Considerado uma vez que um dos principais polos de resistência cultural e de janela para a música independente e multicultural no país, o Festival Rec-Beat chega aos seus 30 anos mantendo vivas a vitalidade e inquietação que marcaram sua origem. 
Fundado em 1995 por Antonio Gutierrez, o Gutie, o Rec-Beat construiu, ao longo de sua história, uma trajetória pautada pela pluralidade, onde diferentes públicos, estéticas e gerações se encontram em meio ao fúria das troças, do frevo e dos maracatus que agitam o Carnaval pernambucano.
O Festival começou no sábado (14) gordo de Carnaval e vai até a terça-feira (17). Nesses dias, o Cais da Alfândega, no Recife, se transforma em um território onde a regra é a experimentação, já que o festival se consolidou uma vez que um espaço de invenção e circulação de novas ideias musicais, unificado pelo diálogo entre tradições e vanguardas.
Entre os destaques desta edição, que faz um diálogo entre cenas do Brasil, da América Latina e da África, estão artistas uma vez que NandaTsunami, AJULLIACOSTA, Carlos do Multíplice e Jadsa, que se somam a feras uma vez que uma vez que Djonga, Johnny Hooker, Chico Chico, Josyara e Felipe Cordeiro – que celebra 20 anos de curso uma vez que um dos pioneiros na fusão de sonoridades amazônicas, dividindo o show com Layse, nome emergente da cena paraense.
Para falar um pouco sobre o festival, um catalisador cultural que conecta modernidade e ancestralidade, a Escritório Brasil bateu um papo com o fundador do Rec-Beat, Gutie. Ele contou um pouco sobre a dinâmica do festival, seus causos e fez algumas observações sobre a cena dos festivais independentes no país.
Escritório Brasil: Queria que você começasse falando dos 30 anos de Rec-Beat. Uma vez que o festival foi pensado para esse ano de comemoração?
Gutie: Olha, a gente sempre tem esse duelo, de fazer o festival a cada ano. A gente, na verdade, manteve muito o concepção do festival. Uma das novidades que a gente está fazendo nesses 30 anos, além, evidentemente, de mexer no baú da memória, foi buscar muito da história do festival. Até foi uma coisa surpreendente, que a gente começou a encontrar muito teor, começou até a gerar um teor histórico do festival nas nossas redes. Está sendo muito interessante revisitar isso.
Eu tinha uma teoria, já há qualquer tempo, que vinha acontecendo no festival, que é a presença eletrônica na nossa programação. Eu queria muito ter uma coisa mais focada ainda, trazendo DJs, tudo. Portanto, neste ano, eu concretizei uma teoria de fabricar um selo: é um evento mesmo que a gente quer dar ininterrupção, chamado Moritz.
A gente abriu a primeira noite do festival com uma programação só voltada para DJs nacionais, locais e internacionais, e já com a perspectiva do Moritz se tornar também um evento autônomo com o tempo, podendo ocorrer associado ao Rec-Beat e também pode ocorrer de uma forma independente.
Essa é uma, uma vez que eu te disse, é uma teoria que eu tinha alimentando já há um tempo, que a gente concretizou agora. E no mais, a gente manteve a teoria do festival da pluralidade, de buscar relevância em todas as regiões do Brasil.
E também a gente que vem fazendo há vários anos essa questão de olhar para a América Latina, para a África. Portanto, esse é o resultado da programação que a gente conseguiu montar nesses 30 anos.
Escritório Brasil: Você falou sobre manter a identidade do festival. Conta um pouquinho uma vez que foi essa teoria de fabricar o festival? Uma vez que surgiu?
Gutie: O Rec-Beat nasceu naquele envolvente efervescente dos anos 90. No início dos anos 90, quando a gente teve cá no Recife, todo aquele boom, que hoje é divulgado uma vez que Manguebeat, e eu vivia naquele envolvente.
Portanto, os amigos, os lugares que a gente frequentava, era tudo compartilhado. A gente compartilhava muito esses espaços. E eu fiquei muito impactado, evidentemente, com o que estava acontecendo. Aí eu criei uma sarau. E olha, eu era jornalista, não tinha zero. Era uma diversão mesmo.
