O país precisa de uma direita republicana 30/09/2025

O país precisa de uma direita republicana – 30/09/2025 – Wilson Gomes

Celebridades Cultura

Há duas forças interessadas em borrar a relevo entre direita republicana e extrema direita: a própria extrema direita e setores da esquerda radical. A primeira precisa convencer o votante de direita de que sua única selecção política real é uma plataforma iliberal. A segunda prefere reduzir tudo à sua direita a um rótulo único —”fascismo”— porque isso simplifica o conflito, rende mobilização moral e dispensa honrar adversários legítimos de inimigos da democracia.

Ao país, porém, essa diferença faz falta: sem direita republicana reconhecida, cresce o espaço para aventuras iliberais.

Também importa separar movimento e eleitorado. Bolsonarismo e trumpismo designam um pacote de crenças e atitudes: personalismo do “varão poderoso”, antipluralismo, punitivismo seletivo, guerra cultural uma vez que eixo, tolerância a teorias conspiratórias e, em casos-limite, licença para a violência.

Votante de Bolsonaro ou Trump é quem, em determinada lance, optou por essa candidatura por razões diversas: repudiação à selecção, tarifa (segurança, costumes, impostos), voto econômico, voto antipetista/antidemocrata de baixa intensidade, baixa informação. Confundir votante com movimento é receita para perder a conversa com milhões de conservadores dispostos a jogar dentro das regras.

Notabilizar, entretanto, é necessário. A direita republicana aceita o jogo democrático, a alternância e o controle recíproco entre Poderes. Negocia duro, mas reconhece derrotas, respeita decisões de tribunais e protege direitos de minorias impopulares —inclusive quando discorda delas. A extrema direita relativiza essas âncoras: trata derrotas uma vez que fraude, defende “expurgos” institucionais, confunde opositor com inimigo, condiciona direitos e naturaliza a intimidação.

Em face da poder, conservadores democratas submetem-se a autoridades impessoais —Constituição, regras eleitorais, tribunais. Extremistas pedem obediência cega e personalista ao líder. A direita republicana fala em lei e ordem, mas com devido processo, proporcionalidade e padrões universais, enquanto a extrema direita abraça o punitivismo seletivo: rijeza réplica para “inimigos”, complacência com aliados. Conservadores preferem certos valores, mas convivem com pluralismo e não transformam costumes em ortodoxia estatal; extremistas querem impor uma moral única por currículo, exprobação e punição.

Há ainda um elemento: o oposicionismo identitário (ou programa por negação). Em vez de formular posições próprias, uma vez que faz a direita tradicional, a extrema direita inverte maquinalmente o que identifica uma vez que bandeiras da esquerda ou dos liberais: se eles defendem ciência, vacina, universidade, política social, laicidade e cultura, nós exibimos repudiação performática e radical a tudo isso. Não é sátira substantiva, é sinalização tribal. O militante nem precisa entender por que agora é contra vacinas, urnas eletrônicas e separação de Poderes; unicamente segue o grupo e sabe que não pode conceder zero ao “outro lado”.

Por que obstinar nisso agora? Porque segmento do eleitorado que rejeita a esquerda tem sido enganada: gente uma vez que Tarcísio de Freitas ou Zema vende a teoria de que a única direita disponível é a extrema direita. Não é verdade. Existe uma direita republicana —liberal, conservadora ou mista— que valoriza firmeza institucional, responsabilidade fiscal, ordem pública com garantias, liberdade de frase para todos e políticas sociais avaliadas por evidência e custo-benefício. O votante não precisa aderir ao pacote iliberal para declarar preferências conservadoras ou de direita.

Quem ganha quando essa relevo volta a valer? A democracia, que recupera competição entre alternativas legítimas sem plebiscitos morais permanentes, sem votos que existem unicamente para impedir a vitória do outro lado. O país, que troca paralisia e “jogo duro” destrutivo por barganha responsável e correção de rumos. E até a esquerda, que deixa de plebiscitar a política contra espantalhos e volta a disputar projeto, resultados e alianças no meio ampliado. Reconhecer a direita republicana uma vez que segmento do pluralismo não dilui convicções progressistas; unicamente restabelece o terreno geral onde se perde e se ganha dentro das regras.

Critique o “ismo”; convide o votante. Se voltarmos a tratar conservadores uma vez que adversários legítimos —e se eles aceitarem os limites do jogo—, isolamos a extrema direita onde deveria estar: fora do comando das regras, sob vigilância das instituições e em minoria política, quando a sociedade assim o deliberar.


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Folha

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