Porquê se pode ver já pelo título, para sua primeira experiência em séries de TV, o grupo Filmes de Plástico escolheu tratar de uma família simples em “O Natal dos Silva”. Simples e vasta: para nascente ano, três gerações encontram-se na morada onde viveu a matriarca, morta há pouco tempo e totem integral da família.
Às vezes é difícil entender a família Silva. Para eles, uma vez que para muitas famílias, Natal é o momento em que podem se ver pessoas há muito distantes por inúmeras razões. No caso, é o momento em que se encontram as não pequenas diferenças que existem entre eles.
O Natal, tal uma vez que representado, é a hora de brigarem, se xingarem, de humilhar uns aos outros. Mas, para nossa surpresa, eles continuam juntos. Há qualquer tipo de união nisso tudo. Não é unicamente a memória da mãe que os une, nem unicamente a morada onde ela viveu, nem a famosa mangueira do quintal.
Existe um tanto mais, até porque a morada todos querem vender, com exceção de Bel, papel de Rejane Farias, a mana mais velha. E esse um tanto mais encontraremos nas dificuldades econômicas pelas quais todos passam.
Isso define o universo: uma família modesta, negra, num mundo hostil, que lhes oferece poucas oportunidades. A família é onde se descarregam todas as mágoas, transformadas em queixas e rancores de uns contra os outros, mas ao mesmo tempo o único lugar onde se pode encontrar um refúgio. Não são os únicos: parece que o século 21 se organiza em torno da família.
Dito isso, vamos aos fatos. A série foi criada por Gabriel Martins, que dirige dois dos cinco episódios, Maurílio Martins cuida de mais dois e o outro fica por conta de André Novais Oliveira. A direção é uniforme, o que indica todos terem abdicado de sua pessoalidade em nome do conjunto. O grupo da Filmes de Plástico não deixa de ser uma família, só que aparentemente muito menos conflitiva que os Silva.
A atual matriarca da família é, ou deveria ser, a mana mais velha e atual dona morada, Bel. O problema é que a repudiação a Bel é quase universal, o que não espanta: seu mal-humor permanente, diga-se, é um ponto fraco da série, já que limita sua personagem a uma unidimensionalidade quase sufocante. Ela é intolerante, agressiva e boca-suja.
No entanto, os integrantes do grupo têm matizes variados, o que ajuda a formar um conjunto interessante. Há a mana que se opõe a ela, uma outra que tenta preservar o chamado espírito de Natal, o irmão que bebeu demais, sofreu um acidente de viatura grave e fica um tanto minguado diante dos demais.
Na geração dos filhos, a presença medial é Luciano, papel de Robert Frank, enfermeiro que chega com a provável futura prometida, Lin, papel de Aisha Brunno, e já na porta é recebido a pedradas por Bel. Os outros também são tratados a pontapés, com a única exceção de Jesinho, personagem de Italo Laureano, rebento adotivo de Bel, que mora nos Estados Unidos e é o único branco da família —ao menos o único reconhecido, pois Lucimara é uma espécie de pária no grupo.
Não é um pormenor insignificante: o personagem, branco da assombro universal, por ser ator, viver nos Estados Unidos etc., lembra que a convívio entre negros e brancos em requisito de paridade não precisa ser vista uma vez que um presente de Natal.
No mais, é preciso expressar que a tensão entre intolerância —e não unicamente de Bel— e convívio é que dá o tom à série. Justamente por serem relações muito tensionadas, me pareceu uma deficiência da série a opção por não lastrar a tensão com humor.
O tom é contínuo, mesmo quando haveria motivos para transformá-lo em situação cômica —digamos, a cena de troca de presentes parecia propícia a um tanto desse tipo, mas foi levada uma vez que motivo de tremendo constrangimento. Já a opção pelo melodrama no incidente final parece justa, na medida que oferece à grande terapia grupal a necessária catarse.
É preciso notar ainda a originalidade de Gabriel Martins e colegas na constituição do grupo e na concepção do enredo natalino, assim uma vez que na transporte da trama num espaço restringido. Embora quase tudo se passe no interno da morada, não se sente monotonia por isso. Em contrapartida, teria sido interessante usar mais a ótima frente do imóvel.
A estreia da Filmes de Plástico no universo das minisséries é uma experiência com vários pontos positivos, mas onde também se nota a inexperiência no trato do novo formato. Por outro lado, a direção coletiva —e mesmo colaborações no roteiro— mostra o tamanho do entrosamento do grupo de Escrutínio, de Minas Gerais.
Por termo, não se pode deixar de notar o estabilidade notável de um elenco com mais de 20 atores. Esse tipo de fenômeno não era frequente no cinema brasílio e agora se mostra, ao mesmo tempo, tanto no “Natal dos Silva” uma vez que em “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Rebento. Há não tanto tempo era difícil encontrar no Brasil atores capazes de dar conta adequadamente de pequenos papéis.