Eu criei uma sarau com o nome Rec-Beat, em um casarão no meio histórico da cidade. Na verdade, era um puteiro que recebia marinheiros. Era o Francis Drinks, também divulgado uma vez que Adílias Place e eu comecei a fazer umas festas chamadas Rec-Beat.
Aí surgiu uma oportunidade, eu mandei 12 bandas para São Paulo, para a [casa de shows] Aeroanta, pela era em 1993. Foi quando, meio que pode-se manifestar que foi a edição zero do Rec-Beat, porque a gente reuniu lá 12 bandas na Aeroanta e foi impactante, assim, com uma repercussão muito grande.
Aí eu comecei a perceber que, no carnaval, que eu gostava muito e frequentava Olinda. Na era, não tinha o carnaval no Recife, uma vez que tem hoje. Eu percebia que as pessoas tinham aquela curiosidade para entender que som era aquele que tanto se falava, né, que estava acontecendo no Recife, em Pernambuco. Onde estava aquele som.
Portanto, eu criei um minifestival, que era o Rec-Beat, num meio histórico, no Núcleo Luiz Freire, que tinha um quintal. Ainda existe o espaço. E aí eu comecei a programar, durante o carnaval, as bandas.
Ali a gente ficou com três edições, depois a gente recebeu um invitação da prefeitura do Recife, para que a gente contribuísse para fomentar esse carnaval no bairro do Recife, que é o sítio histórico. Portanto, nos mudamos para o sítio histórico e aí o festival começou a crescer, foi ganhando outras proporções.
O que antes era uma coisa muito para a cena sítio, a gente ampliou para a cena vernáculo, todas as regiões. A gente olhou muito para a produção do Pará, Bahia e outras regiões do Brasil.
Também comecei a olhar para a América Latina, para o continente africano. Portanto, hoje o Rec-Beat é fruto dessa evolução de olhares. Eu acho que nós [do festival] temos um olhar bastante periférico, me interessa muito o que acontece nas periferias. Não só a periferia urbana cá do Recife e de outras capitais do Brasil, mas a periferia mesmo de países, de regiões do mundo, do Sul global, aquilo que não está no meio, mas que a gente sabe que tem uma produção e uma proposta muito inovadora, muito impactante, que com o tempo acaba sendo adotada pela indústria. Porque eu entendo que os movimentos periféricos, em todos os sentidos, são determinantes para a construção de movimentos culturais que se tornam universais.
Escritório Brasil: É meio aquela imagem da antena parabólica fincada no mangue?
Gutie: Eu acredito em muito disso, da pluralidade, de encontros, de aquela coisa plural, de você ter a tradição com novas tendências, o eletrônico. Por isso, quando a gente fala de uma programação eletrônica, também sempre teve no DNA do festival, assim uma vez que a gente coloca um afoxé, um maracatu, ou uma coisa assim, uma vez que uma atração, uma vez que o Momi Maiga.
Isso sempre esteve presente, desde o concepção do Manguebeat, a gente esteve presente muito na cultura brasileira, essa coisa da pluralidade está presente no Rec-Beat, porque não tem uma vez que a gente não transcrever isso, né?
Escritório Brasil: É muito interessante o Rec-Beat ocorrer no período do Carnaval, tem tudo a ver. Para algumas pessoas, no entanto, pode não parecer óbvio, pode parecer muito dissemelhante realizar um festival no meio de uma sarau de dia muito grande.
Gutie: Olha, no início, rolavam mais estranhamentos do que hoje, sabe! As pessoas achavam que era um evento invasivo, mas aí foram percebendo que o Rec-Beat não é um evento anti-Carnaval, é muito pelo contrário. A nossa proposta se soma à pluralidade do Carnaval, portanto a gente contribui com uma célula dentro dessa, de todas as propostas que o Carnaval apresenta.
Eu acho até quem com o tempo, o Rec-Beat influenciou outros festivais fora daqui e também o Carnaval. Hoje, tem muitos palcos que emulam o Rec-Beat. A gente era um palco, mas com o tempo, a gente acabou, acredito, influenciando esse concepção, de palco, de shows.
Eu palato do Rec-Beat com palco, mas adoro também a tradição do Carnaval de rua, de solo, né? Com as troças, com os blocos, com as agremiações tradicionais. Isso, pra mim, é o verdadeiro Carnaval mesmo.
A gente complementa, mas a gente não pode transformar o Carnaval em um grande palco.
