O mundo pede por masculinidade, diz nicolas winding refn

O mundo pede por masculinidade, diz Nicolas Winding Refn – 11/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Quando Nicolas Winding Refn decidiu retomar o universo de “Pusher”, filme que acompanha um traficante com dívidas estratosféricas, o diretor dinamarquês vivia uma situação parecida: ele devia um milhão de dólares pelo fracasso de sua terceira produção, “Pavor X”.

Com o sucesso do longa de estreia, projeto de orçamento modesto que conquistou público e sátira, a volta ao submundo de Copenhague lhe pareceu a opção mais segura. A trilogia, restaurada pelo cineasta e pela Mubi, estreia na plataforma no dia 18.

“Diante do desespero, você precisa ser muito criativo. Não existe o luxo de se pensar o ‘e se…’. Você precisa enviar o roteiro, precisa receber a grana e precisa remunerar o seu banco. Acho que os artistas fazem seu melhor trabalho quando precisam consumir ou remunerar o aluguel”, diz Refn. Ele protagoniza o documentário “Gambler”, que narra a superação da falência e chega à Mubi na mesma data.

Estrelados por seres violentos e inseridos em hierarquias zero confiáveis, seus enredos tomam ruas escuras e a máfia para debater a moral humana. Pressões extremas recaem sobre os homens e a procura por quantia justifica quaisquer meios.

No caso de “Pusher”, a câmera sufoca os criminosos. Ela está sempre perto de seus rostos e não sobra margem para repensar decisões. Cada obra centraliza uma figura dissemelhante, mas as relações pessoais enfrentam a mesma frieza. Interações terminam em socos e mulheres são relegadas ao segundo projecto. Da dificuldade em reconhecer a paternidade à insuficiência sexual, as falhas cobram um preço.

“Nossos instintos podem ser facilmente reduzidos a “algoritmos de comportamento”. Se considerarmos o tipo de entretenimento que chega ao grande público, existe uma míngua enorme de masculinidade. Essa trilogia questiona o libido desses homens autodestrutivos. A masculinidade é justamente o que os destrói”, afirma Refn. A discussão ressurge em sua filmografia com o arquétipo do “herói soturno”.

Ao reportar o viking de “O Guerreiro Soturno”, papel de Mads Mikkelsen, ou o dublê de “Drive”, interpretado por Ryan Gosling, o cineasta inclui o feminino na equação. São personalidades melancólicas, assombradas pelo pretérito e que encontram na violência sua forma de frase.

Ele descreve Miu, protagonista de sua minissérie “Copenhague Cowboy”, disponível na Netflix, uma vez que assassina de “capacidade máxima para o masculino”. Mesmo em “Pusher”, de modo mais tímido, filhas e namoradas já se envolviam em negócios escusos.

“O mundo depende de estabilidade. Eu sinto que agora ele precisa de masculinidade. Mas, ao mesmo tempo, quanto mais feminino você é, mais masculino pode parecer. Um só pode viver com o outro. Acho ótimos os questionamentos atuais sobre o que significa ser varão e o que significa ser mulher.”

Apesar da sobriedade de seus primeiros passos, com o tempo Refn escolheu trabalhar mais cores e a direção se afastou do realismo. Se a trilogia é caracterizada por planos longos e pouco interfere nas vielas e depósitos que aprisionam os personagens, seus títulos se tornaram mais estilizados.

Em 2008, o ponto de partida foi uma história verídica. Levado por Tom Hardy, que fabula uma plateia imaginária ao explicar sua trajetória, “Bronson” retrata o reconhecido “prisioneiro mais violento da Grã-Bretanha”. Entre sonhos e montagens rápidas, o longa pensa a agressividade de Refn sob a ótica do fantástico.

Talvez o vértice tenha vindo em 2013. Ao resgatar a parceria com Gosling, o cineasta faz de “Só Deus Perdoa” um experimento, despreocupado com início, meio e termo. Ao seguir um lutador que tenta vingar a morte do irmão, tudo acontece numa dimensão onírica. Os cenários não parecem reais, flashes invadem a imaginação do varão e vermelhos saturados anunciam o mal que está por vir.

“Sinto que comecei com filmes que tentavam conquistar a veras, mas percebi que nunca poderei controlá-la. Logo resolvi filmar a ‘irrealidade’. Não significa que as emoções dos personagens não sejam verdadeiras, mas o mundo ao volta não precisa ser”, diz Refn. Fosse para telas grandes ou pequenas —ele também assina o seriado “Muito Velho para Morrer Jovem”, do Prime Video—, suas gravações se tornaram uma espécie de pintura.

“Com as redes sociais, estamos sempre conectados com o real. Acho que isso provoca um libido enorme pela fantasia.”

Esse rumo foi muito recebido por grifes uma vez que a Prada e marcas de motocicleta uma vez que a MV Augusta, com as quais Refn dirigiu comerciais exibidos em grandes festivais. Ele diz ver o cinema, a televisão e a publicidade uma vez que irmãs para se explorar a originalidade.

É um caminho que soa ligado ao seu último longa lançado até o momento, em que abraça o terror. Devotado a uma aspirante a protótipo, “Demônio de Neon” troca o mundo do violação pelos holofotes da voga e explora uma rivalidade feminina que nasce da procura pelo sucesso.

Hoje, ele finaliza seu próximo filme, “Her Private Hell”, sobre o qual pouco se sabe. Questionado pelo repórter, Refn afirma que não sabe o que esperar do projeto. Já se afastou do falido desesperado de duas décadas detrás.

“Para mim, a arte vem antes do quantia. Isso não exclui o quantia e nem os negócios, mas no final do dia você precisa gerar com seu libido, não com sua conta bancária.”

Folha

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