíveis por princípio, fora do alcance do escrutínio da razão, blindadas do atrevimento da lucidez. Os ambientes sociais em que predominam formam mentes fechadas, dogmáticas, intolerantes. Negam fatos que não se encaixam em suas crenças ou que as incomodam, evitam livros, pessoas e ideias divergentes, simplificam de forma regateira o campo opoente (“é tudo a mesma coisa”), aceitam com maior facilidade o uso da força contra divergentes, dependem da ortodoxia e passam a criminalizar as posições que não toleram. O Iluminismo prometeu libertar a incerteza; os progressistas a reclassificaram uma vez que ofensa, para fazê-la emudecer.
Zero disso tem a ver com valor temática. Segundo o recém-lançado livro “Brasil no Espelho”, de Felipe Nunes, 96% dos brasileiros acham que Deus está no comando de suas vidas. Para uma grande segmento da população, questões relacionadas à vida em seguida a morte, à existência de um Deus onipotente e de uma ordem moral criada por ele são o que mais importa na vida de um ser humano —talvez a única coisa que realmente importe. Ora, neste país, não é considerado violação, imoralidade ou mancha indelével de caráter não crer em Deus nem em lei moral oriundo. Quase 80% afirmam, por exemplo, que alguém pode ser uma boa pessoa mesmo sem fé.
Agora diga que negros, uma vez que todo mundo, podem ser racistas; que racismo estrutural ou ambiental são hipóteses discutíveis; que políticas públicas baseadas em cotas raciais ou identitárias podem não ser nem justas nem eficientes; que “mulher” não é sinônimo de “pessoa que menstrua”; que mestiços não são negros de segunda classe; que não existem pessoas cis; que conhecimento na material não é um valor menor que flutuação; que o feminismo não deveria ser uma luta contra os homens, mas contra a desigualdade; que, em um concepção rigoroso de democracia, tem de possuir espaço para a direita e para conservadores —e veja a mágica ocorrer.
Não é preciso declarar o contrário; basta um “gostaria de rediscutir oriente ponto” para que se descubra o que o dogmatismo faz com quem o desafia. É surpreendente, mas, no novo consenso dogmático intelectual, é mais seguro duvidar da existência de Deus do que pedir para rediscutir qualquer cláusula do catecismo progressista.
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