Escritório Brasil: Vocês não estão disputando com o Carnaval. Tem um lugarzinho pra todo mundo e não é disputar com essa teoria do Carnaval, né?
Gutie: Sim, eu palato muito da coisa da tradição, sabe!? Do Carnaval uma vez que uma sintoma espontânea das pessoas. É isso que move o Carnaval. O Carnaval já é vivo, tem essa pujança no Brasil todo, é feito pelas pessoas. A gente dá essa tributo, organiza um pouco a bagunça.
A gente recebe, no nosso público, pessoas que vêm de Olinda, que vão para os blocos, para as troças e à noite vêm pro nosso palco. Ou seja, são pessoas integradas ao Carnaval, que estão curtindo o Carnaval.
E também o nosso público se renovou muito, se renova. Portanto, nosso público é muito jovem, que mostra que o pessoal tem um frescor.
Escritório Brasil: O festival, portanto, dialoga com novas gerações, né?
Gutie: Isso é permitido porque você, de certa forma, cria o horizonte. Você assegura o horizonte quando você tem um público que ainda vai vivenciar muito, não só o Rec-Beat, mas o Carnaval uma vez que um todo.
Escritório Brasil: Falando em público, uma vez que é que você vê essa cena de festivais independentes?
Gutie: Eu acompanho. A gente tem a Abrafin [Associação Brasileira de Festivais Independentes]. Eu faço secção de uma associação Ibero-Americana, chamada para Desenvolvimento da Indústria da Música Ibero-Americana.
Eu frequento muito a invitação de festivais e feiras de músicas nacionais e internacionais, faço curadoria. Agora mesmo eu faço secção de um comitê internacional de arte de um evento na Costa do Marfim, zero de Música. Já prestei curadoria no Tenerife, na Colômbia.
Eu tenho esse olhar, assim, para todos os lados, acompanho os festivais. E nós vivemos, logo em seguida o pandemia, um boom de festivais. E uma vez que toda bolha, acho que agora passou por uma posição. Acho que ficaram os festivais mais tradicionais, os que já são uma coisa muito estabelecida, inclusive cá em Pernambuco.
Mas os festivais uma vez que o Rec-Beat, que a gente labareda de festival independente, têm uma certa dificuldade mesmo de se manter, porque os grandes festivais são meio predatórios, no sentido de atração de recursos.
Você vê que uma empresa que poderia entrar em dez festivais pelo Brasil e joga todos os recursos em um só, mais midiático. Portanto os festivais têm essa dificuldade e o Rec-Beat também, porque é gratuito. Eu só lanço a programação quando a gente tem certeza que temos recursos para fazer.
Portanto isso é outro duelo do festival e não só do Rec-Beat. A maioria dos festivais brasileiros que seguem essa trilha, inclusive os pagos, têm dificuldade. E no Nordeste também, porque existe uma cultura de investimento em patrocínio das empresas muito centralizada no Sudeste. Falta uma visão, acredito, de que existe uma riqueza cultural e propostas de eventos muito interessantes no Nordeste.
Acho que passa muito também pela visão do marketing das empresas, das pessoas que estão adiante disso. Tem muita aposta no óbvio e o Rec-Beat não aposta no óbvio e outros festivais não são óbvios. E isso exige um pouco de sensibilidade, exige um pouco de entendimento, um pouco de esforço para quem decide os investimentos.
A gente trabalha o ano todo para superar isso e para viabilizar o festival. A gente desenvolve projetos, lei de incentivo, editais, tudo que você imagina, a gente trabalha. A gente fica o ano todo articulando.
Escritório Brasil: Nesses 30 anos, qual foi o momento de maior perrengue? De duelo para que o festival acontecesse?
Gutie: Olha, a gente teve um, acho que em 2015, quando teve aquele momento de impeachment da Dilma. O Brasil virou aquele caos. Veio uma vaga na economia, que serviu uma vez que desculpa dos investidores. Ali a gente passou um momento difícil, sabe? Depois a gente foi se organizando e hoje a gente não depende somente de um patrocínio. A gente tem a Prefeitura do Recife, que é nosso maior patrocinador, mas já temos também o Governo do Estado, através da Fundarpe [Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco], temos a Lei Rouanet, a Uninassau, que é uma universidade, o Banco do Nordeste do Brasil. Nós temos pronunciação com o Iber Músicas, que é uma instituição ibero-americana que financia a circulação de artistas. Nós temos o Consulado da Alemanha… portanto a gente articula em várias frentes.
Portanto, o momento foi muito complicado nos anos 2015, 2016. Mas a gente também foi reagindo e mantendo o festival. Orgulho nosso é nunca ter falhado, a gente nunca deixou de ocorrer, exceto na pandemia, foi somente um ano. Portanto, nesse tempo todo o festival tem conseguido permanecer vibrante.
Escritório Brasil: Quais os momentos mais intensos do festival? A situação mais inusitada com artistas, com o público?
Gutie: A gente teve o show de Mudhoney, quando o festival ocupava uma rua menor [a rua da Moeda]. A gente era considerado um festival pequeno e não tinha uma estrutura de segurança profissional, uma vez que nós temos hoje.
Nesse dia, o povo conseguiu invadir muito o palco, subir no palco e coisa e tal, festejando com o Mudhoney. Na sequência, veio uma margem de punk rock, que é o Devotos, aí eu pensei: nossa, agora é que a galera vai derrubar esses troços cá.
Daí eu falei com o [vocalista] Canibal: “Canibal, olha essa sensação. O que a gente vai fazer?” Ele respondeu: deixa comigo. Ele foi lá no palco e disse ao público: “Galera, é o seguinte, vocês ficam aí embaixo, na plateia; e a margem fica cá, no palco, ninguém sobe cá!” E não deu outra. Mas eu achei que ia dar em confusão.
Teve um ano que teve uma tempestade na cidade, rosto, que todos os palcos pararam, menos o Rec-Beat, porque a gente conseguiu manter o festival. A mesa de som parou, a margem tocando e a gente abrindo a mesa e secando com um secador de cabelo. Quando a gente fechou a mesa, a margem acabou de tocar e ela já estava pronta para outra apresentação. Tem uns sufocos, assim…
Escritório Brasil: Mal acaba o festival, você já começa a pensar na próxima edição ou dá aquele tempinho para ir digerindo as coisas?
Gutie: É um processo contínuo, a gente vai pensando no festival o tempo todo. Tem muita coisa que a gente tenta, imagina para ocorrer e não acontece, fica para o próximo ano.
E até queria conseguir ter mais certeza das coisas. Uma vez que falei no início da nossa conversa, a questão mesmo do financiamento. Mas eu penso o festival o tempo todo, eu tenho lá os nomes que eu palato, que fico acompanhando e fora o Rec-Beat, a gente tem a nossa produtora, tem outros eventos. A gente tem o festival de cinema, de animação, que é incrível e está gigante também e que nos obriga a pensar nessa outra linguagem que é o cinema de animação.
Esse ano a gente está lançando o festival de música percussiva. É inédito também. É em março, e está muito em cima. Tem a possibilidade de a gente fazer em outras cidades.
A gente também tem a possibilidade de fazer o Rec-Beat em outras cidades, isso tudo meio que dentro de uma comemoração dos 30 anos.
Escritório Brasil: Quando você olha para esses 30 anos, o que você pensa? O que ficou para você?
Gutie: Olha, realmente 30 anos é muito. Eu não imaginava, porque a gente vai construindo edição por edição. Mas, assim, o que eu recebo do feedback das pessoas que acompanham o Rec-Beat, as pessoas que são mais jovens, é a maneira que o festival surpreende, o impacto que pretexto nas pessoas. Isso que eu acho bacana. O que eu mais limitado no Rec-Beat é exatamente isso: a pessoa vai para ver o nome que ela conhece e acaba se deparando com outras opções que causam surpresa, que são coisas transformadoras.
Eu acho que essa é uma função também de festivais uma vez que o Rec-Beat, que é você apresentar novas opções para as pessoas, para mostrar que existe vida além da mídia massiva, além dos algoritmos.
E eu acho que a verdadeira missão no festival, é essa: apresentar opções, propostas de várias regiões, de vários locais. Ou seja, mostrar para as pessoas que existem milhares de opções para se saber, para que as pessoas também acreditem, apostem, se joguem nessa teoria do novo, sabe!? É lógico que a tradição é importantíssima também e é permitido manter. Mas não ter terror, não ter terror do duelo, não ter terror do novo, sabe!? O novo sempre vem!



